terça-feira, 12 de agosto de 2008

A Arte do Crime Malfeito

O crime, seja lá qual for, mesmo que considerado algo maléfico pela sociedade em geral, fascina à todos. Certamente, alguns contestarão a afirmativa anterior, porém, isso é fato: o crime possui uma certa magia, um quê de prazeroso, possivelmente por conta da velha história de que "o proibido é mais gostoso". Outro fato, é que a sociedade tem fome de sangue, seja ele em sua forma pastosa e literal, ou na forma figurada. E essa fome animal, é, em parte, saciada pelos telejornais, que, ao mesmo tempo que saciam, também alimentam a imaginação das pessoas, o que, paradoxalmente, as deixa mais famintas. Se dissecarmos a fundo a nossa sociedade, e a submetermos à um olhar mais aguçado, veremos que o crime está intrínseco na sociedade, assim como o instinto nos animais. Logo, todos são loucos; logo, eu sou louco; logo, talvez não seja bom que você leia o resto disso.
Terminou.
Vestiu-se.
Pagou.
Foi-se embora.
Já era tarde.
Já era vício.
Já estava pobre.
Desempregado.
A reserva de dinheiro, o pouco que sobrara, já não sobra mais. Era sempre assim, depois que gastava, o vilipêndio pesava na consciência. O seu suado dinheiro estava agora em posse de um mercado, e de uma meretriz. Miojo, álcool e puta, comprados nessa seqüência, porém não consumidos necessariamente nessa ordem. As mercadorias, exceto a mulher, repousavam na mesa suja da cozinha. Dinheiro bem gasto? Bom, bem gasto ou não, tudo estava ali, olhando pra ele. Dois de seus três vícios estavam na mesa, do terceiro, ainda guardava o torpor.
Sem praticamente nada naquele pequeno apartamento-pulgueiro, ao qual nem de "casa" merecia ser chamado, a única coisa que ele poderia fazer ali dentro, era reclinar-se no sofá roto, e maquinar sobre como voltar a ter dinheiro, por menor que venha a ser a quantia. Mas ele já tinha um plano, e alguém para lhe ajudar.
A vizinha de cima,
e a namorada de Luigi,
respectivamente.
A vizinha de cima é viúva, e guarda dinheiro, corre o boca-a-boca. Não gasta quase nada, só nos remédios. Logo, é só deixá-la sem os remédios. Mas isso é difícil, e se assim for feito, a mulher sofrerá demais, e irá demorar. Portanto, que seja feito algo mais eficiente.
E ainda essa semana.
Como Luigi acabara de entrar para o rol dos desempregados, ele passaria os dias no seu pulgueiro, sem o que fazer, só esperando pela sexta, dia de folga da namorada.
Terça: ócio/acabaram os miojos.
Quarta: ócio.
Quinta: ócio/acabou a vodka; dois copos para acabar o vinho.
Sexta: quase ócio completo.
[16:43, a campainha toca e a namorada entra.
16:43, a namorada arrasta, atrás de si, uma mala. grande mala.]
- Tá tudo aí? - pergunta Luigi de forma ansiosa.
- Sim. Crachá... gravata e terno... revólver e silenciador... e o Otto.
- Pra quê o Otto, ele vai ajudar mordendo a velha?
- Não, mas ele me pediu pra vir junto... - Otto pula nas pernas da namorada.
- Ah, é? Pediu? Com convite formal, R.S.V.P. e tudo?
- Ah... Cala a boca, Luigi, tu sabe como é que o Otto pede - a namorada afaga o cão, e o cão ronrona levemente. (peraí, o cão ronrona?)
- Tá tá! O Otto fica aqui e a gente vai lá, e mata a velha.
- Isso.
Como só haviam eles no pulgueiro, se trocaram ali mesmo. Ela vestiu um tailleur cinza e amarrou os cabelos. Luigi vestiu o terno risca-de-giz, camisa branca e gravata vermelho-meio-vinho. E os dois colocaram os crachás, nos quais estava escrito "Censo 2008".
[17:14, deixam o pulgueiro.
17:16, tocam a campainha da velha,]
e a porta abre. É revelada uma figura de baixa estatura, trajando um roupão rosa, e pantufas azuis. A mulher tem seus cabelos já se transformando do preto para o branco.
- O que vocês gostariam? - a mulher, apesar da pouca-muita idade, está perdendo a visão, e, semicerra os olhos para tentar ler os crachás de Luigi e da namorada.
- Bom dia! - diz Luigi - Somos do IBGE e gostaríamos de entrevistá-la, podemos entrar?
- Mas é claro, adoro colaborar com a pátria!
Pelo visto, o assoalho de madeira fora recentemente encerado. Brilhava. Dava até pena de pisá-lo, mas é necessário. E logo estaria vermelho. Os móveis da sala eram dispostos de maneira metódica e obsessiva.
A honesta senhora se acomoda em sua poltrona e os pseudo-recenseadores fazem o mesmo em um sofá de veludo vermelho. Luigi agarra uma almofada. A namorada pega a caneta e a prancheta.
A namorada: O seu nome, por gentileza.
Mulher: Luci Lemos.
A namorada: Quantos filhos, se os possui.
Luci: Nenhum. (esboça um daqueles sorrisos que antecedem as lágrimas)
E antes que Luci comece a lamuriar-se, Luigi pega discretamente o revólver, com o silenciador já colocado, ajeita-a atrás da almofada,
e atira.
- Pra quê a almofada, seu retardado? - late a namorada.
- Ah, sei lá, vai que o silenciador não funciona?
- Tá tá tá, onde que a mulher guarda o dinheiro?
- Hum... veja bem... digamos... que eu não sei. - Luigi resmunga de cabeça baixa.
A namorada anda alguns passos para trás, afinal, o corpo de Luci, que sangrava no chão encerado, estava próximo da namorada, e o sangue quase tocou seus sapatos de liquidação. Mas, a namorada logo berra:
- O quêêêêêêêêêêêêê? Tu não sabe onde a velha enfia o dinheiro? Ah, pois bem que a minha mãe disse que tu era um bunda-mole... viado... nem pra roubar tu me serve!
- Calma...
- Calma o quê? Pensa que eu não sei que tu vai no bordel? - a namorada brandia a prancheta como se fosse uma Joana D'arc subversiva.
- Olha, façamos assim: cada um vai pra um lado, e procura alguma coisa, um cofre, ok?
- Certo!... Afinal eu quero o dinheiro!
Luigi pôs-se a procurar na sala, e a namorada foi para o local que aparentava ser o quarto. Ela derrubou os quadros de santos, mas não achou nada. Abriu o armário, e não tinha nada. Derrubou as roupas, e nada. Virou as gavetas, e nada. Mas, naquele monte de roupas espalhadas no chão, duas coisas lhe chamaram a atenção: algo preto, fino e comprido, e junto disso, uma cinta-liga. Ela, a namorada, deu um leve sorriso. Tirou o tailleur e vestiu a cinta-liga, pegou o chicote, se olhou no espelho, deu uma risadinha, e foi até a sala.
Luigi vira-se para trás, ao ouvir alguém se aproximando, e vê a namorada.
- Quê que é isso? - Luigi leva um bom susto.
- Não gostou? - a namorada dá uma risadinha, mordisca a ponta do chicote e passa-o por entre as pernas de Luigi.
- Tu não tava toda estressadinha, antes? E... onde que tava essa cinta-liga? - Luigi sente algo crescer em si.
- Hum... Mister Luigi, pelo visto tu ainda gosta de mim, ou pelo menos me quer... Então por que tu vai no bordel, seu filho da puta? Hã? - a namorada volta a berrar e bate com o chicote em Luigi.
- Basta! Viemos aqui pra matar e pegar o dinheiro, certo? Antes de dar o assunto por encerrado, só uma coisa: nunca te vi usando cinta-liga, essa aí é tua ou da velha?
- É dela. - a namorada aponta para Luci com o chicote - Tava lá no armário dela, junto de um terço...
- Hum... Enfim, achou o cofre?
- Não...
- Me ajuda aqui na sala.
Ambos derrubavam tudo na sala. A namorada quase tropeça no tapete.
- Larga essa merda que fica mais fácil! - Luigi aponta para o chicote.
Ela larga o chicote no chão, e, andando sem olhar para os pés, a namorada tropeça em Luci e cai na poça de sangue. Nesse meio tempo, Luigi derruba uma estante
e vê
o cofre,
destravado.
- Vem aqui! - Luigi parece uma criança, tamanha a alegria, chamando a namorada - Achei um cofre!
- Posso sair do meio do sangue, antes? - a namorada, com o rosto vermelho, balbucia.
- Tá.
O coração de Luigi dispara, e ele abre o cofre. E cai o queixo. Eles foram ali para, única e exclusivamente, roubar. Aparentemente, dentro do cofre não havia dinheiro algum, nem nada valioso. Ali dentro haviam: revistas de homens nus, cuecas, algo de forma fálica que aparentava ser um vibrador, um Kama Sutra e um pé de meia.
A namorada estava atrás de Luigi, e ria.
- Quer dizer que ela só comprava remédios, é?
- É que... eu ouvi dizer que... - Luigi se perdia no meio dos gaguejos e dos "e... que..."
- Ai, ai! Viemos aqui, matamos a mulher, fizemos uma enorme baderna, só pra roubar as fantasias sexuais da velha?
- Eu não sabia...
- Então, depois dessa ótima parte do meu dia, vamos embora? Eu tenho que tomar banho, olha só como estou...
- É mesmo... - agora Luigi troca a expressão de perplexidade, por um sorriso sacana. - Tomamos juntos?
- Claro! - nessa altura do relato, a namorada já tinha esquecido o bordel, o cofre e o corpo no chão.
Foram ao banheiro, lá fizeram o que queriam fazer, afinal, não fariam na sala, pois eles poderiam ser assaltantes e assassinos, mas ainda respeitam os mortos.
Voltaram do banheiro, nus, cansados e apressados. Cataram pelo chão as coisas que trouxeram, foram à porta, viram pelo olho-mágico que não havia ninguém no corredor, e saíram do apartamento de Luci. Nus. O pulgueiro de Luigi é no andar de baixo, por isso saíram assim, correndo.
Mas, no final da escada que dava no andar de Luigi, uma mulher vinha subindo. E viu-os descendo, nus, correndo. A mulher ficou chocada e correu para o seu apartamento, que é no andar do de Luci. Quando chegou no seu andar, ela viu, entreaberta, a porta do apartamento de Luci. Dois nus, e uma porta aberta, sendo que essa vivia fechada, a mulher estranhou. E a mulher ligou para a polícia.
Certamente, a polícia demorou a chegar, mas quando chegou, foi eficiente. Ou nem tanto. Viram um corpo e um apartamento revirado, mas nada de nus.
O soldado Fernandes, quando chegou, logo viu o porquê da bagunça e da morte: um cofre aberto. É claro que o capitão riu quando viu os artefatos que se encontravam no cofre. Porém, ele estranhou, nada parecia ter sido roubado. Fernandes, tarado, pegou o Kama Sutra e abriu para ver as gravuras, enquanto os outros trabalhavam no corpo e no resto do local. Ao abrir o livro, viu um grande furo no meio das páginas, onde estavam várias notas de Euro, dois cartões de crédito, um colar de pérolas brancas e um par de brincos de pérolas negras. Indignado com a inocência dos mentecaptos, ele sussura para si:
- Qual foi o idiota que veio aqui só pra derrubar a mobília? Retardado... E nem leva nada... Vê se pode...
Engano do senhor Fernandes: a namorada levou a cinta-liga e o chicote.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Sobre Como Teria Sido, Caso os Personagens da Bíblia Voassem

Há alguns dias eu conversava com uma pessoa, e durante a conversa (inútil em sua maior parte) nos deparamos com algumas questões que podem parecer triviais (eufemismo para "nonsense", que é eufemismo pra "sem sentido", que é eufemismo para "idiota" e que daí pra frente me perco nos eufemismos), e uma dessas foi a questão: como acabar com uma história? Sabe aquela história ótima em todos os sentidos? E durante nossa conversa nos demos à imaginar como teriam terminado (ou nem começado) filmes hoje famosos e com belas histórias, se alguém tivesse resolvido acabar com a história deste filme. E você me pergunta: como acabar com uma história? E a resposta é: voando. Sim, voando. Mas (como sugere o título disso que você está lendo), deixemos por um instante os filmes de lado, e pensemos sobre como teria sido o destino de personagens famosos da Bíblia (sabe aquele livrinho? Esse mesmo), caso eles voassem. Portanto, assente-se, e caso depois de ler isso, você queria voar, pense em como seria a sua história.

Adão e Eva
Às devidas explicações: Segundo as tradições cristãs que cercam nosso planeta de forma incrível, Adão e Eva são os pais do pecado, os que cometeram o pecado original, comendo a maçã que Satã, encarnado em uma cobra, lhes oferecera. Adão e Eva andavam nus, sem vergonha de Deus, sem medo dos animais, e, certamente, sem lenço ou documentos. Deus, em toda a sua divinal sapiência (sapiência é uma questão totalmente relativa), após o pecado do belo casal Barro & Costela, criou-lhes vergonha e os fez andarem cobertos, e depois mandou os pobres para fora do Éden. Fora do Éden, tiveram os filhos Caim e Abel, mas aí já é outra história.
Dando asas: Certamente, a Bíblia deixou de fora muita coisa. Inclusive a incrível vontade de Adão e Eva experimentarem o topo de um monte logo ali do jardim, visto que já haviam feito suas sacanagens por todo o Éden, deixando os puritanos flamingos rosados no lago. Outro sonho alado de Eva, era estar voando, nua e silenciosa, e quando ver um leão dormindo, logo assustá-lo e sair voando, só pra ver o que aconteceria. Depois de comerem o fruto do Tinhoso, certamente Adão e Eva voariam loucamente com suas alvas asas a bater sobre o Éden, asas essas que de tão grandes, criavam algo como um eclipse no jardim. Você pode me perguntar: mas por que que eles voariam loucamente depois de comer a maçã? É que alguns teólogos afirmam que existe uma possibilidade de que naquela maçã existiam substâncias que hoje são conhecidas por integrarem o ecstasy. Quando Deus os mandasse embora, não haveria nenhum problema, já que eles são seres alados e que logo depois que saíssem de lá, poderiam voltar para pegar alguns conselhos com o sábio Papoulos, um macaco da Vila Green Éden.

Moisés
Às devidas explicações: Nos tempos em que os hebreus viviam sob a tirania egípcia, uma escrava hebréia põe um filho no mundo, e logo depois o coloca num cesto em um rio. Logo depois, a irmã do faraó acha o garoto no rio, e o toma como se fosse seu filho. Moisés cresce em meio à realeza egípcia, mas, algum tempo depois, sente seu sangue hebreu falar alto, e desce do palácio para se juntar à causa dos hebreus que queriam se libertar da escravidão (alguns milênios depois, grupos vanguardistas do meio das artes fariam isso lutando pela causa, só que de maneira inversa). Moisés se torna herói do povo, traz os dez mandamentos, fala com Deus por intermédio de um arbusto em chamas, tira água de uma pedra, pede para que pães caiam do céu e abre o Mar Vermelho.
Dando asas: Só pra se ter uma idéia, se Moisés tivesse asas, ele mal entraria naquele cestinho do rio, e sairia por aí voando, caso isso tivesse acontecido, anularia toda a história dita anteriormente. Porém, se ele fosse um bebê pacífico e não quisesse voar, logo que chegasse em sua adolescência, sairia voando por uma das clarabóias do palácio, fugiria do palácio porque não entendia por qual razão tinha que usar aquelas pesadíssimas maquiagens, já que sempre que ele saía do palácio para sua caminhada matinal, ele transpirava muito, e o lápis em seus olhos e as pinturas do rosto ficassem totalmente borradas (hoje em dia, homem que usa maquiagem é... Bom, deixa pra lá). Caso ele não fugisse voando do palácio quando era jovem, mais tarde ele fugiria, mas dessa vez unindo-se à causa sindical, e não andaria a torrar seus pés na areia escaldante, ele voaria e sentiria a leve brisa (existe brisa no Egito?) bater em seu rosto, ou um airbus da TAM, mas aí já estamos saindo de nosso propósito. E você acha que se ele voasse, ele subiria à pé o monte Sinai? Evidentemente que não, isso já diminuiria o longo tempo que passou lá em cima, enquando ajudava o Altíssimo a fechar o caixa. Mas, tudo mudaria mesmo na situação do Mar Vermelho. Certamente, se ele voasse e fosse dotado de enormes asas branco-acinzentadas, ele não chegaria junto de sua magote na beira do mar e berraria pro céu: "Tá, e agora?" É óbvio que ele diria: "Todo mundo aí? Então subam aqui nas minhas asas, por ordem alfabética, para podermos atravessar isso aqui, ok?" E, com certeza, ele não teria seus livros publicados pela editora celestial.

José
Às devidas explicações: José tinha muitos irmãos e um pai, algo comum nos tempos bíblicos. Mas, José tinha sonhos. Tudo bem que ter sonhos pode não ser nada muito extravagante, mas os sonhos dele são um tanto quanto... egocêntricos. E premonitórios. Sonhou coisas como, um feixe grande de palha estava no centro de um círculo, e em volta dele vários outros feixes menores se curvavam a ele. Nesse sonho, ele intepretou-se como o feixão, e seus irmãos e seus pais os feixinhos. Teve outro sonhos desse gênero, só que com corpos celestes. Um dia, José ganhou uma túnica multicolorida, afinal era o filho preferido. Seus irmãos, por inveja, batem no pobre coitado, e o jogam um fosso, sua túnica fica embebida de sangue, eles a retiram, deixam-no nu, e levam ao pai a túnica e dizem que o filho está morto, depois voltam ao fosso e o vendem como escravo para alguns egípcios. Tempos depois, já no Egito, devido à algumas reviravoltas do acaso, José vira ministro do faraó, e um dia recebe seus irmãos e seus pais sofrendo de fome em seu escritório, primeiro, lhes trata com desprezo, uma espécie de vingança, e depois conta-lhes ser José, e todo mundo chora, e fade out.
Dando asas: É preciso dizer muita coisa? É claro que ele ia sair voando do fosso e fugir, certo?
Ou você acha que ele ia ficar lá? Nem com uma paciência de Jó! Jó? Ai... Aí já é outra coisa.

Jonas
Às devidas explicações: Jonas desperta a ira do Senhor-Todo-Poderoso-Oba-Oba, e este o manda pra dentro de uma baleia, assim, sem mais nem menos (tá, não é bem assim).
Dando asas: Jonas acordaria desnorteado, perguntando-se aonde estaria, e logo àcima de sua cabeça veria algo como um sino, que na verdade é a amígdala da baleia. Ele tocaria o sino, mas perceberia que não era um sino, pois daquilo saía uma gosma incolor, e logo depois sentiria um solovanco, era a baleia mexendo incômodamente a língua, o que faria Jonas descer para o trato digestivo do grande paquiderme marítimo. Lá dentro, ele se revoltaria, a abriria suas longas asas (o que deixaria um tanto quanto irritado o estômago da baleia), e sairia voando pelos oceanos dentro da baleia, porém ninguém o veria, somente veriam a baleia, a voar pelas cidades e mares. Alguns acharam isso estranho, mas só murmuravam alguma oração que lembravam, mas a baleia continuava seu aparente passeio pelos ares.

Pôncio Pilatos
Às devidas explicações: Pôncio, mais conhecido só como Pilatos, até porque, com um nome desses, eu também preferiria ser reconhecido pelo sobrenome (a não ser, claro, que o sobrenome seja da mesma laia). Pilatos foi encarregado do julgamento de Jesus, julgamento esse que, terminou com 1x0 pra Barrabás, mandando Jesus direto pra cruz. Mas, quem decidiu o veredicto não foi Pilatos, e sim o povo. Pilatos disse a famosa frase: "Lavo as minhas mãos", dizendo assim que Jesus não era mais de sua alçada.
Dando asas: Pilatos, ao invés de dizer: "Lavo as minha mãos", ele diria: "Até mais, e comprem meus vídeos!". Ele sairia voando pelo meio daquela balbúrdia, e passaria algum tempo desenvolvendo os princípios de uma seita conhecida como "Pilates", que possui vários vídeos sobre as variadas formas de ser praticada, e que, atualmente, leva multidões de mulheres para as academias achando que o Pilates lhes salvará da iminente velhice. Existe também a teoria de que Pilatos tenha reencarnado em Solange Frazão.

Jesus Cristo
Às devidas explicações: Por acaso você não conhece a história de Jesus? Desculpe-me, mas não serei eu a lhe contá-la.
Dando asas: Jesus podia ser filho de Deus em uma virgem, mas nem por isso ele voava! Mas, se ele voasse, tenho plena certeza disso, na hora da circuncisão ele voaria rapidamente para o infinito, e além. Mas, caso assim não fosse, creio que em vez de andar sobre as águas, se ele tivesse voado com aquela rede cheia de peixes nas costas, o feito seria mais comentado. Você já notou como a última ceia foi uma completa bagunça? Então, Jesus voaria por sobre a mesa, chutando os copos de vinho, e mandando todos calarem as suas respectivas bocas. Sabe-se das hipóteses de seu caso com Maria Madalena, então, pensando assim, vemos que ele talvez poderia ter pego Maria e voado com ela até Roma, e lá aberto uma pousada, ou uma filial do Restaurante da Multiplicação, ou aberto uma vinícola, a qual tinha como base a água, já que ele podia transformar água em vinho. Quando estava no jardim do Getsêmani, ele não ficaria aqui a prantear e dizendo ao vento: "Afasta de mim esse cálice", na verdade, se ele voasse, ele iria até o céu, e lá tirar umas satisfações com seu pai. E se seus argumentos não fossem suficientes para assim ele escapar da morte prevista, ele poderia, então, durante a Via Crúcis, alçar vôo e aterrissar, por exemplo, no Havaí, dando origem à igrejas de surfistas. Mas se ele estivesse com preguiça de fazer isso na Via Crúcis, ele ia ter que morrer, afinal, tentar voar estando pregado numa cruz, não ia dar certo. Depois morreria, e três dias após, ele ressucitaria, iria encontrar-se com seus amiguinhos, e depois ele seria assunto aos céus. Pronto acabou.


P.S.: se Jesus foi assunto, então ele voava? Quer dizer então, que ele voava e nunca fez nada de útil? Agora sim é que me perdi de vez.