segunda-feira, 7 de julho de 2008

Sobre a Indefectibilidade da Fofoca

A família é como um partido. Existem competições, intrigas, subdivisões, e influências. Nesse partido, quase comunista, as influências, por parte dos outros membros, chamados de "parentes", podem decidir como ficará a imagem de um outro membro, e como conseqüência dessas influências, o membro difamado acaba sendo motivo de desgosto, quiçá chacota, mesmo por parte de outros membros que porventura não possuam nada contra o difamado, mas graças à pressão dos pares, também chamada de psicologia das turbas, exercida pelo difamador principal, passa também a difamar, iniciando assim, um ciclo, é o eterno retorno de Nietzsche se mostrando presente até nas famílias. Em suma, a família, ao contrário do que diria o senso comum, não é um órgão enternecedor, e sim, um órgão "fofocador". E essa fofoca, quando oriunda do âmbito familiar, pode acabar com uma pessoa, o difamado, mas pode também dar ao difamado um ar mítico, legendário, e é exatamente isso que aconteceu com a mulher da história que vou lhes contar a seguir. O que será descrito a seguir é fato, mas, talvez uma parte seja só invenção da fofoca, se for, não sei, e por decoro, ou simplesmente medo, sinto-me na obrigação de mudar os nomes reais dos personagens. A história que se segue, faz parte da história da minha família, portanto, é mais do que uma história verídica, é uma fofoca verossimilhante.
Regina trabalhava em um banco, mas lhes garanto que essa informação não possui utilidade alguma. Nesses tempos de labuta, Regina conhece um homem chamado Bento. Bento era casado e Regina era solteira, e a atração, logo de cara, foi mútua. Nessa situação, Regina era o que chamamos de concubina, amásia, ou se preferir no termo mais corrente, amante. Esse estado de concubinato é fortemente condenado pela sociedade ocidental, portanto, para se encaixarem nos padrões morais, Bento decide desquitar-se de sua esposa, para ceder aos caprichos de Regina. Regina é agora, o que de quando em quando pode-se ouvir em novelas televisivas, uma destruidora de lares.
Tendo já explanado sobre a origem de seu matrimônio, passarei agora a analisar fatos recentes de sua vida, a partir das informações a que tenho acesso, por conta da família.
Regina é agora, oficialmente, casada com Bento. Tem dois filhos, e um deles já lhe deu uma neta. Regina já fez viagens à Europa, principalmente à Itália, afinal, minha família possui raízes ítalas.
Como qualquer mulher de sua idade, entre os quarenta e os cinqüenta anos, que é dada aos vis prazeres do paladar para tentar compensar um vazio emocional, Regina vive constantemente no que podemos chamar de "luta contra a balança". Sua saúde, como ela mesma diz, já não é a mesma dos tempos em que era uma moça, digamos, núbil. Pressão alta, problemas de visão, diabetes e a iminente menopausa, anunciam o que ela pretendia esconder, a idade.
Além dos problemas supracitados, problemas esses que dizem respeito só à ela, Regina possui outro problema, já esse problema diz respeito mais aos outros do que à somente ela, ela transpira excessivamente. Não é raro, em reuniões de família, vê-la com sua toalhinha a se secar incessantemente. Antes o incoveniente fosse esse. Nós, brasileiros, fomos acostumados a cumprimentar-se com beijinhos e abraços, esse costume não é só de brasileiros, e sim de qualquer povo de língua latina, povo de sangue quente, e como parte desse povo, Regina também é dada a esses costumes comportamentais, e como você pode imaginar, uma fusão entre o costume dos beijinhos e uma pessoa que transpira aos cântaros, não pode ser coisa das melhores. Regina se dirige às pessoas, toda cheia de afeto para lhes cumprimentar, porém, o seu suor faz por exterminar o afeto que poderia existir na pessoa que recebe o cumprimento, essa pessoa que recebe o cumprimento de Regina, acaba por ter em seu rosto o suor de Regina, ato que em toda a sua complexidade é totalmente descortês.
Regina fala de maneira muito curiosa, seus hábitos ao falar se assemelham muito ao de apresentadoras de programas televisivos que se destinam a esquadrinhar a vida de pessoas de certa maneira influentes, creio eu que, pessoas que são mostradas nesses programas não são influentes por algo pelo qual devam receber uma medalha de mérito, mas sim, por um completo demérito, o demérito de reduzir a cultura à muito menos do que um simples átomo. Sua maneira de falar, a leva a ser chamada por alguns de "pseudo-socialite".
No entanto, são por essas, e por outras causas, que Regina é, desde já, um ser mitológico em minha família. A notoriedade que Regina ganhou, não foi por vontade própria, mas deve-se às supracitadas causas e efeitos da fofoca no meio familiar.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

La Vie en Rose

Evelise tenta levar uma vida normal, a despeito de suas qualidades, ou problemas, afinal, a linha entre o que é considerado como qualidade e o que pode se tornar um grande problema, é tenuíssima.
Desde pequena Evelise nunca conseguiu levar uma vida normal, dentro do que a sociedade chama de normal. Aos cinco anos de idade, ela descobriu o seu dom: ela vê o passado e o futuro de uma pessoa somente pelo modo como essa pessoa se abaixa para ajuntar algo do chão. Esse dom se tornou um grande problema na vida de Evelise, que com apenas sete anos era obrigada a encarar a vida não muito respeitável de seu pai, afinal ele vivia deixando algo cair. Ninguém conseguia esconder nada da pequena Evelise, e por conta disso, ela teve que viver em um orfanato.
Evelise nunca gostou de ser tratada como "a pobrezinha" por ter sido criada em um orfanato, por isso, pularemos essa fase de sua vida.
Após sua saída do orfanato, Evelise, já com dezoito anos, foi tentar a vida, não como puta, seguindo a linha de suas companheiras de situação-órfã. Evelise virou garçonete de um pequeno bistrô, em uma pequena cidade na França, tão pequena, que nem nome tinha, era conhecida como "A Cidade".
Evelise gostava de suas companheiras no Le Petit Verre, tinha elas como irmãs. Vivienne, a caixa ninfomaníaca; Monica, a outra garçonete, e também empalhadora de animais, e até de pessoas, quando lhe pediam; Catherine, a cozinheira lésbica; e Bovary, a dona do bistrô, e aviadora.
Evelise seguia com sua vida, tranqüilamente, até porque, depois de treze anos, ela certamente já se acostumou com a idéia de seu dom. Mas, tudo muda, quando um homem, aparentemente perdido, chega ao bistrô para pedir informações, e acontece que o homem deixa um molho de chaves cair no chão. E ele se abaixa para ajuntar as chaves. E Evelise vê. Era como se tudo estivesse sendo passado em slow motion e em branco e preto, o passado daquele homem, e seu futuro. Futuro talvez doloroso. Dizem que o amor é cego, porém, para Evelise, o amor além de cego, pode mudar o futuro. E o que ela sentiu por aquele homem de quatro no chão, catando as chaves, era amor, amor à primeira vista.
O bistrô estava sem nenhum cliente. Evelise estava usando um avental de quadriculado branco e vermelho. Evelise estava segurando um pano e um copo. O homem estava de pé olhando para Evelise. O homem estava tentando colocar as chaves no bolso do casaco, sem tirar os olhos de Evelise. Tudo isso ocorreu em poucos segundos, até que ambos notaram que estavam se olhando fixamente, e desviaram o olhar. Mas, como sempre, alguém tem que ceder.
- Você gostaria de alguma ajuda? - Evelise gaguejou um pouco no "ju" de "ajuda".
- Ah... Sim, quis dizer, talvez, ah... Não sei se... É que essas chaves são...
- Você não veio aqui por causa das chaves, certo?
- Bem, não vim. É que... - O homem esfregava as suas mãos enquanto falava, típico sinal de nervosismo. - Eu vim da Irlanda, e estou um tanto quanto perdido aqui na França, e eu queria saber aonde fica o Le Petit Verre, um amigo me indicou esse lugar, ele veio aqui nessa cidade, ano passado.
- Por acaso, você não viu a placa lá fora? - Evelise aponta para a placa acima da janela do bistrô.
- Não, e olhe só! Não é que aqui é o famoso Le Petit Verre?
- E é! E meu nome é Evelise.
- Eu queria saber, mas o nervosismo me impedia. E o meu é Colin.
- A minha casa fica à duas quadras daqui e meu expediente acaba em duas horas.
- Ah... Bem que me falaram sobre como os habitantes daqui são hospitaleiros...
- Colin, se importaria de dar uma volta pela cidade, em duas horas?
- Na verdade, eu poderia passar duas horas aqui sentado, sem problemas.
Evelise apresentou as suas companheiras, mas nas apresentações ela deu menos ênfase à Vivienne, já que ela era ninfomaníaca, e Colin já era dela, de Evelise. Monica, mais tarde diria, que logo viu que Colin era boa pessoa. Catherine, disse que mesmo assim preferia Vivienne. E Bovary disse que era melhor não falar nada, afinal era casada, e cidade pequena, sabe como é.
Evelise disse para Colin que tudo que ele consumisse naquelas duas horas seria cortesia da casa. Bovary disse para Colin que a cortesia não era da casa, e sim de Evelise. Vivienne disse para Colin que se ele quisesse, ela poderia oferecer outra cortesia. Evelise disse para Vivienne que Colin era gay. Vivienne bufou. Bovary deu um sorriso. Catherine nada ouviu. Colin riu. Evelise riu. E Colin nada pediu, com medo de Bovary.
Duas horas se passaram, Colin se despediu das mulheres famintas do bistrô. Enquanto Colin saía pela porta com Evelise...
Vivienne: Colin, qual é o seu número?
Evelise: Sete-quatro-nove, dígito seis.
Vivienne: Foda-se, Evelise.
Evelise: Quem sabe...
Como A Cidade era uma cidade pequena, as pessoas que viam Colin andando ao lado de Evelise, já comentavam sobre coisas como: seqüestro, gravidez, hepatite e fuga de galináceos. Evelise não se importava, ela sabia mais deles do que eles dela.



Obs.: La Vie en Rose contou com a colaboração de Emelí Mara Pavanello, durante o seu feitio.