- Não, eu definitivamente não tive culpa. Uma coisa levou à outra. Eu não quis fazer isso. Tudo bem, não sejamos hipócritas: eu quis. Só que no começo eu não queria, só comecei a querer mesmo, depois que tudo foi se agravando. Mas a morte pesa, sabe? Ainda mais quando se quer, aí parece que o peso aumenta. Não matei um cachorro, uma barata ou um simples deputado, eu matei uma mulher! Um ser humano! "Não faça aos outros o que você não quer para si", eu vi que isso é fato. Eu matei a minha empregada! Confesso que estou um pouco feliz, afinal, me livrei dela, porém, estou à beira de um ataque (de nervos ou de loucura). Como aconteceu? Explicar-te-ei, mas, calma, a história é um pouco longa, você precisa saber desde o começo, "os fins justificam os meios", sabe? Bom, tudo começou no dia em que ela foi ao meu apartamento para uma entrevista. Ela estava vestida como uma mulher normal de sua idade, vinte e dois anos. Eu sou solteiro, logo, quando abri a porta e a vi, eu esqueci da entrevista. Sim, eu agi errado na hora, pensando que fosse um encontro, mas era inevitável. A despeito de sua casta inferior, ela sentou-se ao meu lado no sofá como se tivesse freqüentado uma escola de boas maneiras: sentou inclinando-se levemente para o lado, juntou as pernas e cruzou as mãos sobre os joelhos. Ela olhou para mim como um cãozinho abandonado, naquele seu olhar tão polido, que conseguia dissimular a sedução mais evidente, eu encontrei uma criança. E me senti culpado por tentar me aproximar de uma criança, e nessa hora eu ignorei tudo o que havia sentido anteriormente. E ela abriu aqueles pequenos lábios, e disse que estava ali porque sua mãe teve que cuidar da sua tia que havia descoberto um câncer de próstata, descobrindo assim que era hermafrodita, e entrou em crise existencial, ameaçando se jogar da janela de uma casa de bonecas. Meu sangue esfriou e suspirou de alívio: ainda bem que ela não iria ser minha empregada, assim não seria acusado de pedofilia (tenho certeza que ela não tinha mais do que dezesseis anos). Acho, até, que ela ouviu a minha corrente sangüínea voltando a fluir. Novamente, ela me fitou e perguntou se sua mãe poderia vir para a entrevista dentrou de dois dias, devido aos supracitados motivos. Com aqueles dois olhos clamando-me por clemência, fui obrigado a dizer que sim. Ela disse que agora que o recado estava dado, precisava sair. Ajuntou uma mecha de seus cabelos negros atrás da orelha direita, e se levantou com uma leveza própria de um maestro. Foi em direção à porta e esperou-me para abri-la. Abri, ela sorriu, disse-me algo como um "Até mais ver", e se foi. O ar que ela deixou no corredor, inebriou-me. Ela tinha ido e eu sequer sabia seu nome. Mas, tudo bem, devo esquecê-la, isso é coisa de momento, já passa. Durante os dois dias que se passaram, eu me ocupei em esquecê-la, mas só a esqueci, de fato, quando sua mãe veio. Chamava-se Aurélia e tinha quarenta e sete anos. Notei que o jovem esplendor da filha, certamente, vinha do esplendor maduro de Aurélia, na qual todos os adjetivos da filha deveriam estar no aumentativo. Com a mesma educação de sua filha, Aurélia sentou-se no sofá. Ela começou a falar e falar, mas eu não conseguia ouvi-la, sua imagem atingiu meus neurônios como um eletrochoque. Eu acho que ela falava sobre o porquê do seu atraso, mas eu não me importei. De repente, meus neurônios recuperaram-se do eletrochoque. Cortei o monólogo de Aurélia e disse que ela estava contratada. Ela ficou surpresa já que ainda nem tinha tocado no assunto de salário, carga horária e todo o blábláblá burocrático. Eu disse que mesmo assim ela estava contratada. De segunda à sexta, das oito da manhã até às cinco da tarde, começando na próxima segunda. Ela sorriu o mesmo sorriso de sua filha e perguntou se já poderia ir. Disse que sim e a acompanhei até a porta. Fiquei esperando na porta até ela pegar o elevador e descer. Enquanto esperava o elevador, ela arrumou o seu cabelo do mesmo jeito que a filha fizera. Tinha recebido convites para sair no final de semana, mas não saí. A imagem de Aurélia me doía. Passei o final de semana, praticamente, deitado em minha cama, graças ao deletério de Aurélia. Senti que em menos de dois dias, ela se tornara uma obsessão. "Isso vai passar, com ela aqui, todo dia, vai chegar uma hora em que não doerá mais", pensei. Na segunda-feira ela voltou. Cantarolava como uma escrava a lavar roupas no rio. Seu riso era como um mantra, que nas noites eu buscava recapturar na memória. Ela não precisava usar qualquer produto de limpeza, os seus pés lustravam o assoalho como se fossem dotados de uma eterna fonte de uma água virulenta e purificadora. O primeiro mês passou maravilhosamente. Muitas vezes em que ela estava limpando a janela, o banheiro, ou cozinhando, eu simplesmente me sentava no primeiro lugar possível e assistia a cena, imaginando que ela era uma gladiadora lutando contra as bactérias e germes. Um dia, sozinho em casa, me dei conta de que eu havia escondido todos os possíveis vestígios do meu casamento anterior, inconscientemente. Será que eu estava tentando conquistar Aurélia? Não, impossível. Ela só era um objeto para a minha imaginação de roteirista falido. Certo dia, ela precisou levar sua filha para meu apartamento enquanto trabalhava. Eu fui obrigado a abandonar o local por algumas horas, era uma tarefa sobre-humana ter que ficar lá sem poder fazer nada. Como sempre, a rua me ajuda a acalmar os nervos, e também me inspira. Passear pelas ruas, sentar na mesa de um bar, pegar um ônibus qualquer, são coisas que me inspiram. Gosto de ver os transeuntes e imaginar o que eles estariam pensando. Voltei ao apartamento. Já tinha passado do horário de Aurélia, e ela não estava lá. Chegando no quarto, vi sobre a cama um bilhete: "Amanhã preciso falar com você", assinado por Aurélia. Não vi motivo para ela avisar-me de que precisava falar comigo, mas, tudo bem, eu espero. E não dormi nessa noite. Passei a madrugada conjecturando sobre a conversa com Aurélia. Só consegui pegar no sono, eram, mais ou menos, cinco horas.No outro dia, pela manhã, bem cedo, ela fez algo que nunca fez: acordou-me. Ela irrompeu como um animal no meu quarto. Acendeu a luz, descobriu-me habilmente. Ela não sabia que eu costumo dormir nu, e logo atirou a coberta novamente em cima de mim. Aurélia estava com uma carranca de quem passou a noite em vigília forçada. Sentei-me na cama, ela atirou em mim um punhado de folhas encadernadas. Na primeira página estava escrito "O Agonizante Demônio Humano - Uma Peça Autobiográfica", vi que abaixo do título estava meu nome. Mas não era possível, havia mais de dois meses que eu não conseguia escrever sequer uma linha com sentido! Eu ouvia a respiração irritada de Aurélia. Fui folheando aquela peça, e vi que era uma peça, escrita por mim, na qual eu era o personagem principal, e que depois de uma separação inicia um caso tórrido com a filha de uma empregada chamada Aurélia e que trabalhava em minha casa. Eu realmente não sabia que tinha escrito aquilo. Eu perguntei à ela onde ela havia achado aquilo, e ela disse que quando foi guardar minhas meias, ela viu aquilo na gaveta e tirou para abrir espaço, a curiosidade a fez abrir aquilo e se deparou com cenas e situações que, ao ler, estava gostando e achando bom, até lembrar do que estava inscrito na capa, a palavra "autobiográfica". Mesmo com seu pouco grau de estudo, ela pôde entender. Eu é que não entendia nada. Ela disse que agora entendia porque sua filha saía todas as noites, chegava sempre tarde e sorridente. Eu, transtornado, respondi que era impossível, já que havia um certo tempo que eu não saía de casa, e estava meio sem dinheiro, e nem sabia o nome da filha dela. Ela me perguntou o porquê do "autobiográfica" na capa, já que eu não tinha feito nada daquilo. Eu disse que às vezes, nós escritores, usamos termos como "autobiográfica" só para chamar atenção ao material, e complementei dizendo que eu não era o responsável pela criação daquela peça. Ela pediu para eu jurar por minha vida e por Deus que eu não estava com a filha dela, e que nada daquilo na peça era verdade. Eu disse que podia jurar pela minha vida, mas por Deus já ficava um pouco difícil, já que sou ateu. Ela disse que iria embora, e só voltaria no outro dia, e olha lá. Lendo a peça, vi que estava ótima, e reconheci meu estilo de escrever naquela peça. Mas eu simplesmente não me lembro de tê-la escrito! O problema, era que a peça citava muitos nomes, e tinha muitas situações que deveriam permanecer em segredo. No outro dia, Aurélia voltou a me acordar, mas dessa vez não descobriu-me. Ela trazia a sua filha. Disse que o nome dela era Bertoleza. Nesse dia Aurélia estava com uma carranca pior que a do dia anterior. Ela mandou Bertoleza contar tudo o que ela havia contado para Aurélia. Bertoleza disse que desde o dia em que sua mãe começou a trabalhar no meu apartamento, nós estávamos tendo um caso. Ela havia se apaixonado por mim no dia em que veio me comunicar da falta de sua mãe, e logo no primeiro dia de trabalho de sua mãe, ficou esperando ela ir embora para entrar e falar comigo. Bertoleza disse que eu sempre falo "com a língua meio pesada", e que ela estranha que durante o dia eu não falo desse jeito. Eu disse que tomo um remédio para o coração, às cinco horas da tarde. Bertoleza achava que era por causa do remédio, e ficou chateadíssima pelo fato de que eu não me lembrava de "tudo que a gente tinha feito". E Bertoleza continuou confirmando tudo que estava escrito na peça, e contou coisas além do que estava lá. Aurélia estava chorando. Eu não agüentei aquilo, era muita coisa para um dia só. Pedi que elas fossem embora. Bertoleza perguntou se não ia ter nada essa noite, eu fiquei um pouco irritado e bati a porta na cara dela. Achando que tudo isso poderia ser do remédio, não tomei ele naquele dia. Eu geralmente estava indo dormir cedo, esse remédio dá sono, mas hoje, como não tomei, fiquei acordado. No outro dia as duas voltaram. E Bertoleza trazia algumas fotos e alguns vídeos. Em todos eu estava. E eu realmente falava meio estranho, mas o resto eu até que estava fazendo bem certo. Aurélia e Bertoleza sentaram-se em ordem alfabética no sofá, e arrumaram as pernas e o cabelo de formas iguais, e falaram em uníssono que queriam sete mil reais para não mostrarem aquele material para todos que eu conhecia, e minha carreira seria arruinada. Eu respondi que minha carreira já estava arruinada, com isso elas não precisavam se preocupar, e que, obviamente, elas não conheciam todas as pessoas que eu conhecia. Bertoleza disse que nas noites que saía comigo, conheceu bastante gente que parecia ser importante. Como eu não me lembrava de nada, acabei aceitando a proposta. Elas disseram que queriam o dinheiro no dia seguinte, e foram embora. Elas haviam perdido toda a educação e o esplendor. Nesse dia, novamente, eu não tomei o remédio e vi que nada na minha saúde parecia ficar ruim sem o remédio. Eu tenho um punhal no meu apartamento, que comprei em um antiquário. Quando comprei, me disseram que aquele punhal pertencera a um poderoso barão do café da época do Brasil colônia. Tirei ele da gaveta, deitei-o na mesa da sala, e passei a noite sentado olhando para ele. No outro dia, elas chegaram um pouco mais tarde que de costume. Sentaram-se, novamente, no sofá. Eu, sem cerimônia, apunhalei Bertoleza em seu ventre, e cortei para os lados, para fazer bem feito. Aurélia berrava por misericórdia, mas era um sábado de manhã, ninguém iria ouvir. Enquanto Bertoleza agonizava no lamaçal de seu sangue, apunhalei Aurélia com mais força do que fiz na filha. Ao final da carnificina em Aurélia, ela parecia uma esponja que ao ser apertada espalhava o sangue em arcos pela sala. Bertoleza ainda estava se mexendo e vomitando sangue. Eu, dotado de toda a clemência do mundo, apunhalei-a mais três vezes no pescoço e uma nas costas. Não demorou muito, as duas se encontravam mortas no chão da sala, que agora estava vermelho e exalava um leve aroma de ferrugem. Estava tudo bem, eu havia tirado a minha roupa que estava transformada em um pano escarlate, e fui tomar banho. Só que nem tudo foi como eu esperava, e acontece que uma vizinha de baixo ouviu os gritos e chamou a polícia. A polícia chegou e a vizinha disse que os gritos vinham de cima, e a polícia invadiu meu apartamento. Eles viram a cena quase dantesca e ouviram o chuveiro ligado, foram ao banheiro, me derrubaram no piso molhado do banheiro, me vestiram, me trouxeram à delegacia, e... cá estou. Entendeu, doutor Ramos? Você acha que dá para fazer uma boa defesa?
- Olha só: entendi, mas acho que o seu caso vai ser um pouco caro.
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
terça-feira, 12 de agosto de 2008
A Arte do Crime Malfeito
O crime, seja lá qual for, mesmo que considerado algo maléfico pela sociedade em geral, fascina à todos. Certamente, alguns contestarão a afirmativa anterior, porém, isso é fato: o crime possui uma certa magia, um quê de prazeroso, possivelmente por conta da velha história de que "o proibido é mais gostoso". Outro fato, é que a sociedade tem fome de sangue, seja ele em sua forma pastosa e literal, ou na forma figurada. E essa fome animal, é, em parte, saciada pelos telejornais, que, ao mesmo tempo que saciam, também alimentam a imaginação das pessoas, o que, paradoxalmente, as deixa mais famintas. Se dissecarmos a fundo a nossa sociedade, e a submetermos à um olhar mais aguçado, veremos que o crime está intrínseco na sociedade, assim como o instinto nos animais. Logo, todos são loucos; logo, eu sou louco; logo, talvez não seja bom que você leia o resto disso.
Terminou.
Vestiu-se.
Pagou.
Foi-se embora.
Já era tarde.
Já era vício.
Já estava pobre.
Desempregado.
A reserva de dinheiro, o pouco que sobrara, já não sobra mais. Era sempre assim, depois que gastava, o vilipêndio pesava na consciência. O seu suado dinheiro estava agora em posse de um mercado, e de uma meretriz. Miojo, álcool e puta, comprados nessa seqüência, porém não consumidos necessariamente nessa ordem. As mercadorias, exceto a mulher, repousavam na mesa suja da cozinha. Dinheiro bem gasto? Bom, bem gasto ou não, tudo estava ali, olhando pra ele. Dois de seus três vícios estavam na mesa, do terceiro, ainda guardava o torpor.
Sem praticamente nada naquele pequeno apartamento-pulgueiro, ao qual nem de "casa" merecia ser chamado, a única coisa que ele poderia fazer ali dentro, era reclinar-se no sofá roto, e maquinar sobre como voltar a ter dinheiro, por menor que venha a ser a quantia. Mas ele já tinha um plano, e alguém para lhe ajudar.
A vizinha de cima,
e a namorada de Luigi,
respectivamente.
A vizinha de cima é viúva, e guarda dinheiro, corre o boca-a-boca. Não gasta quase nada, só nos remédios. Logo, é só deixá-la sem os remédios. Mas isso é difícil, e se assim for feito, a mulher sofrerá demais, e irá demorar. Portanto, que seja feito algo mais eficiente.
E ainda essa semana.
Como Luigi acabara de entrar para o rol dos desempregados, ele passaria os dias no seu pulgueiro, sem o que fazer, só esperando pela sexta, dia de folga da namorada.
Terça: ócio/acabaram os miojos.
Quarta: ócio.
Quinta: ócio/acabou a vodka; dois copos para acabar o vinho.
Sexta: quase ócio completo.
[16:43, a campainha toca e a namorada entra.
16:43, a namorada arrasta, atrás de si, uma mala. grande mala.]
- Tá tudo aí? - pergunta Luigi de forma ansiosa.
- Sim. Crachá... gravata e terno... revólver e silenciador... e o Otto.
- Pra quê o Otto, ele vai ajudar mordendo a velha?
- Não, mas ele me pediu pra vir junto... - Otto pula nas pernas da namorada.
- Ah, é? Pediu? Com convite formal, R.S.V.P. e tudo?
- Ah... Cala a boca, Luigi, tu sabe como é que o Otto pede - a namorada afaga o cão, e o cão ronrona levemente. (peraí, o cão ronrona?)
- Tá tá! O Otto fica aqui e a gente vai lá, e mata a velha.
- Isso.
Como só haviam eles no pulgueiro, se trocaram ali mesmo. Ela vestiu um tailleur cinza e amarrou os cabelos. Luigi vestiu o terno risca-de-giz, camisa branca e gravata vermelho-meio-vinho. E os dois colocaram os crachás, nos quais estava escrito "Censo 2008".
[17:14, deixam o pulgueiro.
17:16, tocam a campainha da velha,]
e a porta abre. É revelada uma figura de baixa estatura, trajando um roupão rosa, e pantufas azuis. A mulher tem seus cabelos já se transformando do preto para o branco.
- O que vocês gostariam? - a mulher, apesar da pouca-muita idade, está perdendo a visão, e, semicerra os olhos para tentar ler os crachás de Luigi e da namorada.
- Bom dia! - diz Luigi - Somos do IBGE e gostaríamos de entrevistá-la, podemos entrar?
- Mas é claro, adoro colaborar com a pátria!
Pelo visto, o assoalho de madeira fora recentemente encerado. Brilhava. Dava até pena de pisá-lo, mas é necessário. E logo estaria vermelho. Os móveis da sala eram dispostos de maneira metódica e obsessiva.
A honesta senhora se acomoda em sua poltrona e os pseudo-recenseadores fazem o mesmo em um sofá de veludo vermelho. Luigi agarra uma almofada. A namorada pega a caneta e a prancheta.
A namorada: O seu nome, por gentileza.
Mulher: Luci Lemos.
A namorada: Quantos filhos, se os possui.
Luci: Nenhum. (esboça um daqueles sorrisos que antecedem as lágrimas)
E antes que Luci comece a lamuriar-se, Luigi pega discretamente o revólver, com o silenciador já colocado, ajeita-a atrás da almofada,
e atira.
- Pra quê a almofada, seu retardado? - late a namorada.
- Ah, sei lá, vai que o silenciador não funciona?
- Tá tá tá, onde que a mulher guarda o dinheiro?
- Hum... veja bem... digamos... que eu não sei. - Luigi resmunga de cabeça baixa.
A namorada anda alguns passos para trás, afinal, o corpo de Luci, que sangrava no chão encerado, estava próximo da namorada, e o sangue quase tocou seus sapatos de liquidação. Mas, a namorada logo berra:
- O quêêêêêêêêêêêêê? Tu não sabe onde a velha enfia o dinheiro? Ah, pois bem que a minha mãe disse que tu era um bunda-mole... viado... nem pra roubar tu me serve!
- Calma...
- Calma o quê? Pensa que eu não sei que tu vai no bordel? - a namorada brandia a prancheta como se fosse uma Joana D'arc subversiva.
- Olha, façamos assim: cada um vai pra um lado, e procura alguma coisa, um cofre, ok?
- Certo!... Afinal eu quero o dinheiro!
Luigi pôs-se a procurar na sala, e a namorada foi para o local que aparentava ser o quarto. Ela derrubou os quadros de santos, mas não achou nada. Abriu o armário, e não tinha nada. Derrubou as roupas, e nada. Virou as gavetas, e nada. Mas, naquele monte de roupas espalhadas no chão, duas coisas lhe chamaram a atenção: algo preto, fino e comprido, e junto disso, uma cinta-liga. Ela, a namorada, deu um leve sorriso. Tirou o tailleur e vestiu a cinta-liga, pegou o chicote, se olhou no espelho, deu uma risadinha, e foi até a sala.
Luigi vira-se para trás, ao ouvir alguém se aproximando, e vê a namorada.
- Quê que é isso? - Luigi leva um bom susto.
- Não gostou? - a namorada dá uma risadinha, mordisca a ponta do chicote e passa-o por entre as pernas de Luigi.
- Tu não tava toda estressadinha, antes? E... onde que tava essa cinta-liga? - Luigi sente algo crescer em si.
- Hum... Mister Luigi, pelo visto tu ainda gosta de mim, ou pelo menos me quer... Então por que tu vai no bordel, seu filho da puta? Hã? - a namorada volta a berrar e bate com o chicote em Luigi.
- Basta! Viemos aqui pra matar e pegar o dinheiro, certo? Antes de dar o assunto por encerrado, só uma coisa: nunca te vi usando cinta-liga, essa aí é tua ou da velha?
- É dela. - a namorada aponta para Luci com o chicote - Tava lá no armário dela, junto de um terço...
- Hum... Enfim, achou o cofre?
- Não...
- Me ajuda aqui na sala.
Ambos derrubavam tudo na sala. A namorada quase tropeça no tapete.
- Larga essa merda que fica mais fácil! - Luigi aponta para o chicote.
Ela larga o chicote no chão, e, andando sem olhar para os pés, a namorada tropeça em Luci e cai na poça de sangue. Nesse meio tempo, Luigi derruba uma estante
e vê
o cofre,
destravado.
- Vem aqui! - Luigi parece uma criança, tamanha a alegria, chamando a namorada - Achei um cofre!
- Posso sair do meio do sangue, antes? - a namorada, com o rosto vermelho, balbucia.
- Tá.
O coração de Luigi dispara, e ele abre o cofre. E cai o queixo. Eles foram ali para, única e exclusivamente, roubar. Aparentemente, dentro do cofre não havia dinheiro algum, nem nada valioso. Ali dentro haviam: revistas de homens nus, cuecas, algo de forma fálica que aparentava ser um vibrador, um Kama Sutra e um pé de meia.
A namorada estava atrás de Luigi, e ria.
- Quer dizer que ela só comprava remédios, é?
- É que... eu ouvi dizer que... - Luigi se perdia no meio dos gaguejos e dos "e... que..."
- Ai, ai! Viemos aqui, matamos a mulher, fizemos uma enorme baderna, só pra roubar as fantasias sexuais da velha?
- Eu não sabia...
- Então, depois dessa ótima parte do meu dia, vamos embora? Eu tenho que tomar banho, olha só como estou...
- É mesmo... - agora Luigi troca a expressão de perplexidade, por um sorriso sacana. - Tomamos juntos?
- Claro! - nessa altura do relato, a namorada já tinha esquecido o bordel, o cofre e o corpo no chão.
Foram ao banheiro, lá fizeram o que queriam fazer, afinal, não fariam na sala, pois eles poderiam ser assaltantes e assassinos, mas ainda respeitam os mortos.
Voltaram do banheiro, nus, cansados e apressados. Cataram pelo chão as coisas que trouxeram, foram à porta, viram pelo olho-mágico que não havia ninguém no corredor, e saíram do apartamento de Luci. Nus. O pulgueiro de Luigi é no andar de baixo, por isso saíram assim, correndo.
Mas, no final da escada que dava no andar de Luigi, uma mulher vinha subindo. E viu-os descendo, nus, correndo. A mulher ficou chocada e correu para o seu apartamento, que é no andar do de Luci. Quando chegou no seu andar, ela viu, entreaberta, a porta do apartamento de Luci. Dois nus, e uma porta aberta, sendo que essa vivia fechada, a mulher estranhou. E a mulher ligou para a polícia.
Certamente, a polícia demorou a chegar, mas quando chegou, foi eficiente. Ou nem tanto. Viram um corpo e um apartamento revirado, mas nada de nus.
O soldado Fernandes, quando chegou, logo viu o porquê da bagunça e da morte: um cofre aberto. É claro que o capitão riu quando viu os artefatos que se encontravam no cofre. Porém, ele estranhou, nada parecia ter sido roubado. Fernandes, tarado, pegou o Kama Sutra e abriu para ver as gravuras, enquanto os outros trabalhavam no corpo e no resto do local. Ao abrir o livro, viu um grande furo no meio das páginas, onde estavam várias notas de Euro, dois cartões de crédito, um colar de pérolas brancas e um par de brincos de pérolas negras. Indignado com a inocência dos mentecaptos, ele sussura para si:
- Qual foi o idiota que veio aqui só pra derrubar a mobília? Retardado... E nem leva nada... Vê se pode...
Engano do senhor Fernandes: a namorada levou a cinta-liga e o chicote.
Terminou.
Vestiu-se.
Pagou.
Foi-se embora.
Já era tarde.
Já era vício.
Já estava pobre.
Desempregado.
A reserva de dinheiro, o pouco que sobrara, já não sobra mais. Era sempre assim, depois que gastava, o vilipêndio pesava na consciência. O seu suado dinheiro estava agora em posse de um mercado, e de uma meretriz. Miojo, álcool e puta, comprados nessa seqüência, porém não consumidos necessariamente nessa ordem. As mercadorias, exceto a mulher, repousavam na mesa suja da cozinha. Dinheiro bem gasto? Bom, bem gasto ou não, tudo estava ali, olhando pra ele. Dois de seus três vícios estavam na mesa, do terceiro, ainda guardava o torpor.
Sem praticamente nada naquele pequeno apartamento-pulgueiro, ao qual nem de "casa" merecia ser chamado, a única coisa que ele poderia fazer ali dentro, era reclinar-se no sofá roto, e maquinar sobre como voltar a ter dinheiro, por menor que venha a ser a quantia. Mas ele já tinha um plano, e alguém para lhe ajudar.
A vizinha de cima,
e a namorada de Luigi,
respectivamente.
A vizinha de cima é viúva, e guarda dinheiro, corre o boca-a-boca. Não gasta quase nada, só nos remédios. Logo, é só deixá-la sem os remédios. Mas isso é difícil, e se assim for feito, a mulher sofrerá demais, e irá demorar. Portanto, que seja feito algo mais eficiente.
E ainda essa semana.
Como Luigi acabara de entrar para o rol dos desempregados, ele passaria os dias no seu pulgueiro, sem o que fazer, só esperando pela sexta, dia de folga da namorada.
Terça: ócio/acabaram os miojos.
Quarta: ócio.
Quinta: ócio/acabou a vodka; dois copos para acabar o vinho.
Sexta: quase ócio completo.
[16:43, a campainha toca e a namorada entra.
16:43, a namorada arrasta, atrás de si, uma mala. grande mala.]
- Tá tudo aí? - pergunta Luigi de forma ansiosa.
- Sim. Crachá... gravata e terno... revólver e silenciador... e o Otto.
- Pra quê o Otto, ele vai ajudar mordendo a velha?
- Não, mas ele me pediu pra vir junto... - Otto pula nas pernas da namorada.
- Ah, é? Pediu? Com convite formal, R.S.V.P. e tudo?
- Ah... Cala a boca, Luigi, tu sabe como é que o Otto pede - a namorada afaga o cão, e o cão ronrona levemente. (peraí, o cão ronrona?)
- Tá tá! O Otto fica aqui e a gente vai lá, e mata a velha.
- Isso.
Como só haviam eles no pulgueiro, se trocaram ali mesmo. Ela vestiu um tailleur cinza e amarrou os cabelos. Luigi vestiu o terno risca-de-giz, camisa branca e gravata vermelho-meio-vinho. E os dois colocaram os crachás, nos quais estava escrito "Censo 2008".
[17:14, deixam o pulgueiro.
17:16, tocam a campainha da velha,]
e a porta abre. É revelada uma figura de baixa estatura, trajando um roupão rosa, e pantufas azuis. A mulher tem seus cabelos já se transformando do preto para o branco.
- O que vocês gostariam? - a mulher, apesar da pouca-muita idade, está perdendo a visão, e, semicerra os olhos para tentar ler os crachás de Luigi e da namorada.
- Bom dia! - diz Luigi - Somos do IBGE e gostaríamos de entrevistá-la, podemos entrar?
- Mas é claro, adoro colaborar com a pátria!
Pelo visto, o assoalho de madeira fora recentemente encerado. Brilhava. Dava até pena de pisá-lo, mas é necessário. E logo estaria vermelho. Os móveis da sala eram dispostos de maneira metódica e obsessiva.
A honesta senhora se acomoda em sua poltrona e os pseudo-recenseadores fazem o mesmo em um sofá de veludo vermelho. Luigi agarra uma almofada. A namorada pega a caneta e a prancheta.
A namorada: O seu nome, por gentileza.
Mulher: Luci Lemos.
A namorada: Quantos filhos, se os possui.
Luci: Nenhum. (esboça um daqueles sorrisos que antecedem as lágrimas)
E antes que Luci comece a lamuriar-se, Luigi pega discretamente o revólver, com o silenciador já colocado, ajeita-a atrás da almofada,
e atira.
- Pra quê a almofada, seu retardado? - late a namorada.
- Ah, sei lá, vai que o silenciador não funciona?
- Tá tá tá, onde que a mulher guarda o dinheiro?
- Hum... veja bem... digamos... que eu não sei. - Luigi resmunga de cabeça baixa.
A namorada anda alguns passos para trás, afinal, o corpo de Luci, que sangrava no chão encerado, estava próximo da namorada, e o sangue quase tocou seus sapatos de liquidação. Mas, a namorada logo berra:
- O quêêêêêêêêêêêêê? Tu não sabe onde a velha enfia o dinheiro? Ah, pois bem que a minha mãe disse que tu era um bunda-mole... viado... nem pra roubar tu me serve!
- Calma...
- Calma o quê? Pensa que eu não sei que tu vai no bordel? - a namorada brandia a prancheta como se fosse uma Joana D'arc subversiva.
- Olha, façamos assim: cada um vai pra um lado, e procura alguma coisa, um cofre, ok?
- Certo!... Afinal eu quero o dinheiro!
Luigi pôs-se a procurar na sala, e a namorada foi para o local que aparentava ser o quarto. Ela derrubou os quadros de santos, mas não achou nada. Abriu o armário, e não tinha nada. Derrubou as roupas, e nada. Virou as gavetas, e nada. Mas, naquele monte de roupas espalhadas no chão, duas coisas lhe chamaram a atenção: algo preto, fino e comprido, e junto disso, uma cinta-liga. Ela, a namorada, deu um leve sorriso. Tirou o tailleur e vestiu a cinta-liga, pegou o chicote, se olhou no espelho, deu uma risadinha, e foi até a sala.
Luigi vira-se para trás, ao ouvir alguém se aproximando, e vê a namorada.
- Quê que é isso? - Luigi leva um bom susto.
- Não gostou? - a namorada dá uma risadinha, mordisca a ponta do chicote e passa-o por entre as pernas de Luigi.
- Tu não tava toda estressadinha, antes? E... onde que tava essa cinta-liga? - Luigi sente algo crescer em si.
- Hum... Mister Luigi, pelo visto tu ainda gosta de mim, ou pelo menos me quer... Então por que tu vai no bordel, seu filho da puta? Hã? - a namorada volta a berrar e bate com o chicote em Luigi.
- Basta! Viemos aqui pra matar e pegar o dinheiro, certo? Antes de dar o assunto por encerrado, só uma coisa: nunca te vi usando cinta-liga, essa aí é tua ou da velha?
- É dela. - a namorada aponta para Luci com o chicote - Tava lá no armário dela, junto de um terço...
- Hum... Enfim, achou o cofre?
- Não...
- Me ajuda aqui na sala.
Ambos derrubavam tudo na sala. A namorada quase tropeça no tapete.
- Larga essa merda que fica mais fácil! - Luigi aponta para o chicote.
Ela larga o chicote no chão, e, andando sem olhar para os pés, a namorada tropeça em Luci e cai na poça de sangue. Nesse meio tempo, Luigi derruba uma estante
e vê
o cofre,
destravado.
- Vem aqui! - Luigi parece uma criança, tamanha a alegria, chamando a namorada - Achei um cofre!
- Posso sair do meio do sangue, antes? - a namorada, com o rosto vermelho, balbucia.
- Tá.
O coração de Luigi dispara, e ele abre o cofre. E cai o queixo. Eles foram ali para, única e exclusivamente, roubar. Aparentemente, dentro do cofre não havia dinheiro algum, nem nada valioso. Ali dentro haviam: revistas de homens nus, cuecas, algo de forma fálica que aparentava ser um vibrador, um Kama Sutra e um pé de meia.
A namorada estava atrás de Luigi, e ria.
- Quer dizer que ela só comprava remédios, é?
- É que... eu ouvi dizer que... - Luigi se perdia no meio dos gaguejos e dos "e... que..."
- Ai, ai! Viemos aqui, matamos a mulher, fizemos uma enorme baderna, só pra roubar as fantasias sexuais da velha?
- Eu não sabia...
- Então, depois dessa ótima parte do meu dia, vamos embora? Eu tenho que tomar banho, olha só como estou...
- É mesmo... - agora Luigi troca a expressão de perplexidade, por um sorriso sacana. - Tomamos juntos?
- Claro! - nessa altura do relato, a namorada já tinha esquecido o bordel, o cofre e o corpo no chão.
Foram ao banheiro, lá fizeram o que queriam fazer, afinal, não fariam na sala, pois eles poderiam ser assaltantes e assassinos, mas ainda respeitam os mortos.
Voltaram do banheiro, nus, cansados e apressados. Cataram pelo chão as coisas que trouxeram, foram à porta, viram pelo olho-mágico que não havia ninguém no corredor, e saíram do apartamento de Luci. Nus. O pulgueiro de Luigi é no andar de baixo, por isso saíram assim, correndo.
Mas, no final da escada que dava no andar de Luigi, uma mulher vinha subindo. E viu-os descendo, nus, correndo. A mulher ficou chocada e correu para o seu apartamento, que é no andar do de Luci. Quando chegou no seu andar, ela viu, entreaberta, a porta do apartamento de Luci. Dois nus, e uma porta aberta, sendo que essa vivia fechada, a mulher estranhou. E a mulher ligou para a polícia.
Certamente, a polícia demorou a chegar, mas quando chegou, foi eficiente. Ou nem tanto. Viram um corpo e um apartamento revirado, mas nada de nus.
O soldado Fernandes, quando chegou, logo viu o porquê da bagunça e da morte: um cofre aberto. É claro que o capitão riu quando viu os artefatos que se encontravam no cofre. Porém, ele estranhou, nada parecia ter sido roubado. Fernandes, tarado, pegou o Kama Sutra e abriu para ver as gravuras, enquanto os outros trabalhavam no corpo e no resto do local. Ao abrir o livro, viu um grande furo no meio das páginas, onde estavam várias notas de Euro, dois cartões de crédito, um colar de pérolas brancas e um par de brincos de pérolas negras. Indignado com a inocência dos mentecaptos, ele sussura para si:
- Qual foi o idiota que veio aqui só pra derrubar a mobília? Retardado... E nem leva nada... Vê se pode...
Engano do senhor Fernandes: a namorada levou a cinta-liga e o chicote.
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
Sobre Como Teria Sido, Caso os Personagens da Bíblia Voassem
Há alguns dias eu conversava com uma pessoa, e durante a conversa (inútil em sua maior parte) nos deparamos com algumas questões que podem parecer triviais (eufemismo para "nonsense", que é eufemismo pra "sem sentido", que é eufemismo para "idiota" e que daí pra frente me perco nos eufemismos), e uma dessas foi a questão: como acabar com uma história? Sabe aquela história ótima em todos os sentidos? E durante nossa conversa nos demos à imaginar como teriam terminado (ou nem começado) filmes hoje famosos e com belas histórias, se alguém tivesse resolvido acabar com a história deste filme. E você me pergunta: como acabar com uma história? E a resposta é: voando. Sim, voando. Mas (como sugere o título disso que você está lendo), deixemos por um instante os filmes de lado, e pensemos sobre como teria sido o destino de personagens famosos da Bíblia (sabe aquele livrinho? Esse mesmo), caso eles voassem. Portanto, assente-se, e caso depois de ler isso, você queria voar, pense em como seria a sua história.
Adão e Eva
Às devidas explicações: Segundo as tradições cristãs que cercam nosso planeta de forma incrível, Adão e Eva são os pais do pecado, os que cometeram o pecado original, comendo a maçã que Satã, encarnado em uma cobra, lhes oferecera. Adão e Eva andavam nus, sem vergonha de Deus, sem medo dos animais, e, certamente, sem lenço ou documentos. Deus, em toda a sua divinal sapiência (sapiência é uma questão totalmente relativa), após o pecado do belo casal Barro & Costela, criou-lhes vergonha e os fez andarem cobertos, e depois mandou os pobres para fora do Éden. Fora do Éden, tiveram os filhos Caim e Abel, mas aí já é outra história.
Dando asas: Certamente, a Bíblia deixou de fora muita coisa. Inclusive a incrível vontade de Adão e Eva experimentarem o topo de um monte logo ali do jardim, visto que já haviam feito suas sacanagens por todo o Éden, deixando os puritanos flamingos rosados no lago. Outro sonho alado de Eva, era estar voando, nua e silenciosa, e quando ver um leão dormindo, logo assustá-lo e sair voando, só pra ver o que aconteceria. Depois de comerem o fruto do Tinhoso, certamente Adão e Eva voariam loucamente com suas alvas asas a bater sobre o Éden, asas essas que de tão grandes, criavam algo como um eclipse no jardim. Você pode me perguntar: mas por que que eles voariam loucamente depois de comer a maçã? É que alguns teólogos afirmam que existe uma possibilidade de que naquela maçã existiam substâncias que hoje são conhecidas por integrarem o ecstasy. Quando Deus os mandasse embora, não haveria nenhum problema, já que eles são seres alados e que logo depois que saíssem de lá, poderiam voltar para pegar alguns conselhos com o sábio Papoulos, um macaco da Vila Green Éden.
Moisés
Às devidas explicações: Nos tempos em que os hebreus viviam sob a tirania egípcia, uma escrava hebréia põe um filho no mundo, e logo depois o coloca num cesto em um rio. Logo depois, a irmã do faraó acha o garoto no rio, e o toma como se fosse seu filho. Moisés cresce em meio à realeza egípcia, mas, algum tempo depois, sente seu sangue hebreu falar alto, e desce do palácio para se juntar à causa dos hebreus que queriam se libertar da escravidão (alguns milênios depois, grupos vanguardistas do meio das artes fariam isso lutando pela causa, só que de maneira inversa). Moisés se torna herói do povo, traz os dez mandamentos, fala com Deus por intermédio de um arbusto em chamas, tira água de uma pedra, pede para que pães caiam do céu e abre o Mar Vermelho.
Dando asas: Só pra se ter uma idéia, se Moisés tivesse asas, ele mal entraria naquele cestinho do rio, e sairia por aí voando, caso isso tivesse acontecido, anularia toda a história dita anteriormente. Porém, se ele fosse um bebê pacífico e não quisesse voar, logo que chegasse em sua adolescência, sairia voando por uma das clarabóias do palácio, fugiria do palácio porque não entendia por qual razão tinha que usar aquelas pesadíssimas maquiagens, já que sempre que ele saía do palácio para sua caminhada matinal, ele transpirava muito, e o lápis em seus olhos e as pinturas do rosto ficassem totalmente borradas (hoje em dia, homem que usa maquiagem é... Bom, deixa pra lá). Caso ele não fugisse voando do palácio quando era jovem, mais tarde ele fugiria, mas dessa vez unindo-se à causa sindical, e não andaria a torrar seus pés na areia escaldante, ele voaria e sentiria a leve brisa (existe brisa no Egito?) bater em seu rosto, ou um airbus da TAM, mas aí já estamos saindo de nosso propósito. E você acha que se ele voasse, ele subiria à pé o monte Sinai? Evidentemente que não, isso já diminuiria o longo tempo que passou lá em cima, enquando ajudava o Altíssimo a fechar o caixa. Mas, tudo mudaria mesmo na situação do Mar Vermelho. Certamente, se ele voasse e fosse dotado de enormes asas branco-acinzentadas, ele não chegaria junto de sua magote na beira do mar e berraria pro céu: "Tá, e agora?" É óbvio que ele diria: "Todo mundo aí? Então subam aqui nas minhas asas, por ordem alfabética, para podermos atravessar isso aqui, ok?" E, com certeza, ele não teria seus livros publicados pela editora celestial.
José
Às devidas explicações: José tinha muitos irmãos e um pai, algo comum nos tempos bíblicos. Mas, José tinha sonhos. Tudo bem que ter sonhos pode não ser nada muito extravagante, mas os sonhos dele são um tanto quanto... egocêntricos. E premonitórios. Sonhou coisas como, um feixe grande de palha estava no centro de um círculo, e em volta dele vários outros feixes menores se curvavam a ele. Nesse sonho, ele intepretou-se como o feixão, e seus irmãos e seus pais os feixinhos. Teve outro sonhos desse gênero, só que com corpos celestes. Um dia, José ganhou uma túnica multicolorida, afinal era o filho preferido. Seus irmãos, por inveja, batem no pobre coitado, e o jogam um fosso, sua túnica fica embebida de sangue, eles a retiram, deixam-no nu, e levam ao pai a túnica e dizem que o filho está morto, depois voltam ao fosso e o vendem como escravo para alguns egípcios. Tempos depois, já no Egito, devido à algumas reviravoltas do acaso, José vira ministro do faraó, e um dia recebe seus irmãos e seus pais sofrendo de fome em seu escritório, primeiro, lhes trata com desprezo, uma espécie de vingança, e depois conta-lhes ser José, e todo mundo chora, e fade out.
Dando asas: É preciso dizer muita coisa? É claro que ele ia sair voando do fosso e fugir, certo?
Ou você acha que ele ia ficar lá? Nem com uma paciência de Jó! Jó? Ai... Aí já é outra coisa.
Jonas
Às devidas explicações: Jonas desperta a ira do Senhor-Todo-Poderoso-Oba-Oba, e este o manda pra dentro de uma baleia, assim, sem mais nem menos (tá, não é bem assim).
Dando asas: Jonas acordaria desnorteado, perguntando-se aonde estaria, e logo àcima de sua cabeça veria algo como um sino, que na verdade é a amígdala da baleia. Ele tocaria o sino, mas perceberia que não era um sino, pois daquilo saía uma gosma incolor, e logo depois sentiria um solovanco, era a baleia mexendo incômodamente a língua, o que faria Jonas descer para o trato digestivo do grande paquiderme marítimo. Lá dentro, ele se revoltaria, a abriria suas longas asas (o que deixaria um tanto quanto irritado o estômago da baleia), e sairia voando pelos oceanos dentro da baleia, porém ninguém o veria, somente veriam a baleia, a voar pelas cidades e mares. Alguns acharam isso estranho, mas só murmuravam alguma oração que lembravam, mas a baleia continuava seu aparente passeio pelos ares.
Pôncio Pilatos
Às devidas explicações: Pôncio, mais conhecido só como Pilatos, até porque, com um nome desses, eu também preferiria ser reconhecido pelo sobrenome (a não ser, claro, que o sobrenome seja da mesma laia). Pilatos foi encarregado do julgamento de Jesus, julgamento esse que, terminou com 1x0 pra Barrabás, mandando Jesus direto pra cruz. Mas, quem decidiu o veredicto não foi Pilatos, e sim o povo. Pilatos disse a famosa frase: "Lavo as minhas mãos", dizendo assim que Jesus não era mais de sua alçada.
Dando asas: Pilatos, ao invés de dizer: "Lavo as minha mãos", ele diria: "Até mais, e comprem meus vídeos!". Ele sairia voando pelo meio daquela balbúrdia, e passaria algum tempo desenvolvendo os princípios de uma seita conhecida como "Pilates", que possui vários vídeos sobre as variadas formas de ser praticada, e que, atualmente, leva multidões de mulheres para as academias achando que o Pilates lhes salvará da iminente velhice. Existe também a teoria de que Pilatos tenha reencarnado em Solange Frazão.
Jesus Cristo
Às devidas explicações: Por acaso você não conhece a história de Jesus? Desculpe-me, mas não serei eu a lhe contá-la.
Dando asas: Jesus podia ser filho de Deus em uma virgem, mas nem por isso ele voava! Mas, se ele voasse, tenho plena certeza disso, na hora da circuncisão ele voaria rapidamente para o infinito, e além. Mas, caso assim não fosse, creio que em vez de andar sobre as águas, se ele tivesse voado com aquela rede cheia de peixes nas costas, o feito seria mais comentado. Você já notou como a última ceia foi uma completa bagunça? Então, Jesus voaria por sobre a mesa, chutando os copos de vinho, e mandando todos calarem as suas respectivas bocas. Sabe-se das hipóteses de seu caso com Maria Madalena, então, pensando assim, vemos que ele talvez poderia ter pego Maria e voado com ela até Roma, e lá aberto uma pousada, ou uma filial do Restaurante da Multiplicação, ou aberto uma vinícola, a qual tinha como base a água, já que ele podia transformar água em vinho. Quando estava no jardim do Getsêmani, ele não ficaria aqui a prantear e dizendo ao vento: "Afasta de mim esse cálice", na verdade, se ele voasse, ele iria até o céu, e lá tirar umas satisfações com seu pai. E se seus argumentos não fossem suficientes para assim ele escapar da morte prevista, ele poderia, então, durante a Via Crúcis, alçar vôo e aterrissar, por exemplo, no Havaí, dando origem à igrejas de surfistas. Mas se ele estivesse com preguiça de fazer isso na Via Crúcis, ele ia ter que morrer, afinal, tentar voar estando pregado numa cruz, não ia dar certo. Depois morreria, e três dias após, ele ressucitaria, iria encontrar-se com seus amiguinhos, e depois ele seria assunto aos céus. Pronto acabou.
P.S.: se Jesus foi assunto, então ele voava? Quer dizer então, que ele voava e nunca fez nada de útil? Agora sim é que me perdi de vez.
Adão e Eva
Às devidas explicações: Segundo as tradições cristãs que cercam nosso planeta de forma incrível, Adão e Eva são os pais do pecado, os que cometeram o pecado original, comendo a maçã que Satã, encarnado em uma cobra, lhes oferecera. Adão e Eva andavam nus, sem vergonha de Deus, sem medo dos animais, e, certamente, sem lenço ou documentos. Deus, em toda a sua divinal sapiência (sapiência é uma questão totalmente relativa), após o pecado do belo casal Barro & Costela, criou-lhes vergonha e os fez andarem cobertos, e depois mandou os pobres para fora do Éden. Fora do Éden, tiveram os filhos Caim e Abel, mas aí já é outra história.
Dando asas: Certamente, a Bíblia deixou de fora muita coisa. Inclusive a incrível vontade de Adão e Eva experimentarem o topo de um monte logo ali do jardim, visto que já haviam feito suas sacanagens por todo o Éden, deixando os puritanos flamingos rosados no lago. Outro sonho alado de Eva, era estar voando, nua e silenciosa, e quando ver um leão dormindo, logo assustá-lo e sair voando, só pra ver o que aconteceria. Depois de comerem o fruto do Tinhoso, certamente Adão e Eva voariam loucamente com suas alvas asas a bater sobre o Éden, asas essas que de tão grandes, criavam algo como um eclipse no jardim. Você pode me perguntar: mas por que que eles voariam loucamente depois de comer a maçã? É que alguns teólogos afirmam que existe uma possibilidade de que naquela maçã existiam substâncias que hoje são conhecidas por integrarem o ecstasy. Quando Deus os mandasse embora, não haveria nenhum problema, já que eles são seres alados e que logo depois que saíssem de lá, poderiam voltar para pegar alguns conselhos com o sábio Papoulos, um macaco da Vila Green Éden.
Moisés
Às devidas explicações: Nos tempos em que os hebreus viviam sob a tirania egípcia, uma escrava hebréia põe um filho no mundo, e logo depois o coloca num cesto em um rio. Logo depois, a irmã do faraó acha o garoto no rio, e o toma como se fosse seu filho. Moisés cresce em meio à realeza egípcia, mas, algum tempo depois, sente seu sangue hebreu falar alto, e desce do palácio para se juntar à causa dos hebreus que queriam se libertar da escravidão (alguns milênios depois, grupos vanguardistas do meio das artes fariam isso lutando pela causa, só que de maneira inversa). Moisés se torna herói do povo, traz os dez mandamentos, fala com Deus por intermédio de um arbusto em chamas, tira água de uma pedra, pede para que pães caiam do céu e abre o Mar Vermelho.
Dando asas: Só pra se ter uma idéia, se Moisés tivesse asas, ele mal entraria naquele cestinho do rio, e sairia por aí voando, caso isso tivesse acontecido, anularia toda a história dita anteriormente. Porém, se ele fosse um bebê pacífico e não quisesse voar, logo que chegasse em sua adolescência, sairia voando por uma das clarabóias do palácio, fugiria do palácio porque não entendia por qual razão tinha que usar aquelas pesadíssimas maquiagens, já que sempre que ele saía do palácio para sua caminhada matinal, ele transpirava muito, e o lápis em seus olhos e as pinturas do rosto ficassem totalmente borradas (hoje em dia, homem que usa maquiagem é... Bom, deixa pra lá). Caso ele não fugisse voando do palácio quando era jovem, mais tarde ele fugiria, mas dessa vez unindo-se à causa sindical, e não andaria a torrar seus pés na areia escaldante, ele voaria e sentiria a leve brisa (existe brisa no Egito?) bater em seu rosto, ou um airbus da TAM, mas aí já estamos saindo de nosso propósito. E você acha que se ele voasse, ele subiria à pé o monte Sinai? Evidentemente que não, isso já diminuiria o longo tempo que passou lá em cima, enquando ajudava o Altíssimo a fechar o caixa. Mas, tudo mudaria mesmo na situação do Mar Vermelho. Certamente, se ele voasse e fosse dotado de enormes asas branco-acinzentadas, ele não chegaria junto de sua magote na beira do mar e berraria pro céu: "Tá, e agora?" É óbvio que ele diria: "Todo mundo aí? Então subam aqui nas minhas asas, por ordem alfabética, para podermos atravessar isso aqui, ok?" E, com certeza, ele não teria seus livros publicados pela editora celestial.
José
Às devidas explicações: José tinha muitos irmãos e um pai, algo comum nos tempos bíblicos. Mas, José tinha sonhos. Tudo bem que ter sonhos pode não ser nada muito extravagante, mas os sonhos dele são um tanto quanto... egocêntricos. E premonitórios. Sonhou coisas como, um feixe grande de palha estava no centro de um círculo, e em volta dele vários outros feixes menores se curvavam a ele. Nesse sonho, ele intepretou-se como o feixão, e seus irmãos e seus pais os feixinhos. Teve outro sonhos desse gênero, só que com corpos celestes. Um dia, José ganhou uma túnica multicolorida, afinal era o filho preferido. Seus irmãos, por inveja, batem no pobre coitado, e o jogam um fosso, sua túnica fica embebida de sangue, eles a retiram, deixam-no nu, e levam ao pai a túnica e dizem que o filho está morto, depois voltam ao fosso e o vendem como escravo para alguns egípcios. Tempos depois, já no Egito, devido à algumas reviravoltas do acaso, José vira ministro do faraó, e um dia recebe seus irmãos e seus pais sofrendo de fome em seu escritório, primeiro, lhes trata com desprezo, uma espécie de vingança, e depois conta-lhes ser José, e todo mundo chora, e fade out.
Dando asas: É preciso dizer muita coisa? É claro que ele ia sair voando do fosso e fugir, certo?
Ou você acha que ele ia ficar lá? Nem com uma paciência de Jó! Jó? Ai... Aí já é outra coisa.
Jonas
Às devidas explicações: Jonas desperta a ira do Senhor-Todo-Poderoso-Oba-Oba, e este o manda pra dentro de uma baleia, assim, sem mais nem menos (tá, não é bem assim).
Dando asas: Jonas acordaria desnorteado, perguntando-se aonde estaria, e logo àcima de sua cabeça veria algo como um sino, que na verdade é a amígdala da baleia. Ele tocaria o sino, mas perceberia que não era um sino, pois daquilo saía uma gosma incolor, e logo depois sentiria um solovanco, era a baleia mexendo incômodamente a língua, o que faria Jonas descer para o trato digestivo do grande paquiderme marítimo. Lá dentro, ele se revoltaria, a abriria suas longas asas (o que deixaria um tanto quanto irritado o estômago da baleia), e sairia voando pelos oceanos dentro da baleia, porém ninguém o veria, somente veriam a baleia, a voar pelas cidades e mares. Alguns acharam isso estranho, mas só murmuravam alguma oração que lembravam, mas a baleia continuava seu aparente passeio pelos ares.
Pôncio Pilatos
Às devidas explicações: Pôncio, mais conhecido só como Pilatos, até porque, com um nome desses, eu também preferiria ser reconhecido pelo sobrenome (a não ser, claro, que o sobrenome seja da mesma laia). Pilatos foi encarregado do julgamento de Jesus, julgamento esse que, terminou com 1x0 pra Barrabás, mandando Jesus direto pra cruz. Mas, quem decidiu o veredicto não foi Pilatos, e sim o povo. Pilatos disse a famosa frase: "Lavo as minhas mãos", dizendo assim que Jesus não era mais de sua alçada.
Dando asas: Pilatos, ao invés de dizer: "Lavo as minha mãos", ele diria: "Até mais, e comprem meus vídeos!". Ele sairia voando pelo meio daquela balbúrdia, e passaria algum tempo desenvolvendo os princípios de uma seita conhecida como "Pilates", que possui vários vídeos sobre as variadas formas de ser praticada, e que, atualmente, leva multidões de mulheres para as academias achando que o Pilates lhes salvará da iminente velhice. Existe também a teoria de que Pilatos tenha reencarnado em Solange Frazão.
Jesus Cristo
Às devidas explicações: Por acaso você não conhece a história de Jesus? Desculpe-me, mas não serei eu a lhe contá-la.
Dando asas: Jesus podia ser filho de Deus em uma virgem, mas nem por isso ele voava! Mas, se ele voasse, tenho plena certeza disso, na hora da circuncisão ele voaria rapidamente para o infinito, e além. Mas, caso assim não fosse, creio que em vez de andar sobre as águas, se ele tivesse voado com aquela rede cheia de peixes nas costas, o feito seria mais comentado. Você já notou como a última ceia foi uma completa bagunça? Então, Jesus voaria por sobre a mesa, chutando os copos de vinho, e mandando todos calarem as suas respectivas bocas. Sabe-se das hipóteses de seu caso com Maria Madalena, então, pensando assim, vemos que ele talvez poderia ter pego Maria e voado com ela até Roma, e lá aberto uma pousada, ou uma filial do Restaurante da Multiplicação, ou aberto uma vinícola, a qual tinha como base a água, já que ele podia transformar água em vinho. Quando estava no jardim do Getsêmani, ele não ficaria aqui a prantear e dizendo ao vento: "Afasta de mim esse cálice", na verdade, se ele voasse, ele iria até o céu, e lá tirar umas satisfações com seu pai. E se seus argumentos não fossem suficientes para assim ele escapar da morte prevista, ele poderia, então, durante a Via Crúcis, alçar vôo e aterrissar, por exemplo, no Havaí, dando origem à igrejas de surfistas. Mas se ele estivesse com preguiça de fazer isso na Via Crúcis, ele ia ter que morrer, afinal, tentar voar estando pregado numa cruz, não ia dar certo. Depois morreria, e três dias após, ele ressucitaria, iria encontrar-se com seus amiguinhos, e depois ele seria assunto aos céus. Pronto acabou.
P.S.: se Jesus foi assunto, então ele voava? Quer dizer então, que ele voava e nunca fez nada de útil? Agora sim é que me perdi de vez.
segunda-feira, 7 de julho de 2008
Sobre a Indefectibilidade da Fofoca
A família é como um partido. Existem competições, intrigas, subdivisões, e influências. Nesse partido, quase comunista, as influências, por parte dos outros membros, chamados de "parentes", podem decidir como ficará a imagem de um outro membro, e como conseqüência dessas influências, o membro difamado acaba sendo motivo de desgosto, quiçá chacota, mesmo por parte de outros membros que porventura não possuam nada contra o difamado, mas graças à pressão dos pares, também chamada de psicologia das turbas, exercida pelo difamador principal, passa também a difamar, iniciando assim, um ciclo, é o eterno retorno de Nietzsche se mostrando presente até nas famílias. Em suma, a família, ao contrário do que diria o senso comum, não é um órgão enternecedor, e sim, um órgão "fofocador". E essa fofoca, quando oriunda do âmbito familiar, pode acabar com uma pessoa, o difamado, mas pode também dar ao difamado um ar mítico, legendário, e é exatamente isso que aconteceu com a mulher da história que vou lhes contar a seguir. O que será descrito a seguir é fato, mas, talvez uma parte seja só invenção da fofoca, se for, não sei, e por decoro, ou simplesmente medo, sinto-me na obrigação de mudar os nomes reais dos personagens. A história que se segue, faz parte da história da minha família, portanto, é mais do que uma história verídica, é uma fofoca verossimilhante.
Regina trabalhava em um banco, mas lhes garanto que essa informação não possui utilidade alguma. Nesses tempos de labuta, Regina conhece um homem chamado Bento. Bento era casado e Regina era solteira, e a atração, logo de cara, foi mútua. Nessa situação, Regina era o que chamamos de concubina, amásia, ou se preferir no termo mais corrente, amante. Esse estado de concubinato é fortemente condenado pela sociedade ocidental, portanto, para se encaixarem nos padrões morais, Bento decide desquitar-se de sua esposa, para ceder aos caprichos de Regina. Regina é agora, o que de quando em quando pode-se ouvir em novelas televisivas, uma destruidora de lares.
Tendo já explanado sobre a origem de seu matrimônio, passarei agora a analisar fatos recentes de sua vida, a partir das informações a que tenho acesso, por conta da família.
Regina é agora, oficialmente, casada com Bento. Tem dois filhos, e um deles já lhe deu uma neta. Regina já fez viagens à Europa, principalmente à Itália, afinal, minha família possui raízes ítalas.
Como qualquer mulher de sua idade, entre os quarenta e os cinqüenta anos, que é dada aos vis prazeres do paladar para tentar compensar um vazio emocional, Regina vive constantemente no que podemos chamar de "luta contra a balança". Sua saúde, como ela mesma diz, já não é a mesma dos tempos em que era uma moça, digamos, núbil. Pressão alta, problemas de visão, diabetes e a iminente menopausa, anunciam o que ela pretendia esconder, a idade.
Além dos problemas supracitados, problemas esses que dizem respeito só à ela, Regina possui outro problema, já esse problema diz respeito mais aos outros do que à somente ela, ela transpira excessivamente. Não é raro, em reuniões de família, vê-la com sua toalhinha a se secar incessantemente. Antes o incoveniente fosse esse. Nós, brasileiros, fomos acostumados a cumprimentar-se com beijinhos e abraços, esse costume não é só de brasileiros, e sim de qualquer povo de língua latina, povo de sangue quente, e como parte desse povo, Regina também é dada a esses costumes comportamentais, e como você pode imaginar, uma fusão entre o costume dos beijinhos e uma pessoa que transpira aos cântaros, não pode ser coisa das melhores. Regina se dirige às pessoas, toda cheia de afeto para lhes cumprimentar, porém, o seu suor faz por exterminar o afeto que poderia existir na pessoa que recebe o cumprimento, essa pessoa que recebe o cumprimento de Regina, acaba por ter em seu rosto o suor de Regina, ato que em toda a sua complexidade é totalmente descortês.
Regina fala de maneira muito curiosa, seus hábitos ao falar se assemelham muito ao de apresentadoras de programas televisivos que se destinam a esquadrinhar a vida de pessoas de certa maneira influentes, creio eu que, pessoas que são mostradas nesses programas não são influentes por algo pelo qual devam receber uma medalha de mérito, mas sim, por um completo demérito, o demérito de reduzir a cultura à muito menos do que um simples átomo. Sua maneira de falar, a leva a ser chamada por alguns de "pseudo-socialite".
No entanto, são por essas, e por outras causas, que Regina é, desde já, um ser mitológico em minha família. A notoriedade que Regina ganhou, não foi por vontade própria, mas deve-se às supracitadas causas e efeitos da fofoca no meio familiar.
Regina trabalhava em um banco, mas lhes garanto que essa informação não possui utilidade alguma. Nesses tempos de labuta, Regina conhece um homem chamado Bento. Bento era casado e Regina era solteira, e a atração, logo de cara, foi mútua. Nessa situação, Regina era o que chamamos de concubina, amásia, ou se preferir no termo mais corrente, amante. Esse estado de concubinato é fortemente condenado pela sociedade ocidental, portanto, para se encaixarem nos padrões morais, Bento decide desquitar-se de sua esposa, para ceder aos caprichos de Regina. Regina é agora, o que de quando em quando pode-se ouvir em novelas televisivas, uma destruidora de lares.
Tendo já explanado sobre a origem de seu matrimônio, passarei agora a analisar fatos recentes de sua vida, a partir das informações a que tenho acesso, por conta da família.
Regina é agora, oficialmente, casada com Bento. Tem dois filhos, e um deles já lhe deu uma neta. Regina já fez viagens à Europa, principalmente à Itália, afinal, minha família possui raízes ítalas.
Como qualquer mulher de sua idade, entre os quarenta e os cinqüenta anos, que é dada aos vis prazeres do paladar para tentar compensar um vazio emocional, Regina vive constantemente no que podemos chamar de "luta contra a balança". Sua saúde, como ela mesma diz, já não é a mesma dos tempos em que era uma moça, digamos, núbil. Pressão alta, problemas de visão, diabetes e a iminente menopausa, anunciam o que ela pretendia esconder, a idade.
Além dos problemas supracitados, problemas esses que dizem respeito só à ela, Regina possui outro problema, já esse problema diz respeito mais aos outros do que à somente ela, ela transpira excessivamente. Não é raro, em reuniões de família, vê-la com sua toalhinha a se secar incessantemente. Antes o incoveniente fosse esse. Nós, brasileiros, fomos acostumados a cumprimentar-se com beijinhos e abraços, esse costume não é só de brasileiros, e sim de qualquer povo de língua latina, povo de sangue quente, e como parte desse povo, Regina também é dada a esses costumes comportamentais, e como você pode imaginar, uma fusão entre o costume dos beijinhos e uma pessoa que transpira aos cântaros, não pode ser coisa das melhores. Regina se dirige às pessoas, toda cheia de afeto para lhes cumprimentar, porém, o seu suor faz por exterminar o afeto que poderia existir na pessoa que recebe o cumprimento, essa pessoa que recebe o cumprimento de Regina, acaba por ter em seu rosto o suor de Regina, ato que em toda a sua complexidade é totalmente descortês.
Regina fala de maneira muito curiosa, seus hábitos ao falar se assemelham muito ao de apresentadoras de programas televisivos que se destinam a esquadrinhar a vida de pessoas de certa maneira influentes, creio eu que, pessoas que são mostradas nesses programas não são influentes por algo pelo qual devam receber uma medalha de mérito, mas sim, por um completo demérito, o demérito de reduzir a cultura à muito menos do que um simples átomo. Sua maneira de falar, a leva a ser chamada por alguns de "pseudo-socialite".
No entanto, são por essas, e por outras causas, que Regina é, desde já, um ser mitológico em minha família. A notoriedade que Regina ganhou, não foi por vontade própria, mas deve-se às supracitadas causas e efeitos da fofoca no meio familiar.
sexta-feira, 4 de julho de 2008
La Vie en Rose
Evelise tenta levar uma vida normal, a despeito de suas qualidades, ou problemas, afinal, a linha entre o que é considerado como qualidade e o que pode se tornar um grande problema, é tenuíssima.
Desde pequena Evelise nunca conseguiu levar uma vida normal, dentro do que a sociedade chama de normal. Aos cinco anos de idade, ela descobriu o seu dom: ela vê o passado e o futuro de uma pessoa somente pelo modo como essa pessoa se abaixa para ajuntar algo do chão. Esse dom se tornou um grande problema na vida de Evelise, que com apenas sete anos era obrigada a encarar a vida não muito respeitável de seu pai, afinal ele vivia deixando algo cair. Ninguém conseguia esconder nada da pequena Evelise, e por conta disso, ela teve que viver em um orfanato.
Evelise nunca gostou de ser tratada como "a pobrezinha" por ter sido criada em um orfanato, por isso, pularemos essa fase de sua vida.
Após sua saída do orfanato, Evelise, já com dezoito anos, foi tentar a vida, não como puta, seguindo a linha de suas companheiras de situação-órfã. Evelise virou garçonete de um pequeno bistrô, em uma pequena cidade na França, tão pequena, que nem nome tinha, era conhecida como "A Cidade".
Evelise gostava de suas companheiras no Le Petit Verre, tinha elas como irmãs. Vivienne, a caixa ninfomaníaca; Monica, a outra garçonete, e também empalhadora de animais, e até de pessoas, quando lhe pediam; Catherine, a cozinheira lésbica; e Bovary, a dona do bistrô, e aviadora.
Evelise seguia com sua vida, tranqüilamente, até porque, depois de treze anos, ela certamente já se acostumou com a idéia de seu dom. Mas, tudo muda, quando um homem, aparentemente perdido, chega ao bistrô para pedir informações, e acontece que o homem deixa um molho de chaves cair no chão. E ele se abaixa para ajuntar as chaves. E Evelise vê. Era como se tudo estivesse sendo passado em slow motion e em branco e preto, o passado daquele homem, e seu futuro. Futuro talvez doloroso. Dizem que o amor é cego, porém, para Evelise, o amor além de cego, pode mudar o futuro. E o que ela sentiu por aquele homem de quatro no chão, catando as chaves, era amor, amor à primeira vista.
O bistrô estava sem nenhum cliente. Evelise estava usando um avental de quadriculado branco e vermelho. Evelise estava segurando um pano e um copo. O homem estava de pé olhando para Evelise. O homem estava tentando colocar as chaves no bolso do casaco, sem tirar os olhos de Evelise. Tudo isso ocorreu em poucos segundos, até que ambos notaram que estavam se olhando fixamente, e desviaram o olhar. Mas, como sempre, alguém tem que ceder.
- Você gostaria de alguma ajuda? - Evelise gaguejou um pouco no "ju" de "ajuda".
- Ah... Sim, quis dizer, talvez, ah... Não sei se... É que essas chaves são...
- Você não veio aqui por causa das chaves, certo?
- Bem, não vim. É que... - O homem esfregava as suas mãos enquanto falava, típico sinal de nervosismo. - Eu vim da Irlanda, e estou um tanto quanto perdido aqui na França, e eu queria saber aonde fica o Le Petit Verre, um amigo me indicou esse lugar, ele veio aqui nessa cidade, ano passado.
- Por acaso, você não viu a placa lá fora? - Evelise aponta para a placa acima da janela do bistrô.
- Não, e olhe só! Não é que aqui é o famoso Le Petit Verre?
- E é! E meu nome é Evelise.
- Eu queria saber, mas o nervosismo me impedia. E o meu é Colin.
- A minha casa fica à duas quadras daqui e meu expediente acaba em duas horas.
- Ah... Bem que me falaram sobre como os habitantes daqui são hospitaleiros...
- Colin, se importaria de dar uma volta pela cidade, em duas horas?
- Na verdade, eu poderia passar duas horas aqui sentado, sem problemas.
Evelise apresentou as suas companheiras, mas nas apresentações ela deu menos ênfase à Vivienne, já que ela era ninfomaníaca, e Colin já era dela, de Evelise. Monica, mais tarde diria, que logo viu que Colin era boa pessoa. Catherine, disse que mesmo assim preferia Vivienne. E Bovary disse que era melhor não falar nada, afinal era casada, e cidade pequena, sabe como é.
Evelise disse para Colin que tudo que ele consumisse naquelas duas horas seria cortesia da casa. Bovary disse para Colin que a cortesia não era da casa, e sim de Evelise. Vivienne disse para Colin que se ele quisesse, ela poderia oferecer outra cortesia. Evelise disse para Vivienne que Colin era gay. Vivienne bufou. Bovary deu um sorriso. Catherine nada ouviu. Colin riu. Evelise riu. E Colin nada pediu, com medo de Bovary.
Duas horas se passaram, Colin se despediu das mulheres famintas do bistrô. Enquanto Colin saía pela porta com Evelise...
Vivienne: Colin, qual é o seu número?
Evelise: Sete-quatro-nove, dígito seis.
Vivienne: Foda-se, Evelise.
Evelise: Quem sabe...
Como A Cidade era uma cidade pequena, as pessoas que viam Colin andando ao lado de Evelise, já comentavam sobre coisas como: seqüestro, gravidez, hepatite e fuga de galináceos. Evelise não se importava, ela sabia mais deles do que eles dela.
Obs.: La Vie en Rose contou com a colaboração de Emelí Mara Pavanello, durante o seu feitio.
Desde pequena Evelise nunca conseguiu levar uma vida normal, dentro do que a sociedade chama de normal. Aos cinco anos de idade, ela descobriu o seu dom: ela vê o passado e o futuro de uma pessoa somente pelo modo como essa pessoa se abaixa para ajuntar algo do chão. Esse dom se tornou um grande problema na vida de Evelise, que com apenas sete anos era obrigada a encarar a vida não muito respeitável de seu pai, afinal ele vivia deixando algo cair. Ninguém conseguia esconder nada da pequena Evelise, e por conta disso, ela teve que viver em um orfanato.
Evelise nunca gostou de ser tratada como "a pobrezinha" por ter sido criada em um orfanato, por isso, pularemos essa fase de sua vida.
Após sua saída do orfanato, Evelise, já com dezoito anos, foi tentar a vida, não como puta, seguindo a linha de suas companheiras de situação-órfã. Evelise virou garçonete de um pequeno bistrô, em uma pequena cidade na França, tão pequena, que nem nome tinha, era conhecida como "A Cidade".
Evelise gostava de suas companheiras no Le Petit Verre, tinha elas como irmãs. Vivienne, a caixa ninfomaníaca; Monica, a outra garçonete, e também empalhadora de animais, e até de pessoas, quando lhe pediam; Catherine, a cozinheira lésbica; e Bovary, a dona do bistrô, e aviadora.
Evelise seguia com sua vida, tranqüilamente, até porque, depois de treze anos, ela certamente já se acostumou com a idéia de seu dom. Mas, tudo muda, quando um homem, aparentemente perdido, chega ao bistrô para pedir informações, e acontece que o homem deixa um molho de chaves cair no chão. E ele se abaixa para ajuntar as chaves. E Evelise vê. Era como se tudo estivesse sendo passado em slow motion e em branco e preto, o passado daquele homem, e seu futuro. Futuro talvez doloroso. Dizem que o amor é cego, porém, para Evelise, o amor além de cego, pode mudar o futuro. E o que ela sentiu por aquele homem de quatro no chão, catando as chaves, era amor, amor à primeira vista.
O bistrô estava sem nenhum cliente. Evelise estava usando um avental de quadriculado branco e vermelho. Evelise estava segurando um pano e um copo. O homem estava de pé olhando para Evelise. O homem estava tentando colocar as chaves no bolso do casaco, sem tirar os olhos de Evelise. Tudo isso ocorreu em poucos segundos, até que ambos notaram que estavam se olhando fixamente, e desviaram o olhar. Mas, como sempre, alguém tem que ceder.
- Você gostaria de alguma ajuda? - Evelise gaguejou um pouco no "ju" de "ajuda".
- Ah... Sim, quis dizer, talvez, ah... Não sei se... É que essas chaves são...
- Você não veio aqui por causa das chaves, certo?
- Bem, não vim. É que... - O homem esfregava as suas mãos enquanto falava, típico sinal de nervosismo. - Eu vim da Irlanda, e estou um tanto quanto perdido aqui na França, e eu queria saber aonde fica o Le Petit Verre, um amigo me indicou esse lugar, ele veio aqui nessa cidade, ano passado.
- Por acaso, você não viu a placa lá fora? - Evelise aponta para a placa acima da janela do bistrô.
- Não, e olhe só! Não é que aqui é o famoso Le Petit Verre?
- E é! E meu nome é Evelise.
- Eu queria saber, mas o nervosismo me impedia. E o meu é Colin.
- A minha casa fica à duas quadras daqui e meu expediente acaba em duas horas.
- Ah... Bem que me falaram sobre como os habitantes daqui são hospitaleiros...
- Colin, se importaria de dar uma volta pela cidade, em duas horas?
- Na verdade, eu poderia passar duas horas aqui sentado, sem problemas.
Evelise apresentou as suas companheiras, mas nas apresentações ela deu menos ênfase à Vivienne, já que ela era ninfomaníaca, e Colin já era dela, de Evelise. Monica, mais tarde diria, que logo viu que Colin era boa pessoa. Catherine, disse que mesmo assim preferia Vivienne. E Bovary disse que era melhor não falar nada, afinal era casada, e cidade pequena, sabe como é.
Evelise disse para Colin que tudo que ele consumisse naquelas duas horas seria cortesia da casa. Bovary disse para Colin que a cortesia não era da casa, e sim de Evelise. Vivienne disse para Colin que se ele quisesse, ela poderia oferecer outra cortesia. Evelise disse para Vivienne que Colin era gay. Vivienne bufou. Bovary deu um sorriso. Catherine nada ouviu. Colin riu. Evelise riu. E Colin nada pediu, com medo de Bovary.
Duas horas se passaram, Colin se despediu das mulheres famintas do bistrô. Enquanto Colin saía pela porta com Evelise...
Vivienne: Colin, qual é o seu número?
Evelise: Sete-quatro-nove, dígito seis.
Vivienne: Foda-se, Evelise.
Evelise: Quem sabe...
Como A Cidade era uma cidade pequena, as pessoas que viam Colin andando ao lado de Evelise, já comentavam sobre coisas como: seqüestro, gravidez, hepatite e fuga de galináceos. Evelise não se importava, ela sabia mais deles do que eles dela.
Obs.: La Vie en Rose contou com a colaboração de Emelí Mara Pavanello, durante o seu feitio.
quarta-feira, 25 de junho de 2008
Pequenos (porém úteis [ou inúteis, tudo depende de como você vê as coisas]) Ensaios sobre a Morte
A tênue linha que separa a vida, da morte (do sono eterno, do derradeiro descanso, da eterna paz, chame como quiser) sempre me fascinou. Imaginar que agora estou aqui, escrevendo, mas depois, ao colocar o pé na rua eu posso ser atropelado, enfartar ao atravessar a rua; é incrível! Não que ache incrível a idéia de morrer, mas o que me impressiona é a fragilidade da vida: algo tão forte, imponente, e - desculpe-me pelo trocadilho - cheio de vida; pode simplesmente se esvair caso você resolva nadar em um lago cheio de tubarões enquanto sua perna sangra incessantemente.
Há pouco tempo, um conhecido meu me contou a seguinte história: noivo e noiva acabam de se casar no cartório, e vão com toda a família comemorar em um restaurante. Foram com cinco carros. No caminho do restaurante, um caminhão cheio de gasolina vai ultrapassar outro caminhão na estrada, e acaba colidindo com o primeiro dos cinco carros, e assim, os outros quatro acabam colidindo-se sucessivamente. Morreram quinze pessoas, todas da mesma família, o único sobrevivente foi o pai da noiva. Após ouvir essa bela e acalentadora história, eu disse para a pessoa que me contou a história: "Pense positivo: pelo menos foi quase toda a família, assim o velho não precisa gastar muito e ocupar muito espaço mandando fazer tumbas individuais, ele que faça um só mausoléu e lá coloque todo mundo!" Logicamente, meu amigo me olhou com uma cara estranha depois que eu falei isso, e assim o fizeram as outras pessoas presentes. Porém, creio eu, que casos como esse são melhores, afinal, se uma família inteira morre, quem vai se ocupar chorando, certo? Isso não é pessimismo, somente pragmatismo! E olha que o pessimismo é uma de minhas qualidades mais atraentes...
"Viva todo dia como se fosse seu último dia"; "Viva hoje como se fosse morrer amanhã", quantos já não ouviram tais provérbios? Mas, pelo menos para mim, as coisas não funcionam assim. Se eu fosse viver todos os dias pensando que no outro eu morreria, eu certamente ficaria em casa, sentado no sofá da sala, de pijamas, encarando a parede branca, chorando ou tentando ler Ulisses, e isso realmente não seria um bom dia. Creio que ninguém sairia pela rua sorrindo e saltitando enquanto pensa: "La-di-da, amanhã vou morrer! La-di-da, minhas dívidas vou pagar!"
Para suprir a falta de algo (ou para eliminar um certo medo), as religiões criam suas teorias para o após-morte: paraíso, reencarnação, inferno, encontro com alienígenas, entre outras. Acho válido isso, afinal ninguém gosta de encarar o fato de que algum dia irá virar adubo, fará companhia para vermes subterrâneos. Mas a questão é: o que é melhor, adorar o Senhor Todo Poderoso para o resto da eternidade e escrever pra sempre o nome d'Ele com letra maiúscula; reencarnar em algum país sub-subdesenvolvido na África; passar eterno calor no inferno e ter que suportar as péssimas piadas do príncipe das trevas; viver alegre e contente com seres verdes, que possuem antenas e que utilizarão seus órgãos para experiências; ou simplesmente ser enfiado num caixão e lá poder deteriorar livremente sem ninguém perturbando?
Coco Channel e Henry Ford foram dois dos principais entusiastas do preto, até porque eles certamente sabiam da propriedade chic que o preto provoca nas pessoas e objetos. Agora me explique: quem decidiu que a cor do luto, tem que ser o preto? Acho injusto isso, deveriam ter feito uma votação pra saber a opinião das pessoas sobre isso. Eu certamente votaria no fuchsia, visto que essa é uma cor de tonalidade indefinida, com propósito indefinido e é uma cor mui feia; seria bom, afinal não é todo dia que se sai em luto, e quando se saísse de luto (todos trajando fuchsia) haveria a correta representação de algo ruim e desagradável, que é o luto.
No livro As Intermitências da Morte, José Saramago escreve sobre um dia, no qual ninguém morre. Acho que se ninguém morresse por somente um dia, não seria muito preocupante, mas eu fico imaginando como seria se, desde o início de tudo, ninguém tivesse morrido. Certamente, estaríamos todos morando em cubículos e nos apertando para caber em um só planeta. Mas isso não me preocupa, o que me preocupa é: se ninguém tivesse morrido até hoje, haveria lugar pra jogar o lixo?
"No dia seguinte ele acordou morto." Expressão geralmente usada na explicação da morte de uma pessoa que morreu enquanto dormia. Desde que me conheço por gente eu ouço tal expressão, porém - e essa é para mim uma das mais intrigantes questões da humanidade - como pode alguém "acordar morto"? Essa pergunta continua sem explicação até hoje, após anos de uso. Mas quem sabe no dia em que eu acordar morto alguém encontre a explicação.
Na Pré-história, se morria por conta do ataque de um tigre dente-de-sabre. Na Idade Antiga, se morria pelos deuses. Na Idade Média, se morria pela peste negra. Na Idade Moderna, se morria dentro de fábricas na Inglaterra. No início da Idade Contemporânea, se morria em uma explosão atômica. Nos anos noventa, se morria por overdose de heroína. Hoje em dia, se morre por overdose de impostos.
O que poderia levar alguém a, depois de anos cursando medicina, tornar-se um daqueles doutores que fazem autópsias (ou dentista, dá no mesmo)?
Há pouco tempo, um conhecido meu me contou a seguinte história: noivo e noiva acabam de se casar no cartório, e vão com toda a família comemorar em um restaurante. Foram com cinco carros. No caminho do restaurante, um caminhão cheio de gasolina vai ultrapassar outro caminhão na estrada, e acaba colidindo com o primeiro dos cinco carros, e assim, os outros quatro acabam colidindo-se sucessivamente. Morreram quinze pessoas, todas da mesma família, o único sobrevivente foi o pai da noiva. Após ouvir essa bela e acalentadora história, eu disse para a pessoa que me contou a história: "Pense positivo: pelo menos foi quase toda a família, assim o velho não precisa gastar muito e ocupar muito espaço mandando fazer tumbas individuais, ele que faça um só mausoléu e lá coloque todo mundo!" Logicamente, meu amigo me olhou com uma cara estranha depois que eu falei isso, e assim o fizeram as outras pessoas presentes. Porém, creio eu, que casos como esse são melhores, afinal, se uma família inteira morre, quem vai se ocupar chorando, certo? Isso não é pessimismo, somente pragmatismo! E olha que o pessimismo é uma de minhas qualidades mais atraentes...
"Viva todo dia como se fosse seu último dia"; "Viva hoje como se fosse morrer amanhã", quantos já não ouviram tais provérbios? Mas, pelo menos para mim, as coisas não funcionam assim. Se eu fosse viver todos os dias pensando que no outro eu morreria, eu certamente ficaria em casa, sentado no sofá da sala, de pijamas, encarando a parede branca, chorando ou tentando ler Ulisses, e isso realmente não seria um bom dia. Creio que ninguém sairia pela rua sorrindo e saltitando enquanto pensa: "La-di-da, amanhã vou morrer! La-di-da, minhas dívidas vou pagar!"
Para suprir a falta de algo (ou para eliminar um certo medo), as religiões criam suas teorias para o após-morte: paraíso, reencarnação, inferno, encontro com alienígenas, entre outras. Acho válido isso, afinal ninguém gosta de encarar o fato de que algum dia irá virar adubo, fará companhia para vermes subterrâneos. Mas a questão é: o que é melhor, adorar o Senhor Todo Poderoso para o resto da eternidade e escrever pra sempre o nome d'Ele com letra maiúscula; reencarnar em algum país sub-subdesenvolvido na África; passar eterno calor no inferno e ter que suportar as péssimas piadas do príncipe das trevas; viver alegre e contente com seres verdes, que possuem antenas e que utilizarão seus órgãos para experiências; ou simplesmente ser enfiado num caixão e lá poder deteriorar livremente sem ninguém perturbando?
Coco Channel e Henry Ford foram dois dos principais entusiastas do preto, até porque eles certamente sabiam da propriedade chic que o preto provoca nas pessoas e objetos. Agora me explique: quem decidiu que a cor do luto, tem que ser o preto? Acho injusto isso, deveriam ter feito uma votação pra saber a opinião das pessoas sobre isso. Eu certamente votaria no fuchsia, visto que essa é uma cor de tonalidade indefinida, com propósito indefinido e é uma cor mui feia; seria bom, afinal não é todo dia que se sai em luto, e quando se saísse de luto (todos trajando fuchsia) haveria a correta representação de algo ruim e desagradável, que é o luto.
No livro As Intermitências da Morte, José Saramago escreve sobre um dia, no qual ninguém morre. Acho que se ninguém morresse por somente um dia, não seria muito preocupante, mas eu fico imaginando como seria se, desde o início de tudo, ninguém tivesse morrido. Certamente, estaríamos todos morando em cubículos e nos apertando para caber em um só planeta. Mas isso não me preocupa, o que me preocupa é: se ninguém tivesse morrido até hoje, haveria lugar pra jogar o lixo?
"No dia seguinte ele acordou morto." Expressão geralmente usada na explicação da morte de uma pessoa que morreu enquanto dormia. Desde que me conheço por gente eu ouço tal expressão, porém - e essa é para mim uma das mais intrigantes questões da humanidade - como pode alguém "acordar morto"? Essa pergunta continua sem explicação até hoje, após anos de uso. Mas quem sabe no dia em que eu acordar morto alguém encontre a explicação.
Na Pré-história, se morria por conta do ataque de um tigre dente-de-sabre. Na Idade Antiga, se morria pelos deuses. Na Idade Média, se morria pela peste negra. Na Idade Moderna, se morria dentro de fábricas na Inglaterra. No início da Idade Contemporânea, se morria em uma explosão atômica. Nos anos noventa, se morria por overdose de heroína. Hoje em dia, se morre por overdose de impostos.
O que poderia levar alguém a, depois de anos cursando medicina, tornar-se um daqueles doutores que fazem autópsias (ou dentista, dá no mesmo)?
quinta-feira, 12 de junho de 2008
Logo Eu?
Lei de Murphy. Eis uma lei - uma das poucas - que é cumprida, não por seres humanos, e sim por um garoto malcriado chamado Destino. Quando tudo parece estar bom, quando você pensa "Ah!, agora sim vou ficar bem, calmo e tranqüilo.", tenha certeza, meu caro, não vai melhorar, você não vai ficar tranqüilo. E não, não me desculpe pela franqueza, sou realista, e por conseqüência, também sou pessimista.
Já cansei de pessoas que exemplificam a lei de Murphy, como "a fila do lado sempre anda mais rápido, e quando você muda pra ela, a outra que começa a andar mais rápido". Portanto, a partir de agora, quando alguém me questionar sobre a lei de Murphy, usarei o seguinte facto:
Era um dia normal, tudo que podia acontecer de errado para Ele havia acontecido - dia estranho, seria se algo de realmente bom acontecesse.
Ele sentou-se ao computador, mas, logo viu o horário e lembrou-se que tinha que sair. Foi até o armário, onde levou um certo tempo para achar a roupa que vestiria. Trocou de roupa rapidamente (gostei de como soou isso "roupa rapidamente". Experimente falar isso rápida e repetidamente), foi ao banheiro, escovou os dentes, voltou ao quarto e viu que era hora.
Como sempre, estava um tanto quanto atrasado. Foi juntado as coisas e jogando-as desajeitadamente na mala, saiu do quarto, foi à sala, catou a chave em meio a algumas contas a pagar, trancou a porta (também desajeitadamente. Tudo que Ele faz pode vir acompanhado do advérbio supracitado).
Saiu em direção à rua, mais especificamente, ao ponto do ônibus. Por alguns instantes aguardou a condução pública. Ao avistar o grande automóvel de cor chamativa, levantou-se e ficou em pé, a fim de o motorista do bonde, ver e parar para Ele poder entrar.
O grande automóvel parou (não, ele não parou. Ao dizer "parou", eu quis exprimir a seguinte idéia: "o bonde foi freando, de modo que sua velocidade foi diminuindo até chegar a uma velocidade na qual qualquer ser humano seria capaz de alcançá-lo, menos Ele." Vale lembrar, que o automóvel não parou, continuou em movimento enquanto Ele tentava colocar os pés, desajeitadamente, nos degraus.) Ele entrou, desajeitadamente, no ônibus. Ao olhar para o rosto do condutor, Ele notou um certo sadismo presente naqueles olhos proletários.
Ele andou desajeitadamente pelo ônibus, até achar um assento que mais lhe agradasse. Ele escolheu aquele lugar, porquê calculou meticulosamente (ou, se preferir, desajeitadamente) que ninguém se sentaria no assento da frente, ou no de trás. Porém, como tudo na vida de nosso desajeitado-mor, o cálculo deu errado, pois logo depois que entrou, uma mulher (mulher essa que, enquanto eu falava com Ele para poder transcrever-lhes essa magnífica parábola, Ele se referia à ela como "a filha da puta com gripe", e também "a desgraçada") sentou-se no assento que havia atrás d'Ele. Ele sentiu-se um pouco incomodado com isso, tendo em vista o facto de que Ele apresentava algumas neuroses relativas à pessoas, à limpeza, à organização, logo você verá o porquê desse meu comentário a respeito de suas psicopatias em potencial.
A mulher estava com gripe, ou qualquer uma dessas doenças que assolam (ao dizer "doenças que assolam, quis dizer algo como "ao sentir a primeira dor de cabeça e antes mesmo de espirrar ou tossir, a pessoa liga ao seu emprego dizendo que não pode ir devido à uma fortíssima gripe") a população no inverno. E Ele estava com uma blusa que tem a gola um pouco baixa, logo, sua nuca estava um pouco à mostra.
A mulher começa a tossir. Tossir. Tossir. Tossir. Tossir. Só que, a mulher não tossia como qualquer outra mulher normal e decente na face da Terra. A mulher tosse sem tampar a boca com a sua mão.
Ele sente um certo "ventinho" em sua nuca. Ele sente algo "molhadinho" em sua nuca. À essa altura, Ele está de uma cor, com a qual não conseguia-se distinguir entre ele e o assento. Ele pensa em olhar para trás, mas tem medo que ela tussa na exata hora em que Ele olharia para trás. Ele já não consegue mais se mexer, porquê imagina aquelas bactérias oriundas da mucosa bucal da indistinta mulher, entrando em seus poros, e assim, pouco a pouco, infiltrando em seu organismo.
Como se não bastasse, a mulher tosse de novo, e novamente Ele sente o "ventinho" e o "molhadinho". Ele estava nesse momento, impassível, por exemplo, se uma bomba nuclear fosse detonada em sua frente, ele continuaria ali, parado, com aquela expressão perplexa e sentindo aquelas bactérias e vírus caminhando por sua nuca como se fossem tarântulas ansiosas por penetrarem suas perfeitas células.
A mulher tosse novamente, e novamente, e novamente, até que, a raiva d'Ele foi crescendo, num misto de ira e transtorno obssessivo compulsivo. Ele vira-se para a mulher detrás, fulmina-a com olhos cheios de fogo e neurose, olhos que nesse momento seriam capazes de congelar a própria Medusa. Ele diz para a mulher:
- Será que não dá pra tossir com a mão na frente, querida?
E a mulher, não notando, ou fingindo que não notava a fúria nos olhos d'Ele, respondeu:
- Ai, me desculpa, é que eu tô gripada.
"Eu notei que tu tá gripada, sua puta anti-higiênica!" pensou Ele.
- Então, dá próxima vez, coloca a mão na frente, por favor. - por incrível que pareça, Ele ainda tentou disfarçar a cólera com alguma polidez que ainda lhe sobrava.
Ele virou-se, vagarosa e desajeitadamente, no seu assento. Mesmo depois de ter falado para a mulher sobre o facto da mão na boca, Ele esperava que a mulher tossisse de volta, e fazendo assim, que a colônia bacteriana em sua nuca aumentasse.
Porém, a mulher, como que tomada por uma súbita solidariedade ("súbita solidariedade", também é engraçado falar isso), muda-se de lugar, e vai para o fundo da condução pública.
Ele olha para trás, mas não acredita. Olha novamente e nota que é verdade: a vaca gripada foi embora. Ele sorri, desajeitadamente.
O trajeto torna-se tranqüilo de repente, e Ele relaxa (com "Ele relaxa", entenda-se "Ele pega seu lenço e limpa a nuca infectada e depois joga o lenço pela janela").
Estava tudo bem. Estava tudo bem. Estava tudo bem. avatsE tudo bem.
Lógicamente, tudo não continua bem, mas prossegue seu ritmo desajeitado.
Ao sair do ônibus, Ele respira o ar poluído da cidade, ah!, aquelas doces moléculas de carbono entravam suavemente em suas narinas.
Quando vê o bonde deixar o ponto, ele acena para a mulher, dizendo algo do gênero de: "Tomara que você vá hoje ao médico, descubra que tem tuberculose em um nível avançado."
Ele suspira aliviado, olha para os lados, e continua andando pela rua. Depois de andar uns cinco metros, ele pára passa a mão em suas costas, olha para cima, olha para baixo, olha para trás. Passa de novo a mão nas costas. "Cadê a merda da minha mala?" Pensa o desajeitado.
Já cansei de pessoas que exemplificam a lei de Murphy, como "a fila do lado sempre anda mais rápido, e quando você muda pra ela, a outra que começa a andar mais rápido". Portanto, a partir de agora, quando alguém me questionar sobre a lei de Murphy, usarei o seguinte facto:
Era um dia normal, tudo que podia acontecer de errado para Ele havia acontecido - dia estranho, seria se algo de realmente bom acontecesse.
Ele sentou-se ao computador, mas, logo viu o horário e lembrou-se que tinha que sair. Foi até o armário, onde levou um certo tempo para achar a roupa que vestiria. Trocou de roupa rapidamente (gostei de como soou isso "roupa rapidamente". Experimente falar isso rápida e repetidamente), foi ao banheiro, escovou os dentes, voltou ao quarto e viu que era hora.
Como sempre, estava um tanto quanto atrasado. Foi juntado as coisas e jogando-as desajeitadamente na mala, saiu do quarto, foi à sala, catou a chave em meio a algumas contas a pagar, trancou a porta (também desajeitadamente. Tudo que Ele faz pode vir acompanhado do advérbio supracitado).
Saiu em direção à rua, mais especificamente, ao ponto do ônibus. Por alguns instantes aguardou a condução pública. Ao avistar o grande automóvel de cor chamativa, levantou-se e ficou em pé, a fim de o motorista do bonde, ver e parar para Ele poder entrar.
O grande automóvel parou (não, ele não parou. Ao dizer "parou", eu quis exprimir a seguinte idéia: "o bonde foi freando, de modo que sua velocidade foi diminuindo até chegar a uma velocidade na qual qualquer ser humano seria capaz de alcançá-lo, menos Ele." Vale lembrar, que o automóvel não parou, continuou em movimento enquanto Ele tentava colocar os pés, desajeitadamente, nos degraus.) Ele entrou, desajeitadamente, no ônibus. Ao olhar para o rosto do condutor, Ele notou um certo sadismo presente naqueles olhos proletários.
Ele andou desajeitadamente pelo ônibus, até achar um assento que mais lhe agradasse. Ele escolheu aquele lugar, porquê calculou meticulosamente (ou, se preferir, desajeitadamente) que ninguém se sentaria no assento da frente, ou no de trás. Porém, como tudo na vida de nosso desajeitado-mor, o cálculo deu errado, pois logo depois que entrou, uma mulher (mulher essa que, enquanto eu falava com Ele para poder transcrever-lhes essa magnífica parábola, Ele se referia à ela como "a filha da puta com gripe", e também "a desgraçada") sentou-se no assento que havia atrás d'Ele. Ele sentiu-se um pouco incomodado com isso, tendo em vista o facto de que Ele apresentava algumas neuroses relativas à pessoas, à limpeza, à organização, logo você verá o porquê desse meu comentário a respeito de suas psicopatias em potencial.
A mulher estava com gripe, ou qualquer uma dessas doenças que assolam (ao dizer "doenças que assolam, quis dizer algo como "ao sentir a primeira dor de cabeça e antes mesmo de espirrar ou tossir, a pessoa liga ao seu emprego dizendo que não pode ir devido à uma fortíssima gripe") a população no inverno. E Ele estava com uma blusa que tem a gola um pouco baixa, logo, sua nuca estava um pouco à mostra.
A mulher começa a tossir. Tossir. Tossir. Tossir. Tossir. Só que, a mulher não tossia como qualquer outra mulher normal e decente na face da Terra. A mulher tosse sem tampar a boca com a sua mão.
Ele sente um certo "ventinho" em sua nuca. Ele sente algo "molhadinho" em sua nuca. À essa altura, Ele está de uma cor, com a qual não conseguia-se distinguir entre ele e o assento. Ele pensa em olhar para trás, mas tem medo que ela tussa na exata hora em que Ele olharia para trás. Ele já não consegue mais se mexer, porquê imagina aquelas bactérias oriundas da mucosa bucal da indistinta mulher, entrando em seus poros, e assim, pouco a pouco, infiltrando em seu organismo.
Como se não bastasse, a mulher tosse de novo, e novamente Ele sente o "ventinho" e o "molhadinho". Ele estava nesse momento, impassível, por exemplo, se uma bomba nuclear fosse detonada em sua frente, ele continuaria ali, parado, com aquela expressão perplexa e sentindo aquelas bactérias e vírus caminhando por sua nuca como se fossem tarântulas ansiosas por penetrarem suas perfeitas células.
A mulher tosse novamente, e novamente, e novamente, até que, a raiva d'Ele foi crescendo, num misto de ira e transtorno obssessivo compulsivo. Ele vira-se para a mulher detrás, fulmina-a com olhos cheios de fogo e neurose, olhos que nesse momento seriam capazes de congelar a própria Medusa. Ele diz para a mulher:
- Será que não dá pra tossir com a mão na frente, querida?
E a mulher, não notando, ou fingindo que não notava a fúria nos olhos d'Ele, respondeu:
- Ai, me desculpa, é que eu tô gripada.
"Eu notei que tu tá gripada, sua puta anti-higiênica!" pensou Ele.
- Então, dá próxima vez, coloca a mão na frente, por favor. - por incrível que pareça, Ele ainda tentou disfarçar a cólera com alguma polidez que ainda lhe sobrava.
Ele virou-se, vagarosa e desajeitadamente, no seu assento. Mesmo depois de ter falado para a mulher sobre o facto da mão na boca, Ele esperava que a mulher tossisse de volta, e fazendo assim, que a colônia bacteriana em sua nuca aumentasse.
Porém, a mulher, como que tomada por uma súbita solidariedade ("súbita solidariedade", também é engraçado falar isso), muda-se de lugar, e vai para o fundo da condução pública.
Ele olha para trás, mas não acredita. Olha novamente e nota que é verdade: a vaca gripada foi embora. Ele sorri, desajeitadamente.
O trajeto torna-se tranqüilo de repente, e Ele relaxa (com "Ele relaxa", entenda-se "Ele pega seu lenço e limpa a nuca infectada e depois joga o lenço pela janela").
Estava tudo bem. Estava tudo bem. Estava tudo bem. avatsE tudo bem.
Lógicamente, tudo não continua bem, mas prossegue seu ritmo desajeitado.
Ao sair do ônibus, Ele respira o ar poluído da cidade, ah!, aquelas doces moléculas de carbono entravam suavemente em suas narinas.
Quando vê o bonde deixar o ponto, ele acena para a mulher, dizendo algo do gênero de: "Tomara que você vá hoje ao médico, descubra que tem tuberculose em um nível avançado."
Ele suspira aliviado, olha para os lados, e continua andando pela rua. Depois de andar uns cinco metros, ele pára passa a mão em suas costas, olha para cima, olha para baixo, olha para trás. Passa de novo a mão nas costas. "Cadê a merda da minha mala?" Pensa o desajeitado.
terça-feira, 10 de junho de 2008
Hoje é o Primeiro Dia do Resto da sua Vida
Meu rosto estampava todos os jornais e revistas, fui até chamado, por um desses jornais, de "a nova Shirley Temple, porém, com um pênis."
A verdade é que o povo adora uma criança que dança, canta, sapateia, atua e limpa a casa como um adulto normal (normal?). E eu fui isso durante alguns anos. Meu nome era sinônimo de lucro, e por conta disso eu era disputado à tapas por empresas que queriam renovar suas campanhas publicitárias, até uma empresa de cigarros me procurou (já imaginou uma criança loura, de cachos balançantes, cantando e dançando, e cantando numa propaganda de cigarros? Pois eu fiz isso!), e reza a lenda, que os lucros dessa empresa aumentaram por minha causa.
Se você ainda não sabe quem eu sou, vou lhe contar um pouco de minha história, para maiores esclarecimentos: Nasci no interior do Espírito Santo, em 1967. Meu pai era pedreiro e minha mãe era parteira (possuía tamanha experiência, que, contam algumas velhinhas da vila, que minha mãe fez o próprio parto e depois ainda fez um chá de camomila), e ao contrário do que dizem muitos artistas, na minha família não havia ninguém que possuísse alguma espécie de ligação com as artes, logo vê-se que minhas incríveis técnicas, foram desenvolvidas por mim mesmo. Saí do meu vilarejo quando tinha treze meses (eu e minha família fomos expulsos de lá, pois meu pai andava alisando as galinhas do vizinho), e fui parar no Rio de Janeiro algum tempo depois (mais precisamente, quando completei dois anos e tanto, afinal fomos de bicicleta. Só uma bicicleta). No Rio, tive a vida que toda criança pobre tem, morei em um barraco numa favela, o qual com cada chuva ou ventania, saía voando e eu tinha que rolar morro abaixo para alcançá-lo e depois reconstruir minha moradia; também cometia alguns pequenos delitos para sobreviver (traficava botes salva-vidas). Vivi "normalmente" até os quatro anos, quando um produtor de filmes norte-americano veio visitar o Rio, e num passeio à favela, me viu sapateando em uma esquina e me puxou para dentro do seu carro. Um dia depois estava em NY com ele. Lá, aprimorei minhas habilidades com aulas de dança, canto e atuação. No meu aniversário de seis anos, um amigo de meu pai seqüestro-adotivo, que produzia musicais, veio me visitar e me convidar para integrar o elenco de "Apalpando o Palco", a história de um menino cego que aprende a sapatear, cantar e aparar gramas, para esquecer os problemas ocasionados pela falta de visão. E acabei sendo o menino, papel principal! O filme foi um sucesso, e eu com seis anos já recebia propostas de casamento. Depois desse filme, fiz outros dois mega-sucessos: "Papai-Polvo", filme que conta a vida de um menino que uma vez naufragou no meio do Pacífico, e acabou no fundo do oceano, na cidade de Polvorosa, onde foi criado por um polvo; e o elogiadíssimo "A Fábrica de Pirulitos do Sr. Stein", que mostra como um homem judeu conseguiu se disfarçar de piruliteiro para escapar dos nazistas. Uma semana depois da estréia de "A Fábrica...", meu pai seqüestro-adotivo morreu por conta de um infarto e um derrame (que aconteceram simultaneamente). Fiquei muito abalado e passei três meses no ostracismo, mas mesmo assim, o povo não me esqueceu, até me ajudaram mandando cartas e bombons. Após essa triste fase em minha vida, voltei com tudo em uma releitura da tragédia de Tróia, intitulada de "O Coelhinho Aquiles e seus Amiguinhos", nesse filme intepretei Aquiles, um inocente coelhinho-soldado que mata todos com sua arma secreta: o maxixe. (Esqueci de mencionar que, após a morte de meu pai seqüestro-adotivo, o seu amigo produtor de musicais, me adotou, a sua nova galhinha dos ovos de ouro). Mas foi com "Os Meninos do Arco-Íris contra o Vilanesco Sr. Stein", a continuação de "A Fábrica...", nesse filme, o Sr. Stein deixa de ser o judeu sofredor e vira o vilanesco diretor da Escola do Arco-Íris. Nesse filme minha carreira foi catapultada e pude ter meu trabalho reconhecido também fora dos EUA. O filme foi aclamado por público e crítica, e foi até exibido no circuito competitivo de Cannes (lá encontrei Gene Kelly, ele disse que finalmente viu alguém recapturar o espírito dos musicais). Depois de "Os Meninos...", fiz várias campanhas publicitárias para empresas, e todas tiveram um lucro maior do que o esperado, graças ao sorridente rosto de um menino loiro e de olhos azuis estampado em seus produtos. Ganhei muito dinheiro, me tornei o mais jovem milionário dos EUA. Fiz filmes como "Confete!"; "Viva La Vida en Las Vegas"; "A Sorveteria do Amor"; "Travessuras na UTI"; "Amigo Amish"; "Maravilhas Modernas de Mademoiselle Marion"; "Um Dia no Sítio da Alegria"; "Cantando com o Proletariado" e uma versão musical de "O Crime do Padre Amaro" - só para citar os maiores sucessos, pois eu fazia, em média, quinze filmes por mês. Porém, a idade foi chegando e as ofertas de trabalho foram desaparecendo. Já com dezesseis anos de idade, os quinze filmes mensais se tornaram somente um por bimestre. Meu rosto e doçura infantis se foram, e assim, ninguém mais me queria, de repente todos me esqueceram. Me vi desempregado, mas ainda bem que havia guardado algumas economias. Com dezenove anos, ingressei no cinema pornô, só o que sobrava. O salário era razoável, mas como dizem por aí, eu unia o útil ao agradável. Consegui certo reconhecimento na indústria pornô, devido ao meu conteúdo, se é que você me entende. Fiz cinqüenta e três filmes num intervalo de quatro anos. No ano passado voltei ao Brasil, e fiquei trabalhando como caixa de um mercado, lá quase ninguém me reconhecia, exceto por alguns que me conheciam pelos musicais ou pelos pornôs, mas nunca me senti envergonhado por causa desse reconhecimento sexual, e já dizia um ex-companheiro meu de profissão: "antes que te conheçam pela maçaneta, do que pelo buraco da fechadura".
E cá estou eu, abaixo do Equador, onde não existe pecado, e nem dinheiro.
Se você conhece alguém que conhece alguém que conhece alguém, conte pra essa pessoa sobre a minha pessoa, mostre essa minha história, quem sabe assim volto para as telas.
Meus filmes são um pouco difíceis de se achar no meio comercial brasileiro, mas para os interessados, eles devem estar a venda em algum desses sites de leilão, onde as pessoas se desfazem do que já não lhes têm mais préstimo.
A verdade é que o povo adora uma criança que dança, canta, sapateia, atua e limpa a casa como um adulto normal (normal?). E eu fui isso durante alguns anos. Meu nome era sinônimo de lucro, e por conta disso eu era disputado à tapas por empresas que queriam renovar suas campanhas publicitárias, até uma empresa de cigarros me procurou (já imaginou uma criança loura, de cachos balançantes, cantando e dançando, e cantando numa propaganda de cigarros? Pois eu fiz isso!), e reza a lenda, que os lucros dessa empresa aumentaram por minha causa.
Se você ainda não sabe quem eu sou, vou lhe contar um pouco de minha história, para maiores esclarecimentos: Nasci no interior do Espírito Santo, em 1967. Meu pai era pedreiro e minha mãe era parteira (possuía tamanha experiência, que, contam algumas velhinhas da vila, que minha mãe fez o próprio parto e depois ainda fez um chá de camomila), e ao contrário do que dizem muitos artistas, na minha família não havia ninguém que possuísse alguma espécie de ligação com as artes, logo vê-se que minhas incríveis técnicas, foram desenvolvidas por mim mesmo. Saí do meu vilarejo quando tinha treze meses (eu e minha família fomos expulsos de lá, pois meu pai andava alisando as galinhas do vizinho), e fui parar no Rio de Janeiro algum tempo depois (mais precisamente, quando completei dois anos e tanto, afinal fomos de bicicleta. Só uma bicicleta). No Rio, tive a vida que toda criança pobre tem, morei em um barraco numa favela, o qual com cada chuva ou ventania, saía voando e eu tinha que rolar morro abaixo para alcançá-lo e depois reconstruir minha moradia; também cometia alguns pequenos delitos para sobreviver (traficava botes salva-vidas). Vivi "normalmente" até os quatro anos, quando um produtor de filmes norte-americano veio visitar o Rio, e num passeio à favela, me viu sapateando em uma esquina e me puxou para dentro do seu carro. Um dia depois estava em NY com ele. Lá, aprimorei minhas habilidades com aulas de dança, canto e atuação. No meu aniversário de seis anos, um amigo de meu pai seqüestro-adotivo, que produzia musicais, veio me visitar e me convidar para integrar o elenco de "Apalpando o Palco", a história de um menino cego que aprende a sapatear, cantar e aparar gramas, para esquecer os problemas ocasionados pela falta de visão. E acabei sendo o menino, papel principal! O filme foi um sucesso, e eu com seis anos já recebia propostas de casamento. Depois desse filme, fiz outros dois mega-sucessos: "Papai-Polvo", filme que conta a vida de um menino que uma vez naufragou no meio do Pacífico, e acabou no fundo do oceano, na cidade de Polvorosa, onde foi criado por um polvo; e o elogiadíssimo "A Fábrica de Pirulitos do Sr. Stein", que mostra como um homem judeu conseguiu se disfarçar de piruliteiro para escapar dos nazistas. Uma semana depois da estréia de "A Fábrica...", meu pai seqüestro-adotivo morreu por conta de um infarto e um derrame (que aconteceram simultaneamente). Fiquei muito abalado e passei três meses no ostracismo, mas mesmo assim, o povo não me esqueceu, até me ajudaram mandando cartas e bombons. Após essa triste fase em minha vida, voltei com tudo em uma releitura da tragédia de Tróia, intitulada de "O Coelhinho Aquiles e seus Amiguinhos", nesse filme intepretei Aquiles, um inocente coelhinho-soldado que mata todos com sua arma secreta: o maxixe. (Esqueci de mencionar que, após a morte de meu pai seqüestro-adotivo, o seu amigo produtor de musicais, me adotou, a sua nova galhinha dos ovos de ouro). Mas foi com "Os Meninos do Arco-Íris contra o Vilanesco Sr. Stein", a continuação de "A Fábrica...", nesse filme, o Sr. Stein deixa de ser o judeu sofredor e vira o vilanesco diretor da Escola do Arco-Íris. Nesse filme minha carreira foi catapultada e pude ter meu trabalho reconhecido também fora dos EUA. O filme foi aclamado por público e crítica, e foi até exibido no circuito competitivo de Cannes (lá encontrei Gene Kelly, ele disse que finalmente viu alguém recapturar o espírito dos musicais). Depois de "Os Meninos...", fiz várias campanhas publicitárias para empresas, e todas tiveram um lucro maior do que o esperado, graças ao sorridente rosto de um menino loiro e de olhos azuis estampado em seus produtos. Ganhei muito dinheiro, me tornei o mais jovem milionário dos EUA. Fiz filmes como "Confete!"; "Viva La Vida en Las Vegas"; "A Sorveteria do Amor"; "Travessuras na UTI"; "Amigo Amish"; "Maravilhas Modernas de Mademoiselle Marion"; "Um Dia no Sítio da Alegria"; "Cantando com o Proletariado" e uma versão musical de "O Crime do Padre Amaro" - só para citar os maiores sucessos, pois eu fazia, em média, quinze filmes por mês. Porém, a idade foi chegando e as ofertas de trabalho foram desaparecendo. Já com dezesseis anos de idade, os quinze filmes mensais se tornaram somente um por bimestre. Meu rosto e doçura infantis se foram, e assim, ninguém mais me queria, de repente todos me esqueceram. Me vi desempregado, mas ainda bem que havia guardado algumas economias. Com dezenove anos, ingressei no cinema pornô, só o que sobrava. O salário era razoável, mas como dizem por aí, eu unia o útil ao agradável. Consegui certo reconhecimento na indústria pornô, devido ao meu conteúdo, se é que você me entende. Fiz cinqüenta e três filmes num intervalo de quatro anos. No ano passado voltei ao Brasil, e fiquei trabalhando como caixa de um mercado, lá quase ninguém me reconhecia, exceto por alguns que me conheciam pelos musicais ou pelos pornôs, mas nunca me senti envergonhado por causa desse reconhecimento sexual, e já dizia um ex-companheiro meu de profissão: "antes que te conheçam pela maçaneta, do que pelo buraco da fechadura".
E cá estou eu, abaixo do Equador, onde não existe pecado, e nem dinheiro.
Se você conhece alguém que conhece alguém que conhece alguém, conte pra essa pessoa sobre a minha pessoa, mostre essa minha história, quem sabe assim volto para as telas.
Meus filmes são um pouco difíceis de se achar no meio comercial brasileiro, mas para os interessados, eles devem estar a venda em algum desses sites de leilão, onde as pessoas se desfazem do que já não lhes têm mais préstimo.
quarta-feira, 4 de junho de 2008
Quero que Vá Tudo pro Inferno
Minhas unhas,
meu cabelo,
o Lula,
a Lua,
minha rua,
meus vizinhos,
os carros,
o pagode,
o barulho da cidade,
o sol,
a merda,
a porra,
o medo,
a insolação,
a carne de soja,
o Tio Sam,
as baratas,
as prévias das eleições americanas,
as crianças com fome,
o deputado larápio,
a NASA,
o BOPE,
o Pelourinho,
a batucada,
os homicidas do português,
o rato que roeu a roupa do rei de Roma,
a vaca,
o pasto,
a marca,
o final de semana,
a licença maternidade,
o INSS,
a anarquia,
a democracia,
o comunismo,
o capitalismo,
o meio-ambiente,
a camada de ozônio,
a favela,
o futebol,
a antena,
o verbo de ligação,
a etiqueta,
a puta,
a freira,
o abacate,
o repolho,
a Luciana Gimenez,
o ônibus lotado,
o teatro vazio,
o estádio novo,
a biblioteca velha,
o vereador,
a Bíblia,
a bula,
a goma,
a Tela Quente,
a Sessão da Tarde,
o macaco em extinção,
o cadafalso,
a colina,
o solstício,
o equinócio,
a órbita,
a falta de dinheiro,
as milhas,
a erva cidreira,
a babosa,
o artista,
o imitador,
o cansaço,
o Patrick Swayze e seu câncer,
o intrínseco,
o extrínseco,
a coluna social,
os acomodados,
os agitadores,
a meia rasgada,
a Nike,
o Playstation,
o Lost,
a falta da presença,
a presilha,
a cueca,
a ceroula,
a calcinha,
o raio-x,
o gama,
o alfa,
o beta,
a hipotenusa,
os outdoors,
a propaganda política,
o rap,
o hip hop,
o repentista,
a carpideira,
o Paulo Coelho,
o Jornal Nacional,
a CNN,
o Canal Rural,
o cinema comercial,
a Blockbuster,
o léxico,
o gago,
o cego,
o manco,
o melancólico,
o burlesco,
o filantropo,
a unanimidade que é burra,
a marca de copo molhado na mesa de madeira cara,
o conceitual,
o enjôo,
os que lêem,
os que vêem,
o Zé Ninguém,
o homem sério que contava dinheiro,
o faroleiro que contava vantagem,
a namorada que contava as estrelas,
a moça triste que vivia calada,
a rosa triste que vivia fechada,
o velho fraco que se esqueceu do cansaço e pensou que ainda era moço pra sair no terraço e dançou,
a moça feia que debruçou na janela,
a marcha alegre que se espalhou na avenida,
a lua cheia que vivia escondida,
o Créu,
a fábula,
o móbile,
o vírus encubado,
o argentino,
o vestido Valentino,
a bolsa Victor Hugo,
o salto Prada,
a lente,
a escova,
aquilo que dói no meu dente,
o cão,
o chão,
o pão,
o são,
o louco,
o arroz,
o feijão,
o latino-americano,
o anglo-saxão,
o afro-brasileiro,
o ítalo-inglês,
a Rainha,
o castelo,
o feudo,
o dólar,
o real,
o euro,
o iene,
a coroa,
o marco,
o peso,
a configuração,
o motor,
o gato,
o ronronar,
a ruína,
a rosca,
a rolha,
a rajada,
o rapé,
o engenheiro,
o matemático,
o oceanógrafo,
o estilista,
a Gestapo,
o Bush,
a Margaret Thatcher,
o Tony Blair,
a Lady Di,
a Princesa de Mônaco,
o Canal de Suez,
a Faixa de Gaza,
o Tratado de Tordesilhas,
o Canal do Panamá,
o acarajé,
o vatapá,
o tucupi,
o tacacá,
a pitanga,
o pires,
o cortiço,
o mulato,
a moça com olhos de ressaca,
o verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver,
a inocência,
o guarani,
o sargento de milícias,
o bom fim,
o mau começo,
a floresta amazônica,
a festa junina,
os banheiros públicos,
a falta da cultura,
a presença do inútil,
o voto,
a UE,
o FBI,
a ONU,
a CUT,
o cara que matou a mãe do Bambi,
a bruxa que envenenou a maçã da Branca de Neve,
o sapato de cristal da Cinderela,
o espinafre do Popeye,
o porquinho que construiu a casa de palha,
o irmão do Rei Leão,
a Pequena Sereia,
o Brutus,
a velha que jogou o coração do oceano no mar,
o menino que vê gente morta,
o anjo que se joga do prédio pra comer a Meg Ryan,
os créditos iniciais,
os créditos finais,
e o fade out.
meu cabelo,
o Lula,
a Lua,
minha rua,
meus vizinhos,
os carros,
o pagode,
o barulho da cidade,
o sol,
a merda,
a porra,
o medo,
a insolação,
a carne de soja,
o Tio Sam,
as baratas,
as prévias das eleições americanas,
as crianças com fome,
o deputado larápio,
a NASA,
o BOPE,
o Pelourinho,
a batucada,
os homicidas do português,
o rato que roeu a roupa do rei de Roma,
a vaca,
o pasto,
a marca,
o final de semana,
a licença maternidade,
o INSS,
a anarquia,
a democracia,
o comunismo,
o capitalismo,
o meio-ambiente,
a camada de ozônio,
a favela,
o futebol,
a antena,
o verbo de ligação,
a etiqueta,
a puta,
a freira,
o abacate,
o repolho,
a Luciana Gimenez,
o ônibus lotado,
o teatro vazio,
o estádio novo,
a biblioteca velha,
o vereador,
a Bíblia,
a bula,
a goma,
a Tela Quente,
a Sessão da Tarde,
o macaco em extinção,
o cadafalso,
a colina,
o solstício,
o equinócio,
a órbita,
a falta de dinheiro,
as milhas,
a erva cidreira,
a babosa,
o artista,
o imitador,
o cansaço,
o Patrick Swayze e seu câncer,
o intrínseco,
o extrínseco,
a coluna social,
os acomodados,
os agitadores,
a meia rasgada,
a Nike,
o Playstation,
o Lost,
a falta da presença,
a presilha,
a cueca,
a ceroula,
a calcinha,
o raio-x,
o gama,
o alfa,
o beta,
a hipotenusa,
os outdoors,
a propaganda política,
o rap,
o hip hop,
o repentista,
a carpideira,
o Paulo Coelho,
o Jornal Nacional,
a CNN,
o Canal Rural,
o cinema comercial,
a Blockbuster,
o léxico,
o gago,
o cego,
o manco,
o melancólico,
o burlesco,
o filantropo,
a unanimidade que é burra,
a marca de copo molhado na mesa de madeira cara,
o conceitual,
o enjôo,
os que lêem,
os que vêem,
o Zé Ninguém,
o homem sério que contava dinheiro,
o faroleiro que contava vantagem,
a namorada que contava as estrelas,
a moça triste que vivia calada,
a rosa triste que vivia fechada,
o velho fraco que se esqueceu do cansaço e pensou que ainda era moço pra sair no terraço e dançou,
a moça feia que debruçou na janela,
a marcha alegre que se espalhou na avenida,
a lua cheia que vivia escondida,
o Créu,
a fábula,
o móbile,
o vírus encubado,
o argentino,
o vestido Valentino,
a bolsa Victor Hugo,
o salto Prada,
a lente,
a escova,
aquilo que dói no meu dente,
o cão,
o chão,
o pão,
o são,
o louco,
o arroz,
o feijão,
o latino-americano,
o anglo-saxão,
o afro-brasileiro,
o ítalo-inglês,
a Rainha,
o castelo,
o feudo,
o dólar,
o real,
o euro,
o iene,
a coroa,
o marco,
o peso,
a configuração,
o motor,
o gato,
o ronronar,
a ruína,
a rosca,
a rolha,
a rajada,
o rapé,
o engenheiro,
o matemático,
o oceanógrafo,
o estilista,
a Gestapo,
o Bush,
a Margaret Thatcher,
o Tony Blair,
a Lady Di,
a Princesa de Mônaco,
o Canal de Suez,
a Faixa de Gaza,
o Tratado de Tordesilhas,
o Canal do Panamá,
o acarajé,
o vatapá,
o tucupi,
o tacacá,
a pitanga,
o pires,
o cortiço,
o mulato,
a moça com olhos de ressaca,
o verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver,
a inocência,
o guarani,
o sargento de milícias,
o bom fim,
o mau começo,
a floresta amazônica,
a festa junina,
os banheiros públicos,
a falta da cultura,
a presença do inútil,
o voto,
a UE,
o FBI,
a ONU,
a CUT,
o cara que matou a mãe do Bambi,
a bruxa que envenenou a maçã da Branca de Neve,
o sapato de cristal da Cinderela,
o espinafre do Popeye,
o porquinho que construiu a casa de palha,
o irmão do Rei Leão,
a Pequena Sereia,
o Brutus,
a velha que jogou o coração do oceano no mar,
o menino que vê gente morta,
o anjo que se joga do prédio pra comer a Meg Ryan,
os créditos iniciais,
os créditos finais,
e o fade out.
sexta-feira, 23 de maio de 2008
Aluga-se Kafka
Uma hora se passou, e a cadeira começou a ficar desconfortável. Eu já havia decorado todas as expressões faciais da secretária e da distinta senhora ao meu lado. Também já havia decorado tudo sobre a malfadada vida dos famosos, já que a única coisa que eu tinha para ler (além das placas com os nomes dos doutores nas respectivas portas) era uma pilha de revistas de fofoca.
Quando a porta do consultório do doutor Martin se abre, meu coração dispara, e penso "É agora..." Mas o doutor move seus inexistentes lábios para dizer: "Dona Genoveva, pode entrar."
Pela primeira vez em minha vida, quis matar uma velha. Olhei para o teto branco, e lá comecei a projetar o que poderia ser um novo filme do Tarantino; imaginei-me destroçando a inocente senhora, arrancando cada membro seu e depois jogando-os no elevador, e mandando ele para o 17º andar (ala infantil). Mas, a velha não tem culpa, a culpa é do incompetente do doutor Martin.
Ainda na sala de espera (tendo já lido todas as revistas), eu comecei a prestar atenção nos quadros que "enfeitavam" aquela saleta branca e que (não sei porquê) cheirava a formol. Surpreendentemente, todos os quadros (uso "todos os quadros" para não ter que dizer "as três gravuras produzidas por uma criança hidrocefálica") eram quadros que retratavam fruteiras. Fruteiras que abundavam de maçã, bananas, pêras e cebolas (infelizmente isso levou-me a lembrar da casa de minha avó, algo que realmente preferia enterrar. As lembranças, não a minha avó).
[uma hora depois]
A porta do consultório se abre.
"Augusto, pode entrar." Aleluia, minha vez!
Quando trombo com a velha Genoveva no corredor, reimaginei-me matando a pobre, mas tudo bem, isso passou, agora é minha vez.
- Augusto, sente-se, por favor. - murmurou o doutor com uma vontade quase inexistente.
Sentei-me no divã, e começou a verborragia de confissões. Tentativas frustradas de suicídio, traições por parte da minha esposa, sobrinhos chutando minha genitália e uma ervilha engasgada.
E o doutor nada falava, só escutava. Quer dizer, então, que eu esperei por três horas e paguei noventa reais, só por um criado-mudo? Se eu procurasse um criado-mudo, era só ir ao asilo e falar com o meu sogro!
Fechei meus olhos e fantasiei algo que me acalmou: eu descia do divã, agarrava ele com as duas mãos e o lançava sobre o doutor Martin. Mas, foi só pensamento, nem fiz... Quem me dera...
Saí de lá, e voltei à minha vida de miséria em minha casa.
Quando cheguei em casa, vi minha amada e infiel esposa sentada no sofá assistindo a um programa de culinária e anotando freneticamente as receitas.
Fui até a cozinha, peguei uma faca de churrasco, e fui andando calmamente em direção à minha companheira de leito (ou esposa, como preferir chamar). Levanto o meu braço, e num golpe só procuro acertar seu pescoço, para matá-la de uma só vez. Porém, a faca estava sem corte, e fica presa no pescoço da minha querida mulher, e ela vira-se para mim berrando e cuspindo sangue.
-... ois, três. Acorde!
Olho assustado ao redor. Parece que estou em uma tenda... Uma tenda roxa... Em minha frente está um homem que usa um turbante, e uma longa barba anti-higiênica. Na sua mão direita está um pêndulo.
- E como foi? Lembra de algo de sua hipnose?
- Sim... Parecia um filme do Lynch... Nossa, agora realmente entendo o que querem dizer com "kafkiano".
- Bom saber que apreciou essa pequena viagem...
- Obrigado, seu... Seu vidente, ou seja lá como gosta de ser chamado.
- Obrigado? E o meu pagamento..?
- Pagamento? Esse negócio de vidente não é voluntário? Não é algo que você faz por um... chamado?
- Sim. Chamado monetário.
Rola um clima tenso, afinal, não tenho nada de troco na minha carteira, só meu cartão de crédito, mas acho que ele não aceita American Express.
Então, antes que a coisa piore, eu saio correndo.
No lado de fora, a fila era gigantesca.
Ouço um burburinho. O vidente vinha correndo atrás de mim com sua bola de cristal na mão. Ele joga a bola, tentando acertar em mim, só que a bola acerta um homem qualquer na fila.
Com esse homícidio, todos da fila passam a correr atrás do vidente, procurando vingança pela morte do companheiro de espera.
Já eu, saí impune, feliz e contente. Tive uma experiência digna de Kafka, e ainda sem pagar! O que mais eu poderia querer?
Quando a porta do consultório do doutor Martin se abre, meu coração dispara, e penso "É agora..." Mas o doutor move seus inexistentes lábios para dizer: "Dona Genoveva, pode entrar."
Pela primeira vez em minha vida, quis matar uma velha. Olhei para o teto branco, e lá comecei a projetar o que poderia ser um novo filme do Tarantino; imaginei-me destroçando a inocente senhora, arrancando cada membro seu e depois jogando-os no elevador, e mandando ele para o 17º andar (ala infantil). Mas, a velha não tem culpa, a culpa é do incompetente do doutor Martin.
Ainda na sala de espera (tendo já lido todas as revistas), eu comecei a prestar atenção nos quadros que "enfeitavam" aquela saleta branca e que (não sei porquê) cheirava a formol. Surpreendentemente, todos os quadros (uso "todos os quadros" para não ter que dizer "as três gravuras produzidas por uma criança hidrocefálica") eram quadros que retratavam fruteiras. Fruteiras que abundavam de maçã, bananas, pêras e cebolas (infelizmente isso levou-me a lembrar da casa de minha avó, algo que realmente preferia enterrar. As lembranças, não a minha avó).
[uma hora depois]
A porta do consultório se abre.
"Augusto, pode entrar." Aleluia, minha vez!
Quando trombo com a velha Genoveva no corredor, reimaginei-me matando a pobre, mas tudo bem, isso passou, agora é minha vez.
- Augusto, sente-se, por favor. - murmurou o doutor com uma vontade quase inexistente.
Sentei-me no divã, e começou a verborragia de confissões. Tentativas frustradas de suicídio, traições por parte da minha esposa, sobrinhos chutando minha genitália e uma ervilha engasgada.
E o doutor nada falava, só escutava. Quer dizer, então, que eu esperei por três horas e paguei noventa reais, só por um criado-mudo? Se eu procurasse um criado-mudo, era só ir ao asilo e falar com o meu sogro!
Fechei meus olhos e fantasiei algo que me acalmou: eu descia do divã, agarrava ele com as duas mãos e o lançava sobre o doutor Martin. Mas, foi só pensamento, nem fiz... Quem me dera...
Saí de lá, e voltei à minha vida de miséria em minha casa.
Quando cheguei em casa, vi minha amada e infiel esposa sentada no sofá assistindo a um programa de culinária e anotando freneticamente as receitas.
Fui até a cozinha, peguei uma faca de churrasco, e fui andando calmamente em direção à minha companheira de leito (ou esposa, como preferir chamar). Levanto o meu braço, e num golpe só procuro acertar seu pescoço, para matá-la de uma só vez. Porém, a faca estava sem corte, e fica presa no pescoço da minha querida mulher, e ela vira-se para mim berrando e cuspindo sangue.
-... ois, três. Acorde!
Olho assustado ao redor. Parece que estou em uma tenda... Uma tenda roxa... Em minha frente está um homem que usa um turbante, e uma longa barba anti-higiênica. Na sua mão direita está um pêndulo.
- E como foi? Lembra de algo de sua hipnose?
- Sim... Parecia um filme do Lynch... Nossa, agora realmente entendo o que querem dizer com "kafkiano".
- Bom saber que apreciou essa pequena viagem...
- Obrigado, seu... Seu vidente, ou seja lá como gosta de ser chamado.
- Obrigado? E o meu pagamento..?
- Pagamento? Esse negócio de vidente não é voluntário? Não é algo que você faz por um... chamado?
- Sim. Chamado monetário.
Rola um clima tenso, afinal, não tenho nada de troco na minha carteira, só meu cartão de crédito, mas acho que ele não aceita American Express.
Então, antes que a coisa piore, eu saio correndo.
No lado de fora, a fila era gigantesca.
Ouço um burburinho. O vidente vinha correndo atrás de mim com sua bola de cristal na mão. Ele joga a bola, tentando acertar em mim, só que a bola acerta um homem qualquer na fila.
Com esse homícidio, todos da fila passam a correr atrás do vidente, procurando vingança pela morte do companheiro de espera.
Já eu, saí impune, feliz e contente. Tive uma experiência digna de Kafka, e ainda sem pagar! O que mais eu poderia querer?
Semântica
Sua afinidade, dizia Ele, era com a macumba. A idéia de fazer mal (ou bem) às pessoas, sem contato físico, muito lhe agradava. Um dia, conheceu um pai-de-santo e lhe perguntou se podia ir com ele ao terreiro.
- Pois bem, me acompanhe. - disse o pai-de-santo.
Ele acompanhou o pai, e adorou o lugar! Lusco-fusco, mulheres seminuas enquanto recebiam uma pombagira.
Os olhos d'Ele se enchiam com todo aquele ritual. Até que o pai disse:
- Meu fio, suncê qué uns passe?
Ele, sem saber que diacho era o tal do "passe", disse:
- Sim, painho. Tem de 5 unidades?
- Que que cê disse, fio?
- Passe, de ônibus, certo? É que eu ia embora andando mesmo, mas como o sinhô ofereceu o passe, agora vou-me de ônibus!
- Não, meu fio. Esses passe que eu dou, é uma coisa espirituá, metafís, entende?
- Claro, pai, manda o passe...
- S'ocê mora na grande Sum Paulo, o passe chega até terça. S'ocê num mora em Sum Paulo, aí tem frete, à contratar.
- Moro no Morumbi.
- Ô fio, muito bem. Aí, o pai vai te dá uns passe...
E quando o pai ia dar os passe, o cavalo cansou, e o orixá desencorporou.
E Ele tá sem passe até hoje.
Até porquê, o negócio d'Ele (segundo o próprio), agora é virar monge tibetano...
- Pois bem, me acompanhe. - disse o pai-de-santo.
Ele acompanhou o pai, e adorou o lugar! Lusco-fusco, mulheres seminuas enquanto recebiam uma pombagira.
Os olhos d'Ele se enchiam com todo aquele ritual. Até que o pai disse:
- Meu fio, suncê qué uns passe?
Ele, sem saber que diacho era o tal do "passe", disse:
- Sim, painho. Tem de 5 unidades?
- Que que cê disse, fio?
- Passe, de ônibus, certo? É que eu ia embora andando mesmo, mas como o sinhô ofereceu o passe, agora vou-me de ônibus!
- Não, meu fio. Esses passe que eu dou, é uma coisa espirituá, metafís, entende?
- Claro, pai, manda o passe...
- S'ocê mora na grande Sum Paulo, o passe chega até terça. S'ocê num mora em Sum Paulo, aí tem frete, à contratar.
- Moro no Morumbi.
- Ô fio, muito bem. Aí, o pai vai te dá uns passe...
E quando o pai ia dar os passe, o cavalo cansou, e o orixá desencorporou.
E Ele tá sem passe até hoje.
Até porquê, o negócio d'Ele (segundo o próprio), agora é virar monge tibetano...
quarta-feira, 21 de maio de 2008
Rei Onírico
Hoje quando acordei fiz um daqueles exercícios para a memória, o de escrever o sonho que você teve na noite que se passou. Meu sonho foi tão..., tão... estranho, que creio que lembrarei dele para sempre:
Abri os olhos. Estava deitado no meio de uma estrada e vestia somente uma túnica branca com um diagrama da saída de incêndio de algum hotel.
Quando levantei, já não estava na estrada, eu estava na minha festa de aniversário de cinco anos. Vi meus tios contando piadas sobre o governo; vi meus primos comendo a sujeira do nariz; mas, principalmente, me vi. Me vi como sou atualmente, com esse corpo de homem de vinte e sete anos, porém falava como criança, e também agia como tal. Procurei desbravar a minha antiga casa, afinal, não é sempre que se volta no tempo. E fui andando pela casa: na sala de estar vi duas pessoas sentadas, mas só me dei conta de quem eram essas pessoas, depois que eu passei. Para ter certeza, voltei. Na minha sala estavam sentados Kurt Cobain e Gandhi, discutindo sobre a Birmânia. Procurei me acalmar, e fui andando até onde creio que era a cozinha.
Logo que botei os pés na cozinha, já não me encontrava na cozinha, e sim em um zoológico. Só que dessa vez eu era um jacaré, e as pessoas se apoiavam na grade para me ver, e alguns meninos pervertidos, jogavam pedras em mim. Não podia me defender, eu era só um jacaré. Logo olho para o lado e vejo minha atual noiva, caminhando em minha direção, só que usando um daqueles macacões de tratadores de animais de zoológico. Ela chegou perto de mim (ainda um jacaré), abriu sua blusa, e onde deveriam estar seus seios, estava uma placa luminosa "Welcome to Las Vegas". E num desejo incontrolável, eu-jacaré, mordo a placa e tomo um choque.
E em um piscar de olhos eu estou em uma maca num hospital, e haviam câmeras ao meu redor, como se eu fosse um ator de novela, atuando como um paciente que tomara um eletrochoque. Quando consegui enxergar melhor, vi que as pessoas que estavam ao meu lado (enfermeiros, médicos, operadores de câmera, e outros atores) tinham o meu rosto! De repente, ouço alguém gritar "Corta!". Levanto-me e tento andar, ao colocar os pés no chão, meu pés não tocam mais o piso, e sim areia.
Estava em uma praia. Além de mim, haviam mais coisas na praia: dois chimpanzés e um caranguejo. E como não havia nada mais interessante, eu acordei.
Nunca tive nenhum problema psicológico (pelo menos que eu soubesse), sendo assim nunca havia procurado um psicólogo. Porém, com esse sonho fui obrigado a procurar um especialista.Primeiro, visitei um parapsicólogo. Contei meu sonho, e analisando-o, o parapsicólogo me disse que isso talvez fosse alguma coletânea de todas as minha vidas passadas em forma de sonho, ou que eu devia parar de comer feijoada antes de dormir.
Não confiando em seu diagnóstico, procurei um psicólogo, e também lhe contei meu sonho. Este me disse que de acordo com o meu sonho, eu tenho ínicio de alguma psicopatia.
Saí de lá inconformado, já que minha família tem histórico de demência, alzheimer, parkinson, esquizofrenia e depressão. Passei o dia trancado no banheiro da empresa onde trabalho.
Perto das cinco horas da tarde, o psicólogo me liga, e diz que tinha feito o diagnóstico errado. "Ai, que alívio!", pensei. Mas ele me disse que havia pensado em meu caso pelo resto do dia. Segundo ele, minha psicopatia não estava em início, já estava em estado avançado. Também me disse que sou esquizofrênico e um homicida potencial. O psicólogo me deu o número de um colega dele que é psiquiatra, mas como também não confiei nele, não falei mais com ele e tampouco liguei para seu colega.
Não sou esquizofrênico, e muito menos homicida! Porém, lhe juro, que só matei o psicólogo porquê Bette Davis e Rimbaud (que dividem apartamento comigo) ordenaram que eu fizesse isso.
E hoje a tarde vou tomar chá com Nietzsche e Freud, só que eles pediram para eu não ir com a minha fantasia de lontra.
E repito, não sou esquizofrênico e nem homicida, certo?
Abri os olhos. Estava deitado no meio de uma estrada e vestia somente uma túnica branca com um diagrama da saída de incêndio de algum hotel.
Quando levantei, já não estava na estrada, eu estava na minha festa de aniversário de cinco anos. Vi meus tios contando piadas sobre o governo; vi meus primos comendo a sujeira do nariz; mas, principalmente, me vi. Me vi como sou atualmente, com esse corpo de homem de vinte e sete anos, porém falava como criança, e também agia como tal. Procurei desbravar a minha antiga casa, afinal, não é sempre que se volta no tempo. E fui andando pela casa: na sala de estar vi duas pessoas sentadas, mas só me dei conta de quem eram essas pessoas, depois que eu passei. Para ter certeza, voltei. Na minha sala estavam sentados Kurt Cobain e Gandhi, discutindo sobre a Birmânia. Procurei me acalmar, e fui andando até onde creio que era a cozinha.
Logo que botei os pés na cozinha, já não me encontrava na cozinha, e sim em um zoológico. Só que dessa vez eu era um jacaré, e as pessoas se apoiavam na grade para me ver, e alguns meninos pervertidos, jogavam pedras em mim. Não podia me defender, eu era só um jacaré. Logo olho para o lado e vejo minha atual noiva, caminhando em minha direção, só que usando um daqueles macacões de tratadores de animais de zoológico. Ela chegou perto de mim (ainda um jacaré), abriu sua blusa, e onde deveriam estar seus seios, estava uma placa luminosa "Welcome to Las Vegas". E num desejo incontrolável, eu-jacaré, mordo a placa e tomo um choque.
E em um piscar de olhos eu estou em uma maca num hospital, e haviam câmeras ao meu redor, como se eu fosse um ator de novela, atuando como um paciente que tomara um eletrochoque. Quando consegui enxergar melhor, vi que as pessoas que estavam ao meu lado (enfermeiros, médicos, operadores de câmera, e outros atores) tinham o meu rosto! De repente, ouço alguém gritar "Corta!". Levanto-me e tento andar, ao colocar os pés no chão, meu pés não tocam mais o piso, e sim areia.
Estava em uma praia. Além de mim, haviam mais coisas na praia: dois chimpanzés e um caranguejo. E como não havia nada mais interessante, eu acordei.
Nunca tive nenhum problema psicológico (pelo menos que eu soubesse), sendo assim nunca havia procurado um psicólogo. Porém, com esse sonho fui obrigado a procurar um especialista.Primeiro, visitei um parapsicólogo. Contei meu sonho, e analisando-o, o parapsicólogo me disse que isso talvez fosse alguma coletânea de todas as minha vidas passadas em forma de sonho, ou que eu devia parar de comer feijoada antes de dormir.
Não confiando em seu diagnóstico, procurei um psicólogo, e também lhe contei meu sonho. Este me disse que de acordo com o meu sonho, eu tenho ínicio de alguma psicopatia.
Saí de lá inconformado, já que minha família tem histórico de demência, alzheimer, parkinson, esquizofrenia e depressão. Passei o dia trancado no banheiro da empresa onde trabalho.
Perto das cinco horas da tarde, o psicólogo me liga, e diz que tinha feito o diagnóstico errado. "Ai, que alívio!", pensei. Mas ele me disse que havia pensado em meu caso pelo resto do dia. Segundo ele, minha psicopatia não estava em início, já estava em estado avançado. Também me disse que sou esquizofrênico e um homicida potencial. O psicólogo me deu o número de um colega dele que é psiquiatra, mas como também não confiei nele, não falei mais com ele e tampouco liguei para seu colega.
Não sou esquizofrênico, e muito menos homicida! Porém, lhe juro, que só matei o psicólogo porquê Bette Davis e Rimbaud (que dividem apartamento comigo) ordenaram que eu fizesse isso.
E hoje a tarde vou tomar chá com Nietzsche e Freud, só que eles pediram para eu não ir com a minha fantasia de lontra.
E repito, não sou esquizofrênico e nem homicida, certo?
terça-feira, 20 de maio de 2008
Ramal 7
- Thermatec, Viviana, boa tarde.
- Oi, Viviana. Meu nome é Diogo, e essa semana comprei um ar-condicionado de sua marca, e hoje fui instalar ele e houve uma pequena explosão que decepou a minha mão esquerda.
- Certo...
- E eu queria saber se a Thermatec cobre as despesas com hospital e psiquiatria...
- Certo... - em um misto de condescendência e interrogação. - vou estar lhe passando para o ramal 7, que cuida desses casos.
Enquanto Diogo aguarda, é tocada como música de espera uma parte de Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky. Na meia hora que se seguiu de espera, a mão de Diogo sangrou o suficiente para besuntar um touro, enquanto ele dançava ao leve som de Lago dos Cisnes. Quando iria começar a cantarolar, alguém atende.
- Oi, bom dia, aqui é Johann do ramal 7 da Thermatec, qual seria o seu problema?
"O chefe deve gostar de música clássica", pensou Diogo.
- É o seguinte, - Diogo pigarreou, e logo continuou. - comprei um ar-condicionado de vocês, hoje fui instalar e ele explodiu e arrancou a minha mão esquerda, e eu gostaria de saber se vocês cobre as despesas hospitalares e psiquiátricas.
- Certo... - Johann falou com aquele tom de quem aguarda pelo fim do expediente. - Preciso de alguns dados a seu respeito...
- Diga.
- A idade em que sua avó perdeu a virgindade...
- 17 anos.
- Seu ano de nascimento...
- 1977.
- Seu RG...
- 892754.697-52
- Seu filme preferido...
- A Malvada.
- A primeira vez que você pegou uma prostituta eslava...
- Nunca.
- Seu feriado preferido...
- O Dia do Gavião Dourado, no Tibet.
- Seria só isso mesmo, senhor Gonçalves.
- Tá, e agora? - Diogo geme, o gato estava lambendo sua ferida aberta.
- Agora o senhor aguarda só um instante enquanto processamos seus dados, sua ligação é muito importante para nós. Na espera, o senhor gostaria de estar ouvindo Chopin, ou uma composição para cordas de Bartók?
- Bartók.
Vinte e três minutos se passaram ao som de Bartok. Diogo sangrou um pouco mais, e estava tentando tirar a sua meia com uma mão só, quando uma mulher atende.
- Aqui é Anna O., do ramal de zoologia da Thermatec. Como poderia estar ajudando o senhor?
- Zoologia? Desculpe querida, mas meu problema não é com animais, e eu estava falando com Johann do ramal 7.
- Ah, sim... O ramal 7... Desculpe-me senhor, estaremos lhe passando de volta ao 7.
Mais cinqüenta e quatro minutos de espera, numa repetição de As Bodas de Fígaro, de Mozart.
- Alô? Senhor Diogo? Aqui é Johann...
- Diga-me o que houve Johann.
- Sim. Houve um pequeno problema... A idade com que sua avó perdeu a virgindade, que o senhor me forneceu, não confere com a que o senhor forneceu a um SAC de balas de goma.
- É que você não me disse se era avó paterna ou materna, eu disse a primeira que lembrei.
- Mas, senhor, nós estamos precisando desses dados!
- Escuta aqui, meu filho: eu gastei mil e quinhentos reais naquela porra, vou instalar, aquilo explode e arranca a minha mão esquerda, e ainda por cima eu sou canhoto! Tô com uma dor do caralho, meu gato tá aqui lmabendo a ferida e tomando o sangue. E você fica aí me perturbando com a idade com que a minha avó rasgou o lacre?
Após terminar de falar, ele ouve a 9ª de Beethoven. Percebe que foi colocado em espera, e aquela torna-se a perfeita trilha sonora para a sua ira. Quando já está bufando, Johann atende, e Diogo, cuspindo marimbondos:
- ME VÊ UM EXAME DE URINAAAAAAA!
- Gostaríamos de estar avisando, que você pode se dirigir ao hospital mais próximo, só por favor anote o número do protocolo.
- COMO QUE EU VOU ME DIRIGIR AO HOSPITAL, COM UMA MÃO SÓ? COMO EU VOU ANOTAR ALGO SE EU SÓ TENHO UMA MÃO?
Novamente, Johann desliga e Diogo ouve ao fundo a 9ª de Beethoven. Tomado por uma ácida e corrosiva raiva, Diogo joga o telefone contra o aquário, e corre para a janela. Com a calça embebida de sangue, senta-se desajeitadamente na beirada da janela, olha para o seu destino, e se joga. A mão (ou o lugar onde deveria haver uma) ainda jorrando sangue, junto com a velocidade da queda e o vento, acaba pintando a fachada branca do prédio, com seu sangue escarlate. Quando cai, acidentalmente cai em cima de uma pobre velha de oitenta e quatro anos, que sofria de osteoporose. Os dois morrem.
Após morrer, Diogo vê que a mão decepada fora a direita, e não a esquerda. Se soubesse disso antes, não teria se matado, mas agora que já fez isso, tudo bem.
Até hoje, Diogo está no Purgatório em uma espera numa ligação para o Céu. Só que dessa vez, as músicas de espera são de uma coleção dos anos 80.
Me parece que o Céu não atende o telefone, pois está em uma reunião com a contabilidade.
P.S.: Diogo acha que, quando Johann perguntou-lhe sobre Chopin ou Bartók, se tivesse respondido Chopin talvez nada disso tivesse ocorrido. Exceto pela mão decepada.
Mão direita.
- Oi, Viviana. Meu nome é Diogo, e essa semana comprei um ar-condicionado de sua marca, e hoje fui instalar ele e houve uma pequena explosão que decepou a minha mão esquerda.
- Certo...
- E eu queria saber se a Thermatec cobre as despesas com hospital e psiquiatria...
- Certo... - em um misto de condescendência e interrogação. - vou estar lhe passando para o ramal 7, que cuida desses casos.
Enquanto Diogo aguarda, é tocada como música de espera uma parte de Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky. Na meia hora que se seguiu de espera, a mão de Diogo sangrou o suficiente para besuntar um touro, enquanto ele dançava ao leve som de Lago dos Cisnes. Quando iria começar a cantarolar, alguém atende.
- Oi, bom dia, aqui é Johann do ramal 7 da Thermatec, qual seria o seu problema?
"O chefe deve gostar de música clássica", pensou Diogo.
- É o seguinte, - Diogo pigarreou, e logo continuou. - comprei um ar-condicionado de vocês, hoje fui instalar e ele explodiu e arrancou a minha mão esquerda, e eu gostaria de saber se vocês cobre as despesas hospitalares e psiquiátricas.
- Certo... - Johann falou com aquele tom de quem aguarda pelo fim do expediente. - Preciso de alguns dados a seu respeito...
- Diga.
- A idade em que sua avó perdeu a virgindade...
- 17 anos.
- Seu ano de nascimento...
- 1977.
- Seu RG...
- 892754.697-52
- Seu filme preferido...
- A Malvada.
- A primeira vez que você pegou uma prostituta eslava...
- Nunca.
- Seu feriado preferido...
- O Dia do Gavião Dourado, no Tibet.
- Seria só isso mesmo, senhor Gonçalves.
- Tá, e agora? - Diogo geme, o gato estava lambendo sua ferida aberta.
- Agora o senhor aguarda só um instante enquanto processamos seus dados, sua ligação é muito importante para nós. Na espera, o senhor gostaria de estar ouvindo Chopin, ou uma composição para cordas de Bartók?
- Bartók.
Vinte e três minutos se passaram ao som de Bartok. Diogo sangrou um pouco mais, e estava tentando tirar a sua meia com uma mão só, quando uma mulher atende.
- Aqui é Anna O., do ramal de zoologia da Thermatec. Como poderia estar ajudando o senhor?
- Zoologia? Desculpe querida, mas meu problema não é com animais, e eu estava falando com Johann do ramal 7.
- Ah, sim... O ramal 7... Desculpe-me senhor, estaremos lhe passando de volta ao 7.
Mais cinqüenta e quatro minutos de espera, numa repetição de As Bodas de Fígaro, de Mozart.
- Alô? Senhor Diogo? Aqui é Johann...
- Diga-me o que houve Johann.
- Sim. Houve um pequeno problema... A idade com que sua avó perdeu a virgindade, que o senhor me forneceu, não confere com a que o senhor forneceu a um SAC de balas de goma.
- É que você não me disse se era avó paterna ou materna, eu disse a primeira que lembrei.
- Mas, senhor, nós estamos precisando desses dados!
- Escuta aqui, meu filho: eu gastei mil e quinhentos reais naquela porra, vou instalar, aquilo explode e arranca a minha mão esquerda, e ainda por cima eu sou canhoto! Tô com uma dor do caralho, meu gato tá aqui lmabendo a ferida e tomando o sangue. E você fica aí me perturbando com a idade com que a minha avó rasgou o lacre?
Após terminar de falar, ele ouve a 9ª de Beethoven. Percebe que foi colocado em espera, e aquela torna-se a perfeita trilha sonora para a sua ira. Quando já está bufando, Johann atende, e Diogo, cuspindo marimbondos:
- ME VÊ UM EXAME DE URINAAAAAAA!
- Gostaríamos de estar avisando, que você pode se dirigir ao hospital mais próximo, só por favor anote o número do protocolo.
- COMO QUE EU VOU ME DIRIGIR AO HOSPITAL, COM UMA MÃO SÓ? COMO EU VOU ANOTAR ALGO SE EU SÓ TENHO UMA MÃO?
Novamente, Johann desliga e Diogo ouve ao fundo a 9ª de Beethoven. Tomado por uma ácida e corrosiva raiva, Diogo joga o telefone contra o aquário, e corre para a janela. Com a calça embebida de sangue, senta-se desajeitadamente na beirada da janela, olha para o seu destino, e se joga. A mão (ou o lugar onde deveria haver uma) ainda jorrando sangue, junto com a velocidade da queda e o vento, acaba pintando a fachada branca do prédio, com seu sangue escarlate. Quando cai, acidentalmente cai em cima de uma pobre velha de oitenta e quatro anos, que sofria de osteoporose. Os dois morrem.
Após morrer, Diogo vê que a mão decepada fora a direita, e não a esquerda. Se soubesse disso antes, não teria se matado, mas agora que já fez isso, tudo bem.
Até hoje, Diogo está no Purgatório em uma espera numa ligação para o Céu. Só que dessa vez, as músicas de espera são de uma coleção dos anos 80.
Me parece que o Céu não atende o telefone, pois está em uma reunião com a contabilidade.
P.S.: Diogo acha que, quando Johann perguntou-lhe sobre Chopin ou Bartók, se tivesse respondido Chopin talvez nada disso tivesse ocorrido. Exceto pela mão decepada.
Mão direita.
Assinar:
Comentários (Atom)
