sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
mercúrio
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
tábua da lei
terça-feira, 16 de novembro de 2010
para ser usado como vaso
para ser pixado na avenida
para ser pintado em tons pastéis
terça-feira, 9 de novembro de 2010
quatro ou foro íntimo
terça-feira, 19 de outubro de 2010
cinco ou oxalá
sábado, 16 de outubro de 2010
seis mais um suspiro
silêncio que tratei como
sussurro proposital ou
sismo antinatural
sem reclamar agora
silencio o tudo
- ai que frio me dá
essa luz de inverno
seis
até que um dia cansado de toda essa história
resolveu viver voltar à antiga pujança
só que como gastar como ser não lhe vinha à memória
já bem diziam que quem não dança segura a criança
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
sete
a enfiar a cabeça num muro
tão alto de desgosto e sofrer
a acender sete velas sem entender
a esperar por sete selos vazios
tão aziagos de angústia e viver
a ver numa porta o porvir
a marcar-se em nome do nada
tão desconhecido de desejo e partir
a economizar o ser das ânsias
a tecer as horas modorrentas
tão soporíferas de perda e remar
a rabiscar a fim de exorcizar
a escrever como expressão do desânimo
tão presente de tenacidade e existir
a pintar de d'us as paisagens
a transformar-se na sina
tão obscura de gozo e revirar
sábado, 2 de outubro de 2010
aux rues vides
où tu habites?
- tu me l'avais dit
mais je l'ai oublié
quand je t'ai revu -
comment tu vois tes rêves?
comment je te semble?
qu'est-ce que tu fais
quand ta vie danse?
qu'est-ce que tu dis
à toi-même
quand tu es dans
le silence?
pourquoi tu ne
m'as pas dit
je vais?
pourquoi tu ne
m'as pas demandé
où est ma rue
où j'habite?
- je vais aux rues vides
je ne suis que ce qui est vide
terça-feira, 28 de setembro de 2010
autolimpante
respirou o ar das janelas e batucou nas panelas
dirá a vizinhança pobrezinho bateu as tortas
como visse a mãe enterrada
terça-feira, 21 de setembro de 2010
cosido
suas roupas arrancava nu ficava
a amar-se em meio ao milharal
por que arfava por que cantava
a si mesmo num latido salarial
quem lá o via ébrio porque gritava
talvez se esquecesse da vidinha semanal
imponente oráculo do enfado que marchava
e que tolhia qualquer novo ímpeto seminal
talvez se esquecesse da vidinha que trepava
por sobre as cercas das ideias num arroubo visceral
dominada por um santo que lhe urrava
quem lá o via ébrio pensava em carnaval
um espetáculo de luzes interiores que brindava
a uma vida semiaberta a portugal
de um louco aparente que penava
é que vêm as belas ideias como um coral
de multicolor anima que de ser brincava
de um aparente louco terminal
sai a redenção
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
intermezzo de um fumista
depois do não-pensar e do tudo abreviar
eu desenho uma bela reticência
às vezes eu até penso em ser um radar
mas me escapa me foge a onisciência
e por fim me vejo atado ao eterno-errar
talvez o maior problema seja a impotência
do ser do tremer do rir do vestir do mastigar
a fim de inquietar-me toda a velha malemolência
do ser do tremer do rir do vestir do mastigar
eu desenho uma bela reticência
e por fim me vejo atado ao eterno-errar
domingo, 5 de setembro de 2010
pedido de alforria
nem teu sentimento
desejo arrancar teu pudor
sem discernimento
embora saiba que não sem dor
e um quê de sofrimento
porque deles vem o alento
a uma alma vazia de vigor
não deves vir sem calor
ou querendo autoconhecimento
isso não se trata de amor
é apenas pé-de-vento
busco em ti o furor
que perdi numa rota de tormento
busco ser o vencedor
do teu país do sortimento
vem que não haverá entristecimento
ninguém mais saberá do teu fulgor
vem que te mostrarei o encantamento
dessa vontade sem senhor
desejo arrancar teu pudor
não desejo teu amor
nem teu sentimento
sem discernimento
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
abyssal
entre moi et toi
je veux près de ma gorge
ton étrange voix
je veux pas l'ange
des malheurs du soir
je veux que mes songes
- je ne veux que
nos angoisses
terça-feira, 17 de agosto de 2010
sobreposição
ó irmã sagrada e virulenta
vejo só as barras de teus
mantos sobrepostos com o
fervor da fé maledicente
digo-te agora por ora e depois
que queria mesmo era ver
tuas sandálias tuas botas
que pisam na lama que
zombam dos olhos da salamandra
perspicaz que com melindre
e graça baila por entre
teus pés num gingado tão
dela que tuas ancas querem
imitar mas ela a salamandra
é quem zomba de ti e do teu
fervor da fé maledicente
quero que na lama em que tu pisas
fique só a marca do corpo
filigranado da salamandra
que tuas sandálias tuas botas
e suas marcas sejam a
ferida aberta e ferina de
uma alma escancarada revirada
e que o adeus da salamandra
e seu sorriso forjado no fogo do ardil
te doam te dilacerem
até o fim
do teu fervor
terça-feira, 10 de agosto de 2010
A Basement Short
- For god's sake, it's your seventh year on this couch and you're still telling all these stories as if they weren't yours... I'm a shrink, I know, but ain't this gentle and patient as I should be. Take this card, it's from a guy I know.
- So, what am I supposed to do? These stories are not mine!
- Oh, fuck off! I'm an analyst, I know what I'm doing. Just fucking call that number and do not appear again on this couch!
terça-feira, 20 de julho de 2010
Hide and seek
Sentados num café, os dois tentavam negar-se, sabe-se lá o porquê. Mas não era possível. O ruído da xícara batendo na porcelana do pires parecia um convite à pronúncia de qualquer palavra. Mas não era possível. Esforçando-se para ignorar a presença dela, ele olhava para a janela à sua frente e tentava criar histórias para os transeuntes e a chuva. Mas eles passavam tão rápido. A única história que ele conseguia criar era a sua com a moça ao lado, vá lá, não era bem criar, a história já se autocriara em suas vidas, ele só a repassava mentalmente, o que não lhe era nenhum esforço. Ninguém diria que. Como assim ninguém diria que? Era um começo péssimo para a história dos dois, afinal, quem se iria importar com eles? Portanto, o começo deveria ser Ele nunca diria que. Mas ele sentia que ela também não diria que. Isso é facilmente resolvido com a ajuda de uma conjunção aditiva Ele e ela nunca diriam que, pronto. Ele e ela nunca diriam que, algum dia, poderiam estar juntos, até mesmo porque eles nem se conheciam direito quando se passava o tempo verbal de Ele e ela nunca diriam que. Quando se conheceram de fato, o estar ali juntos parecia inevitável. Talvez não fosse aquilo a que os astrólogos dão o nome de almas gêmeas, mas era ele nela e ela nele, como se seus olhos, os quatro olhos que naquela mesa de café se buscavam e se repeliam, de tão iguais, tinham a mesma cor, guardassem atrás de si a mesma pessoa. Aqueles olhos eram a prova de que isso de opostos se atraírem não funciona muito bem. A história dos dois era, no princípio, uma história que uma garçonete filha-da-puta vem interromper trazendo um pedaço de bolo para a moça. Continuando, a história dos dois era, no princípio, uma história de olhares fugidios e mãos também fugidias. Os olhares se encontravam furtivamente nas ruas, nas salas, nas praças, nos filmes e até mesmo nos céus. As mãos também tinham esses encontros fortuitos nas ruas, nas salas, nas praças, nos filmes e até mesmo nos céus. O que realmente faltava era aquele encontro, não tão fortuito assim, do resto dos corpos. E, graças ao deus em que nenhum dos dois punha muita fé, os corpos se encontraram, mas não como o Bandeira quer, aquele encontro sem as almas, o encontro dos dois foi um encontro comme il faut, com a bênção do céu aberto, de um tanto de árvores e de um tanto de água. Chegou a lembrar a Juventude do Bergman. Eles não queriam que sua história fosse aquela historinha convencional de boy meets girl, no entanto, caminhavam nesse sentido. Foi essa vontade de ficar longe do convencional que os uniu e os trouxe, de tão longe, até o café. Poder-se-ia dizer que o café era um dos elementos essenciais nessa junção, o café-bebida, não o café-lugar. Os dois já eram tão íntimos, já conheciam a nudez um do outro, já conheciam a língua um do outro, já conheciam o idioma um do outro. E, mesmo assim, sentados no café, os dois tentavam negar-se, sabe-se lá o porquê. Ele pensou que esse seria um bom final para aquela história que, graças ao deus em que nenhum dos dois punha muita fé, ainda não tinha final. Ele tomou de seu café enquanto ela tentava criar história para aqueles clientes do café que se estapeavam na fila do caixa. Mas eles passavam tão rápido. A única história que ela conseguia criar era a sua com o rapaz ao lado, vá lá, não era bem criar, a história já se autocriara em suas vidas, ela só a repassava mentalmente, o que não lhe era nenhum esforço. Ela achava que. Não era possível que ela começasse sua própria história com Ela achava que, era preciso algo mais forte, mais correspondente à realidade. Ela sabia que, isso mesmo. Ela sabia que o que ele sentia por ela era mais do que essa coisa fast-food do século vinte e um. Ela também sentia esse algo mais substancial, mas não poderia dizê-lo, tinha de manter sua posição forte e intrépida, feminista, que fizeram com que o rapaz ao lado se encantasse por ela. Ela podia se lembrar dos dias que eles passaram antes de, efetivamente, se conhecerem. Ele, compulsivamente, mexia em seus óculos como se eles lhe fugissem e ela em seus cabelos, com aquela tendresse que lhe era própria. Talvez não fosse aquilo a que os astrólogos dão o nome de almas gêmeas, mas era ela nele e ele nela, como se seus olhos, os quatro olhos que naquela mesa de café se buscavam e se repeliam, de tão iguais, tinham a mesma cor, guardassem atrás de si a mesma pessoa. Ela sabia que ele odiava clichês e também sabia que ele não conseguia fugir do clichê de querer vê-la sempre que possível e o ainda maior clichê de elogiar seus olhos. Ela também não conseguia fugir do clichê de, só de vez em quando, não lhe responder algumas coisas e depois cobrir o rapaz com muitos beijos-clichês dos quais nenhum dos dois queria fugir. Era como se ela lhe falasse uns versos do Drexler, que viva la ciencia, que viva la poesia, que viva siento mi lengua cuando tu lengua está sobre la lengua mía! Ela o queria e ela sabia que ele a queria. Os dois já eram tão íntimos, já conheciam a nudez um do outro, já conheciam a língua um do outro, já conheciam o idioma um do outro. E, mesmo assim, sentados no café, os dois tentavam negar-se, sabe-se lá o porquê. Satisfeita por ter encontrado um final para aquela história que não tinha muita vontade de ter logo um final, ela tomou de seu café e se foi chegando perto do rapaz enquanto o rapaz, também com o a xícara na mão, se foi chegando perto dela. As mãos se encontraram fortuitamente embaixo da mesa do café e os olhos se encontraram fortuitamente na janela enquanto pensavam que aquela chuva nunca tinha sido tão molhada.
sexta-feira, 9 de julho de 2010
antialérgico
peço que isso dure
que não vire alergia
se quero que dure
peço que leve tempo até
que essa sandice se cure
se isso é alegria
peço que não passe
que não acabe essa bela letargia
domingo, 20 de junho de 2010
Sobre uma recém-adquirida orfandade
O nó ainda não me saiu da garganta porque eu sou filho de José. Saramago é meu pai.
terça-feira, 8 de junho de 2010
Olympia
À Olympia que não conheci mas que deveria ser muito parecida com a Olympia a quem recorro amiúde a fim de tentar algo bom na vida encontrar.
segunda-feira, 17 de maio de 2010
puf!
Vivos do nosso próprio ser".
(A vida assim nos afeiçoa, de Manuel Bandeira)
pensaste ser o fim
daquela desajeitada odisseia
mas já sabes que de mim
se espera até prosopopeia
se digo que ainda te gosto sim
não é porque queira
mas é porque o bandeira
disse assim
gostar de quem gosta de mim
e toda a ladainha do rei
é uma falácia sem fim
gosta-se do intangível esta é a lei
amaste a mim?
não sei
o que sei
é que inexoravelmente isso não terá fim
(ajuda-me são bandeira)
terá fim
sim
(um dia)
em mim
e será assim
puf!
domingo, 16 de maio de 2010
foggy
this morning
and i thought everything
was still sleeping
i thought i
shouldn't be thinking
at that time
for when we
wake up
our mind is still blurry
as it is all the time
- i wish i could love
just
as water kisses the fog
i wish i could leave
just
as fog
quarta-feira, 7 de abril de 2010
carta ao olvido
só sei que tudo foi
uma grande comédia de erros
lembro-me do que conversávamos
antes do primeiro beijo
mas agora acabou
(convém lembrar?)
foi desta maneira
falávamos sobre a vida
e tudo o mais
até que eu lhe disse
- sou ateu
e ela sorrindo me disse
- sou atua
quinta-feira, 25 de março de 2010
Parada obrigatória
Por termos sido criados em meio a uma cultura cristã, crescemos com duas principais visões acerca do fim: o apocalipse e o término. A primeira diz que tudo converge para um final que será de acordo com a vida que tivemos: inferno ou paraíso. A segunda nos faz crer que tudo termina: morremos como em um filme mudo dos anos vinte, com caras e bocas e gestos e despedidas e lágrimas. A visão de término não diz respeito somente à morte mas também a outras áreas da vida cujos finais nos parecem tão distantes.
Se nos parecem distantes, é porque são tão distantes... inexistentes. Os finais como vemos em novelas e filmes comerciais não existem; nada acaba redondo. As coisas simplesmente param. Quem espera dizer adeus e eu te amo a todos antes de morrer pode se decepcionar: quantas pessoas tu conheces que disseram eu te amo antes de morrer?
Muitos podem não entender os bruscos cortes em filmes do Godard porque estão apegados a uma visão muito romântica ou muito cristã da vida. Os cortes secos em seus filmes representam a vida e as paradas que levamos: estamos a andar por um caminho e, de repente, cai uma parede em nossa frente. A religião nos diria que a parede foi um meio de Deus nos mostrar sua insatisfação em relação a nossas vidas e, por ser uma obra divina, nada podemos fazer senão rezar a fim de que Deus a remova. Um olhar realista veria a parede e constataria que é preciso fazer uma curva em seu caminho e passar ao lado dela. A parede pode ser um amor interrompido ou até um trabalho abortado.
Embora a visão da parada seja verdadeira, nos é difícil lidar com isso: tudo pode acabar agora.
Bom, pode até ser difícil, mas é necessário que aprendamos a viver a vida como ela é: um grande quadro cubista.
Para parar tudo isso que fui escrevendo, deixo-te com meu amado Manuel Bandeira e seu "A vida assim nos afeiçoa" em que ele traduz (muito melhor) tudo o que disse.
Se fosse dor tudo na vida,
Seria a morte o sumo bem.
Libertadora, apetecida,
A alma dir-lhe-ia, ansiosa: - Vem!
Quer para a bem-aventurança
Leves de um mundo espiritual
A minha essência, onde a esperança
Pôs o seu hálito vital;
Quer no mistério que te esconde,
Tu sejas, tão somente, o fim:
- Olvido, impertubável, onde
"Não restará nada de mim!"
Mas horas há que marcam fundo...
Feitas, em cada um de nós,
De eternidades de segundo,
Cuja saudade extingue a voz.
Ao nosso ouvido, embaladora,
A ama de todos os mortais,
A esperança prometedora,
Segreda coisas irreais.
E a vida vai tecendo laços
Quase impossíveis de romper:
Tudo o que amamos são pedaços
Vivos do nosso próprio ser.
A vida assim nos afeiçoa,
Prende. Antes fosse toda fel!
Que ao se mostrar às vezes boa,
Ela requinta em ser cruel...
sábado, 20 de março de 2010
segunda-feira, 15 de março de 2010
abuso de poder número um
aquele poder magnético
tu o tinhas
além de qualquer senso estético
tu estavas
à frente da (minha só minha) multidão
tu caminhavas
nem em rima nem em canção
tu cabias
aquela (tácita) linha do equador
tu movias
meus olhos cansados
tu lias
a cada frêmito
tu gemias
aqueles olhos (tão teus)
tu expunhas
até porque
tudo podias
- não podes mais
- por quê?
- não se quer que ainda possas
- será?
- serias
segunda-feira, 1 de março de 2010
elegia d'eu
não me animo a um breve traço:
- saudosa do que não faço
- do que faço, arrependida."
(Canção excêntrica, de Cecília Meireles)
nesse triste canto
quero de mim um pedaço deixar
não quero que seja lido com pranto
mas meu querer conhece bem o pesar
por toda a vida dancei
por toda a vida gemi
por toda a vida menti
por toda a vida amei
o canto escorre de mim
na verdade
sou eu quem escorre do canto
com medo da realidade
aquele lá era eu
sim assim imperfeito
este aqui sou eu
aquele da dor no peito
vivia desse jeito
como estrofes desconexas
de um poema malfeito
quero de mim um pedaço deixar
nesse triste canto
mas meu querer conhece bem o pesar
