sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

mercúrio

só se tem saudades daquilo que se teve
não sentirei saudades portanto
porque não a tive
porque não foi por falta de querer

só vou sentir aquela dor lancinante
aquela dor egoísta
de quando se perde a chave de casa

(só não me prometo esquecimento completo
embora devesse)

de quando se perde a chave da alma

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

tábua da lei

(se é pra acabar)
que seja acabado
(se é pra morrer)
que seja morto
(se é pra ter fim)
que lho seja dado
(se é pra se esquecer)
que seja apagado
(se é pra se perder)
que nunca mais se ache

- se é pra morrer
que seja afogado

terça-feira, 16 de novembro de 2010

para ser usado como vaso

o rapaz de preto e fino colete
pediu à rapariga que o acompanhasse numa cantiga
nasceu um sentimento com um riso e um ramalhete

para ser pixado na avenida

pede a teu deus tão sereno e bom
que tu sejas transformado ou que fiques transtornado
e depois apresenta a mim teu novo som

para ser pintado em tons pastéis

no berço dos carinhos desalmados
resmunga a vida depois de tanto esquecida
a ver folhas caírem de tempos emprestados

terça-feira, 9 de novembro de 2010

quatro ou foro íntimo

éramos como atores
naquele teatro de arena
o mise-en-scène era nosso
a peça tinha a alma morena
era um infindável jogo de cena
em ti procurava um equinócio
em mim procuravas teu inverno
deixaste-me conhecer o
teu foro íntimo e tiveste
conhecimento de todo meu
sistema carcerário que
era tão egocêntrico

terça-feira, 19 de outubro de 2010

cinco ou oxalá

tu não me apareças
mais assim tão bonito
essa tua boniteza de impurezas
me é como um vivo rito

esse palco em que tu danças
aceite antes do derradeiro apito
mais alguém para as contradanças
vivas de incomparável atrito

sábado, 16 de outubro de 2010

trompe-toi!

fluxo
ilimitado
de consciência:
pecado
pecado

seis mais um suspiro

soa-me alto o
silêncio que tratei como
sussurro proposital ou
sismo antinatural
sem reclamar agora
silencio o tudo

- ai que frio me dá
essa luz de inverno

seis

durante seis anos ele fez uma poupança
até que um dia cansado de toda essa história
resolveu viver voltar à antiga pujança
só que como gastar como ser não lhe vinha à memória
já bem diziam que quem não dança segura a criança

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

sete

a maldizer tudo pelos ares
a enfiar a cabeça num muro
tão alto de desgosto e sofrer
a acender sete velas sem entender
a esperar por sete selos vazios
tão aziagos de angústia e viver
a ver numa porta o porvir
a marcar-se em nome do nada
tão desconhecido de desejo e partir
a economizar o ser das ânsias
a tecer as horas modorrentas
tão soporíferas de perda e remar
a rabiscar a fim de exorcizar
a escrever como expressão do desânimo
tão presente de tenacidade e existir
a pintar de d'us as paisagens
a transformar-se na sina
tão obscura de gozo e revirar

sábado, 2 de outubro de 2010

aux rues vides

où est ta rue?
où tu habites?
- tu me l'avais dit
mais je l'ai oublié
quand je t'ai revu -
comment tu vois tes rêves?
comment je te semble?
qu'est-ce que tu fais
quand ta vie danse?
qu'est-ce que tu dis
à toi-même
quand tu es dans
le silence?
pourquoi tu ne
m'as pas dit
je vais?
pourquoi tu ne
m'as pas demandé
où est ma rue
où j'habite?

- je vais aux rues vides
je ne suis que ce qui est vide

terça-feira, 28 de setembro de 2010

autolimpante

dois dias depois ele abriu todas as portas
respirou o ar das janelas e batucou nas panelas
dirá a vizinhança pobrezinho bateu as tortas
[botas

- trazia ele a voz embargada
como visse a mãe enterrada

terça-feira, 21 de setembro de 2010

cosido

eis que o amante transversal
suas roupas arrancava nu ficava
a amar-se em meio ao milharal
por que arfava por que cantava
a si mesmo num latido salarial
quem lá o via ébrio porque gritava
talvez se esquecesse da vidinha semanal
imponente oráculo do enfado que marchava
e que tolhia qualquer novo ímpeto seminal
talvez se esquecesse da vidinha que trepava
por sobre as cercas das ideias num arroubo visceral
dominada por um santo que lhe urrava
quem lá o via ébrio pensava em carnaval
um espetáculo de luzes interiores que brindava
a uma vida semiaberta a portugal
de um louco aparente que penava
é que vêm as belas ideias como um coral
de multicolor anima que de ser brincava
de um aparente louco terminal
sai a redenção

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

intermezzo de um fumista

das dores da consciência
depois do não-pensar e do tudo abreviar
eu desenho uma bela reticência

às vezes eu até penso em ser um radar
mas me escapa me foge a onisciência
e por fim me vejo atado ao eterno-errar

talvez o maior problema seja a impotência
do ser do tremer do rir do vestir do mastigar
a fim de inquietar-me toda a velha malemolência

do ser do tremer do rir do vestir do mastigar
eu desenho uma bela reticência
e por fim me vejo atado ao eterno-errar

domingo, 5 de setembro de 2010

pedido de alforria

não desejo teu amor
nem teu sentimento
desejo arrancar teu pudor
sem discernimento

embora saiba que não sem dor
e um quê de sofrimento
porque deles vem o alento
a uma alma vazia de vigor

não deves vir sem calor
ou querendo autoconhecimento
isso não se trata de amor
é apenas pé-de-vento

busco em ti o furor
que perdi numa rota de tormento
busco ser o vencedor
do teu país do sortimento

vem que não haverá entristecimento
ninguém mais saberá do teu fulgor
vem que te mostrarei o encantamento
dessa vontade sem senhor

desejo arrancar teu pudor
não desejo teu amor
nem teu sentimento
sem discernimento

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

abyssal

je veux une mélange
entre moi et toi
je veux près de ma gorge
ton étrange voix
je veux pas l'ange
des malheurs du soir
je veux que mes songes
[de violence
noient en ton sec abîme du vouloir

- je ne veux que
nos angoisses

terça-feira, 17 de agosto de 2010

sobreposição

das tuas vestes negras
ó irmã sagrada e virulenta
vejo só as barras de teus
mantos sobrepostos com o
fervor da fé maledicente
digo-te agora por ora e depois
que queria mesmo era ver
tuas sandálias tuas botas
que pisam na lama que
zombam dos olhos da salamandra
perspicaz que com melindre
e graça baila por entre
teus pés num gingado tão
dela que tuas ancas querem
imitar mas ela a salamandra
é quem zomba de ti e do teu
fervor da fé maledicente
quero que na lama em que tu pisas
fique só a marca do corpo
filigranado da salamandra
que tuas sandálias tuas botas
e suas marcas sejam a
ferida aberta e ferina de
uma alma escancarada revirada
e que o adeus da salamandra
e seu sorriso forjado no fogo do ardil
te doam te dilacerem
até o fim
do teu fervor

terça-feira, 10 de agosto de 2010

A Basement Short

- When he was a child, he thought that every problem would be solved by snapping his fingers. It was not scientifically proved, but, to him, to his own science, it was certain, even more certain than loneliness. As one would think, his parents were not that much into his way of seeing, or snapping, life. In an autumn day, he felt like doing some researches about the house where he had been living since his first memories, even though he knew that his parents moved to that place only when he was three years and seven days old. There was a basement where he was never meant to be. He decided to go there in order to finish in a serious way his research. He couldn't reach the door knob when he got to the basement's entrance, but, fortunately, he still had his finger to snap. Snap snap snap. He tried again to reach the opening device and he finally opened it! The basement was completely different of the rest of the house. He could listen to a smooth voice singing a lullaby - it was his mother's voice. He started going down the stairs when the voice started to sing louder, but smoothly still. It was all dark in the cave and he couldn't find something to turn the lights on, so he sat on the stairs. He was alone in the house, and, if someone arrived, they wouldn't think about searching him in the basement. Once, his father said that he kept there some old things and some other things that no one would like to see again. The boy tried to see beyond that black and heavy curtain spread before him, but he couldn't see anything, he could just listen to the same lullaby, repeting over and over again. Anxiously, he began to go down, again, the stairs as if he was running from something. Taking off the glasses, he couldn't breath properly. Suddenly, he heard that someone was arriving in the front door, it was just one someone. The boy stopped all that anxiety. He could listen to some murmurs. And somenone was crying.
- For god's sake, it's your seventh year on this couch and you're still telling all these stories as if they weren't yours... I'm a shrink, I know, but ain't this gentle and patient as I should be. Take this card, it's from a guy I know.
- So, what am I supposed to do? These stories are not mine!
- Oh, fuck off! I'm an analyst, I know what I'm doing. Just fucking call that number and do not appear again on this couch!

terça-feira, 20 de julho de 2010

Hide and seek

Sentados num café, os dois tentavam negar-se, sabe-se lá o porquê. Mas não era possível. O ruído da xícara batendo na porcelana do pires parecia um convite à pronúncia de qualquer palavra. Mas não era possível. Esforçando-se para ignorar a presença dela, ele olhava para a janela à sua frente e tentava criar histórias para os transeuntes e a chuva. Mas eles passavam tão rápido. A única história que ele conseguia criar era a sua com a moça ao lado, vá lá, não era bem criar, a história já se autocriara em suas vidas, ele só a repassava mentalmente, o que não lhe era nenhum esforço. Ninguém diria que. Como assim ninguém diria que? Era um começo péssimo para a história dos dois, afinal, quem se iria importar com eles? Portanto, o começo deveria ser Ele nunca diria que. Mas ele sentia que ela também não diria que. Isso é facilmente resolvido com a ajuda de uma conjunção aditiva Ele e ela nunca diriam que, pronto. Ele e ela nunca diriam que, algum dia, poderiam estar juntos, até mesmo porque eles nem se conheciam direito quando se passava o tempo verbal de Ele e ela nunca diriam que. Quando se conheceram de fato, o estar ali juntos parecia inevitável. Talvez não fosse aquilo a que os astrólogos dão o nome de almas gêmeas, mas era ele nela e ela nele, como se seus olhos, os quatro olhos que naquela mesa de café se buscavam e se repeliam, de tão iguais, tinham a mesma cor, guardassem atrás de si a mesma pessoa. Aqueles olhos eram a prova de que isso de opostos se atraírem não funciona muito bem. A história dos dois era, no princípio, uma história que uma garçonete filha-da-puta vem interromper trazendo um pedaço de bolo para a moça. Continuando, a história dos dois era, no princípio, uma história de olhares fugidios e mãos também fugidias. Os olhares se encontravam furtivamente nas ruas, nas salas, nas praças, nos filmes e até mesmo nos céus. As mãos também tinham esses encontros fortuitos nas ruas, nas salas, nas praças, nos filmes e até mesmo nos céus. O que realmente faltava era aquele encontro, não tão fortuito assim, do resto dos corpos. E, graças ao deus em que nenhum dos dois punha muita fé, os corpos se encontraram, mas não como o Bandeira quer, aquele encontro sem as almas, o encontro dos dois foi um encontro comme il faut, com a bênção do céu aberto, de um tanto de árvores e de um tanto de água. Chegou a lembrar a Juventude do Bergman. Eles não queriam que sua história fosse aquela historinha convencional de boy meets girl, no entanto, caminhavam nesse sentido. Foi essa vontade de ficar longe do convencional que os uniu e os trouxe, de tão longe, até o café. Poder-se-ia dizer que o café era um dos elementos essenciais nessa junção, o café-bebida, não o café-lugar. Os dois já eram tão íntimos, já conheciam a nudez um do outro, já conheciam a língua um do outro, já conheciam o idioma um do outro. E, mesmo assim, sentados no café, os dois tentavam negar-se, sabe-se lá o porquê. Ele pensou que esse seria um bom final para aquela história que, graças ao deus em que nenhum dos dois punha muita fé, ainda não tinha final. Ele tomou de seu café enquanto ela tentava criar história para aqueles clientes do café que se estapeavam na fila do caixa. Mas eles passavam tão rápido. A única história que ela conseguia criar era a sua com o rapaz ao lado, vá lá, não era bem criar, a história já se autocriara em suas vidas, ela só a repassava mentalmente, o que não lhe era nenhum esforço. Ela achava que. Não era possível que ela começasse sua própria história com Ela achava que, era preciso algo mais forte, mais correspondente à realidade. Ela sabia que, isso mesmo. Ela sabia que o que ele sentia por ela era mais do que essa coisa fast-food do século vinte e um. Ela também sentia esse algo mais substancial, mas não poderia dizê-lo, tinha de manter sua posição forte e intrépida, feminista, que fizeram com que o rapaz ao lado se encantasse por ela. Ela podia se lembrar dos dias que eles passaram antes de, efetivamente, se conhecerem. Ele, compulsivamente, mexia em seus óculos como se eles lhe fugissem e ela em seus cabelos, com aquela tendresse que lhe era própria. Talvez não fosse aquilo a que os astrólogos dão o nome de almas gêmeas, mas era ela nele e ele nela, como se seus olhos, os quatro olhos que naquela mesa de café se buscavam e se repeliam, de tão iguais, tinham a mesma cor, guardassem atrás de si a mesma pessoa. Ela sabia que ele odiava clichês e também sabia que ele não conseguia fugir do clichê de querer vê-la sempre que possível e o ainda maior clichê de elogiar seus olhos. Ela também não conseguia fugir do clichê de, só de vez em quando, não lhe responder algumas coisas e depois cobrir o rapaz com muitos beijos-clichês dos quais nenhum dos dois queria fugir. Era como se ela lhe falasse uns versos do Drexler, que viva la ciencia, que viva la poesia, que viva siento mi lengua cuando tu lengua está sobre la lengua mía! Ela o queria e ela sabia que ele a queria. Os dois já eram tão íntimos, já conheciam a nudez um do outro, já conheciam a língua um do outro, já conheciam o idioma um do outro. E, mesmo assim, sentados no café, os dois tentavam negar-se, sabe-se lá o porquê. Satisfeita por ter encontrado um final para aquela história que não tinha muita vontade de ter logo um final, ela tomou de seu café e se foi chegando perto do rapaz enquanto o rapaz, também com o a xícara na mão, se foi chegando perto dela. As mãos se encontraram fortuitamente embaixo da mesa do café e os olhos se encontraram fortuitamente na janela enquanto pensavam que aquela chuva nunca tinha sido tão molhada.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

antialérgico

se isso é alegria
peço que isso dure
que não vire alergia

se quero que dure
peço que leve tempo até
que essa sandice se cure

se isso é alegria
peço que não passe
que não acabe essa bela letargia

domingo, 20 de junho de 2010

Sobre uma recém-adquirida orfandade

Sexta-feira, acordei mais tarde que de costume. Acordei tão tarde que logo fui almoçar. Vale lembrar que era tão tarde que não liguei o computador. Em dias normais, acordo e ligo o computador a fim de checar as notícias e coisas que possam me fazer compreender melhor o dia vindouro. Mas sexta-feira, como se pode ver, não era um dia normal porque acordei sem saber o que acontecia no mundo. Almocei e, finalmente, fui à máquina que me liga ao mundo, ávido por ver as coisas das quais me privara por um almoço mais cedo. Logo que liguei o aparelho, vi a notícia que me fez entender o porquê de ter almoçado antes de entrar em contato com as novidades do mundo, a morte de José Saramago. Não poderia receber uma notícia como aquela de estômago vazio. Pensei ser uma dessas piadas de que a internet está tão cheia quanto o inferno está transbordando de pessoas insistentes a dizer que ele está cheio de boas intenções. Procurei mais e percebi que não tinha como ser um engano, todos os sítios falavam disso, da Folha de São Paulo ao Le Monde. Um nó tomou conta de minha garganta, um nó daqueles que só saem com choro, muito choro. Chorei, o que, como se pode ver, não é lá muita novidade. Senti que um buraco negro se apossava de mim, uma sensação de vácuo mental. Não acredito, não acredito, não é possível, não é possível, era só o que conseguia articular em pensamentos. Não, era só o que conseguia vocalizar. Em meus poucos anos de vida, posso dizer, sem medo, que só sou como sou, só penso como penso, só falo como falo, por causa de Saramago. Se hoje defendo minha língua-mãe com unhas e dentes e tudo o mais, é por causa de Saramago. Fui à sua obra, não sei por que razão, mas sei que depois de conhecê-la tudo mudou. A sua prosa é deliciosa, melindrosa e até mesmo erótica. A forma como as palavras fluem, em períodos tão infinitos quanto a verve de José, é quase que saliente. Seus diálogos são tão rápidos quanto lânguidos, a nos revelar uma maneira de unir a linguagem popular com a linguagem mais erudita. Foi essa dança linguística que mostrou como realmente minha língua-mãe poderia ser preciosa e única, a mais bela língua. Saramago, além de me descortinar o português, me ensinou a pensar, se é que isso é possível. Antes dele, via o mundo como fui ensinado, ou melhor, não via o mundo. Foi o olhar ácido de José que me apontou um mundo além da porta logo ali, um mundo de ideias que se derrama, que se estende logo depois que passamos o pé da soleira daquela porta. Ele me ensinou que não posso ver o mundo pelo véu de outrem, mas que tenho, mesmo que não saiba, uma faca à minha disposição para, sempre que preciso, rasgar o pano. E é isso que Saramago fazia, ele rasgava. Rasgava opiniões, rasgava mitos, rasgava cânones, rasgava tudo que se lhe opusesse. Saramargo é a alcunha que lhe foi dada pela imprensa tupiniquim por conta de seus fortes posicionamentos ideológicos. Ateu, comunista e defensor de causas de esquerda, ele nunca se preocupou em agradar quem não lhe agradava. Há os que dizem que os ateus são insensíveis e amorais, e Saramago tratou de mostrar que, apesar da pele dura que ele dizia ter, era de uma sensibilidade única, somente passível de expressão através da escrita direta. Chorou ao ver o filme feito sobre seu livro mais conhecido. Tratava o amor como condição humana. Ele mostrou ao mundo que a língua portuguesa existe e pulsa até mais que outras. Criticava a sociedade e, principalmente, seus instrumentos de poder, governos e religiões. Talvez por conta disso, foi um gênio, como a maioria deles, compreendido por poucos e odiado por muitos. E quanto a esses muitos, pouco lhe importavam. Um gênio, é comum pensar, passou anos trancafiado em escolas e faculdades. Como explicar um gênio que só fez um curso técnico e filho e neto de analfabetos, eis uma boa pergunta. Mas esse era José, um português do interior. Saramago dizia que todos são escritores, embora alguns escrevam, e outros não. O escritor José Saramago não era um mero ficcionista. Toda e qualquer história sua era uma alegoria para a crítica da sociedade atual. Mesmo criticando, ele nunca se pôs acima da sociedade, ele se sabia como parte do todo e se incluía num ciclo de imperfeições. Com a morte de Saramago, disse Fernando Meirelles, o mundo ficou mais burro e mais cego. O único lusófono a conquistar o Nobel não deveria morrer. Aquele que abriu os olhos de tantos não deveria morrer. O maior escritor não deveria morrer. O José não deveria morrer. Ele já disse que mesmo que a rota da vida conduza as pessoas a uma estrela, nem por isso elas foram dispensadas de percorrer os caminhos do mundo. É isso, ele percorreu os caminhos do mundo e, antes mesmo de chegar à sua estrela, brilhou sua luz àqueles que não usavam óculos escuros com suas pungentes e por vezes impagáveis digressões.
O nó ainda não me saiu da garganta porque eu sou filho de José. Saramago é meu pai.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Olympia

Ela estaria em sua varanda cor de laranja-árida, sentada em sua cadeira de náilon e plástico azul trançados. Eu chegaria, esgueirando-me pelas paredes, e ela me receberia com aquele afável sorriso que só os cansados conseguem dar. As mãos postas em seu regaço antes limpavam no avental o resto da sujeira que recobria as tangerinas, mas agora lhe fugiriam e procurariam meu rosto naquele ar cítrico. Chegar-me-ia no meio de suas mãos cheias de carinho rude. Ela me beijaria e me repreenderia por não haver ali aparecido nas últimas semanas. Eu tentaria lhe explicar que a vida moderna exige muito de seus participantes e, nessa hora, ela entraria na casa, já caminhando com certa dificuldade. Ficaria preocupado por achar que a magoara. Entraria também na casa e veria aquele ser, em gestos tão dóceis, arrumando a mesa para nós dois. Ela buscaria o café que estivera preparando e procuraria na geladeira minha geleia preferida. Sentar-nos-íamos à mesa e ela me daria o mesmo sorriso lá de cima a dizer que estava tudo bem, que, mesmo que eu demore, é sempre bom quando venho. Eu elogiaria, verdadeiramente, seu café, sua geleia e seu pão. Ela acariciaria meu rosto ao tomar mais um gole de seu café e perguntar-me-ia a razão de ali estar. Dir-lhe-ia que eram saudades e ela me diria que também sentia saudades mas não me poderia visitar porque, como já saberia, tinha aversão a viagens de longas distâncias, qualquer coisa acima de vinte quilômetros. Depois do café, poderíamos nos sentar no sofá da sala e eu recostaria minha cabeça em seu colo. Em leves movimentos, como se tecesse com meus cabelos as tramas do vestido de uma rainha, ela os afagaria e me indagaria sobre as dores dentro de mim. Eu, tentando não lhas dizer, diria que ela já vinha muito cansada da vida e não mereceria ouvir minhas dores e lamúrias. Ela, no entanto, me diria que essa é a função dos velhos no mundo, aliviar os problemas dos novos a fim de que, algum dia, quando velhos, eles o possam fazer com os novos novos, assim num ciclo que não há-de acabar. Por fim, contar-lhe-ia minhas agruras e choraria copiosamente até o momento em que ela, do alto de sua sapiência, me diria que tudo haveria de ficar bem, mesmo que não parecesse. Eu não iria poder mais chorar, eu não mais iria querer chorar. Abraçá-la-ia até que minhas lágrimas tocassem seus cabelos ora brancos de tanto ter sofrido, de tanto ter vivido. E ela me abraçaria como se estivesse a expirar. Eu olharia o relógio, num súbito achaque de modernidade, e, com pesar, teria de partir. Sem precisar falar, ela entenderia a mensagem e me levaria até a varanda cor de laranja-árida. Dar-lhe-ia um beijo e, antes que qualquer arrependimento pudesse aparecer, ir-me-ia embora. Ela ficaria a me acenar adeus à beirada da varanda cor de laranja-árida. Já perto do portão eu lhe diria, em alto volume, que na próxima semana eu haveria de voltar.

À Olympia que não conheci mas que deveria ser muito parecida com a Olympia a quem recorro amiúde a fim de tentar algo bom na vida encontrar.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

puf!

"Tudo o que amamos são pedaços
Vivos do nosso próprio ser".
(A vida assim nos afeiçoa, de Manuel Bandeira)

pensaste ser o fim
daquela desajeitada odisseia
mas já sabes que de mim
se espera até prosopopeia

se digo que ainda te gosto sim
não é porque queira
mas é porque o bandeira
disse assim

gostar de quem gosta de mim
e toda a ladainha do rei
é uma falácia sem fim
gosta-se do intangível esta é a lei

amaste a mim?
não sei
o que sei
é que inexoravelmente isso não terá fim

(ajuda-me são bandeira)

terá fim
sim
(um dia)
em mim
e será assim

puf!

domingo, 16 de maio de 2010

foggy

i woke up
this morning
and i thought everything
was still sleeping
i thought i
shouldn't be thinking
at that time
for when we
wake up
our mind is still blurry
as it is all the time

- i wish i could love
just
as water kisses the fog
i wish i could leave
just
as fog

quarta-feira, 7 de abril de 2010

carta ao olvido

agora acabou
só sei que tudo foi
uma grande comédia de erros

lembro-me do que conversávamos
antes do primeiro beijo
mas agora acabou

(convém lembrar?)

foi desta maneira
falávamos sobre a vida
e tudo o mais
até que eu lhe disse
- sou ateu
e ela sorrindo me disse
- sou atua

quinta-feira, 25 de março de 2010

Parada obrigatória

As coisas não terminam, elas param.
Por termos sido criados em meio a uma cultura cristã, crescemos com duas principais visões acerca do fim: o apocalipse e o término. A primeira diz que tudo converge para um final que será de acordo com a vida que tivemos: inferno ou paraíso. A segunda nos faz crer que tudo termina: morremos como em um filme mudo dos anos vinte, com caras e bocas e gestos e despedidas e lágrimas. A visão de término não diz respeito somente à morte mas também a outras áreas da vida cujos finais nos parecem tão distantes.
Se nos parecem distantes, é porque são tão distantes... inexistentes. Os finais como vemos em novelas e filmes comerciais não existem; nada acaba redondo. As coisas simplesmente param. Quem espera dizer adeus e eu te amo a todos antes de morrer pode se decepcionar: quantas pessoas tu conheces que disseram eu te amo antes de morrer?
Muitos podem não entender os bruscos cortes em filmes do Godard porque estão apegados a uma visão muito romântica ou muito cristã da vida. Os cortes secos em seus filmes representam a vida e as paradas que levamos: estamos a andar por um caminho e, de repente, cai uma parede em nossa frente. A religião nos diria que a parede foi um meio de Deus nos mostrar sua insatisfação em relação a nossas vidas e, por ser uma obra divina, nada podemos fazer senão rezar a fim de que Deus a remova. Um olhar realista veria a parede e constataria que é preciso fazer uma curva em seu caminho e passar ao lado dela. A parede pode ser um amor interrompido ou até um trabalho abortado.
Embora a visão da parada seja verdadeira, nos é difícil lidar com isso: tudo pode acabar agora.
Bom, pode até ser difícil, mas é necessário que aprendamos a viver a vida como ela é: um grande quadro cubista.

Para parar tudo isso que fui escrevendo, deixo-te com meu amado Manuel Bandeira e seu "A vida assim nos afeiçoa" em que ele traduz (muito melhor) tudo o que disse.
Se fosse dor tudo na vida,
Seria a morte o sumo bem.
Libertadora, apetecida,
A alma dir-lhe-ia, ansiosa: - Vem!

Quer para a bem-aventurança
Leves de um mundo espiritual
A minha essência, onde a esperança
Pôs o seu hálito vital;

Quer no mistério que te esconde,
Tu sejas, tão somente, o fim:
- Olvido, impertubável, onde
"Não restará nada de mim!"

Mas horas há que marcam fundo...
Feitas, em cada um de nós,
De eternidades de segundo,
Cuja saudade extingue a voz.

Ao nosso ouvido, embaladora,
A ama de todos os mortais,
A esperança prometedora,
Segreda coisas irreais.

E a vida vai tecendo laços
Quase impossíveis de romper:
Tudo o que amamos são pedaços
Vivos do nosso próprio ser.

A vida assim nos afeiçoa,
Prende. Antes fosse toda fel!
Que ao se mostrar às vezes boa,
Ela requinta em ser cruel...

sábado, 20 de março de 2010

prosopopeico

o

s
i
l
ê
n
c
i
o

me fala mais que um livro

segunda-feira, 15 de março de 2010

abuso de poder número um

tudo podias
aquele poder magnético
tu o tinhas
além de qualquer senso estético
tu estavas
à frente da (minha só minha) multidão
tu caminhavas
nem em rima nem em canção
tu cabias
aquela (tácita) linha do equador
tu movias
meus olhos cansados
tu lias
a cada frêmito
tu gemias
aqueles olhos (tão teus)
tu expunhas
até porque
tudo podias

- não podes mais
- por quê?
- não se quer que ainda possas
- será?
- serias

segunda-feira, 1 de março de 2010

elegia d'eu

"Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
- saudosa do que não faço
- do que faço, arrependida."
(Canção excêntrica, de Cecília Meireles)

nesse triste canto
quero de mim um pedaço deixar
não quero que seja lido com pranto
mas meu querer conhece bem o pesar

por toda a vida dancei
por toda a vida gemi
por toda a vida menti
por toda a vida amei

o canto escorre de mim
na verdade
sou eu quem escorre do canto
com medo da realidade

aquele lá era eu
sim assim imperfeito
este aqui sou eu
aquele da dor no peito

vivia desse jeito
como estrofes desconexas
de um poema malfeito

quero de mim um pedaço deixar
nesse triste canto
mas meu querer conhece bem o pesar

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

juntos

aquilo que dura um segundo
é o que faz parar o mundo
e até levanta defunto

há quem jure de pés juntos
que não há nada de muito mais
mas é só porque esse nunca ficou sem cais

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

the lost cornucopia

there may be no answer
to that question made by
the irresponsible soul-eater
who made me believe i could fly
to places where i shall not be
except when i am with you
and to stay decide we
then you tell me
that i have to go
even though i feel
it was my (and your) place
i must face
that to you i am nothing but a bill
which comes and goes
every single month
as your fortune flows
into your throat

for i have been taught
life has already been easier
to the ones who have loved and fought
and i will be here forever
listening to a funny little love song
made by cole porter
and you will be there with your lungs
that can breath (surprisingly)
despite your (hellish) cornucopia
of self-esteem and tears and a (remarkably)
salty distance and phobias

sábado, 2 de janeiro de 2010

un coeur plein de rien comme tous les autres

ninguém sabe aonde a noite levou
aquela moça que diz viver sem amar
e aquele rapaz que dizem que ela buscou
a vizinhança ontem já perguntou
se a saída não foi a fim de fornicar
e a pobre dona flora até corou
só de crer que seu filho não mais haveria de voltar

e bem na hora em que ingrid o bogart iria deixar
e a moça trêmula na trêmula mão do rapaz iria pegar
e dizer que era mentira o seu viver sem amar
e ao rapaz todo o seu afeto confessar
alguém lá de cima grita que o cinema está a queimar
corre-se pra lá corre-se pra cá para ninguém no fogo se acabar
e a moça e o rapaz vão-se a correr e a disparar

na primeira esquina o rapaz parou
e a moça também o fez e logo a batida no peito disparou
o rapaz disse que sempre a amou
que em seus sonhos sempre a beijou
e agora finalmente na esquina a abraçou
a moça um sorriso esboçou
e o rapaz ao seu quarto a levou

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E Ele fechou o livro com aquela expressão de quem sente uma dor aguda começando. De fato, ela estava. No entanto, não era bem uma dor, uma dor no sentido próprio da palavra; eram lembranças que se misturavam ao poema que acabara de ler. Cenas vinham à sua cabeça mas Ele não sabia mais o que acontecera realmente e o que era parte do poema. Não, não. Na verdade, as coisas não aconteceram; eram mais lembranças do futuro. É como se fosse algo que não acontecera ainda, mas que Ele esperava acontecer. E não aconteceram. Aquele vazio lá dentro começou a doer. Rá!, era essa a dor; - não, não era. Para aí. Agora, Ele percebeu que aquelas lembranças do futuro também faziam parte do vazio que doía. Bom, taí, com tudo isso ele percebeu que aquele vazio não era só devido aquilo que ele imaginara - caos do século vinte e um; vida sem sentido; morte iminente; pagode - mas também a outras coisas. Sentou-se na cama e ficou tentando imaginar a que outra coisa se deveria aquela dor do vazio. Amor, anseios errados, saudades do que teve, saudades do que não teve, frio. Ele se sentiu como a Geni sendo atingido por bostas e pedras, só que interiores. Deitou-se. Olhava ao teto e aquilo só fazia aumentar a tal dor. Abriu novamente o livro, releu o poema e viu que isso piorou a situação. A dor agora era imensa. E Ele gritou, berrou, abriu a garganta, vagiu. Como fosse pó, a dor passou. Não preciso mais pensar em ir ao analista, pensou Ele. Porém, num brevíssimo instante a dor voltou. E tudo voltou a girar, as lembranças do futuro agora se misturavam às lembranças reais e às lembranças de sonhos; era uma orgia onírica. Ele, no meio de um êxtase não desejado, voltou a sentar-se na cama e lembrou-se de que Ele vivia com aquela dor, com aquele vazio, e que não era a primeira vez a ter um ataque daqueles. O problema é que toda vez Ele ficava assim desesperado, como se fosse a primeira vez do ataque do vazio. Por fim, acalmou-se. Terei mais um desses mais dia, menos dia, vá lá; fez um acordo consigo mesmo. É, dizem que isso é como pedras nos rins, é só esperar que um dia sai - e dizem também que só sai quando se morre. Morrer? Ai, começou a dor novamente. Morrer não não não não