sexta-feira, 23 de maio de 2008

Aluga-se Kafka

Uma hora se passou, e a cadeira começou a ficar desconfortável. Eu já havia decorado todas as expressões faciais da secretária e da distinta senhora ao meu lado. Também já havia decorado tudo sobre a malfadada vida dos famosos, já que a única coisa que eu tinha para ler (além das placas com os nomes dos doutores nas respectivas portas) era uma pilha de revistas de fofoca.
Quando a porta do consultório do doutor Martin se abre, meu coração dispara, e penso "É agora..." Mas o doutor move seus inexistentes lábios para dizer: "Dona Genoveva, pode entrar."
Pela primeira vez em minha vida, quis matar uma velha. Olhei para o teto branco, e lá comecei a projetar o que poderia ser um novo filme do Tarantino; imaginei-me destroçando a inocente senhora, arrancando cada membro seu e depois jogando-os no elevador, e mandando ele para o 17º andar (ala infantil). Mas, a velha não tem culpa, a culpa é do incompetente do doutor Martin.
Ainda na sala de espera (tendo já lido todas as revistas), eu comecei a prestar atenção nos quadros que "enfeitavam" aquela saleta branca e que (não sei porquê) cheirava a formol. Surpreendentemente, todos os quadros (uso "todos os quadros" para não ter que dizer "as três gravuras produzidas por uma criança hidrocefálica") eram quadros que retratavam fruteiras. Fruteiras que abundavam de maçã, bananas, pêras e cebolas (infelizmente isso levou-me a lembrar da casa de minha avó, algo que realmente preferia enterrar. As lembranças, não a minha avó).
[uma hora depois]
A porta do consultório se abre.
"Augusto, pode entrar." Aleluia, minha vez!
Quando trombo com a velha Genoveva no corredor, reimaginei-me matando a pobre, mas tudo bem, isso passou, agora é minha vez.
- Augusto, sente-se, por favor. - murmurou o doutor com uma vontade quase inexistente.
Sentei-me no divã, e começou a verborragia de confissões. Tentativas frustradas de suicídio, traições por parte da minha esposa, sobrinhos chutando minha genitália e uma ervilha engasgada.
E o doutor nada falava, só escutava. Quer dizer, então, que eu esperei por três horas e paguei noventa reais, só por um criado-mudo? Se eu procurasse um criado-mudo, era só ir ao asilo e falar com o meu sogro!
Fechei meus olhos e fantasiei algo que me acalmou: eu descia do divã, agarrava ele com as duas mãos e o lançava sobre o doutor Martin. Mas, foi só pensamento, nem fiz... Quem me dera...
Saí de lá, e voltei à minha vida de miséria em minha casa.
Quando cheguei em casa, vi minha amada e infiel esposa sentada no sofá assistindo a um programa de culinária e anotando freneticamente as receitas.
Fui até a cozinha, peguei uma faca de churrasco, e fui andando calmamente em direção à minha companheira de leito (ou esposa, como preferir chamar). Levanto o meu braço, e num golpe só procuro acertar seu pescoço, para matá-la de uma só vez. Porém, a faca estava sem corte, e fica presa no pescoço da minha querida mulher, e ela vira-se para mim berrando e cuspindo sangue.

-... ois, três. Acorde!
Olho assustado ao redor. Parece que estou em uma tenda... Uma tenda roxa... Em minha frente está um homem que usa um turbante, e uma longa barba anti-higiênica. Na sua mão direita está um pêndulo.
- E como foi? Lembra de algo de sua hipnose?
- Sim... Parecia um filme do Lynch... Nossa, agora realmente entendo o que querem dizer com "kafkiano".
- Bom saber que apreciou essa pequena viagem...
- Obrigado, seu... Seu vidente, ou seja lá como gosta de ser chamado.
- Obrigado? E o meu pagamento..?
- Pagamento? Esse negócio de vidente não é voluntário? Não é algo que você faz por um... chamado?
- Sim. Chamado monetário.
Rola um clima tenso, afinal, não tenho nada de troco na minha carteira, só meu cartão de crédito, mas acho que ele não aceita American Express.
Então, antes que a coisa piore, eu saio correndo.
No lado de fora, a fila era gigantesca.
Ouço um burburinho. O vidente vinha correndo atrás de mim com sua bola de cristal na mão. Ele joga a bola, tentando acertar em mim, só que a bola acerta um homem qualquer na fila.
Com esse homícidio, todos da fila passam a correr atrás do vidente, procurando vingança pela morte do companheiro de espera.
Já eu, saí impune, feliz e contente. Tive uma experiência digna de Kafka, e ainda sem pagar! O que mais eu poderia querer?

Semântica

Sua afinidade, dizia Ele, era com a macumba. A idéia de fazer mal (ou bem) às pessoas, sem contato físico, muito lhe agradava. Um dia, conheceu um pai-de-santo e lhe perguntou se podia ir com ele ao terreiro.
- Pois bem, me acompanhe. - disse o pai-de-santo.

Ele acompanhou o pai, e adorou o lugar! Lusco-fusco, mulheres seminuas enquanto recebiam uma pombagira.
Os olhos d'Ele se enchiam com todo aquele ritual. Até que o pai disse:
- Meu fio, suncê qué uns passe?
Ele, sem saber que diacho era o tal do "passe", disse:
- Sim, painho. Tem de 5 unidades?
- Que que cê disse, fio?
- Passe, de ônibus, certo? É que eu ia embora andando mesmo, mas como o sinhô ofereceu o passe, agora vou-me de ônibus!
- Não, meu fio. Esses passe que eu dou, é uma coisa espirituá, metafís, entende?
- Claro, pai, manda o passe...
- S'ocê mora na grande Sum Paulo, o passe chega até terça. S'ocê num mora em Sum Paulo, aí tem frete, à contratar.
- Moro no Morumbi.
- Ô fio, muito bem. Aí, o pai vai te dá uns passe...
E quando o pai ia dar os passe, o cavalo cansou, e o orixá desencorporou.
E Ele tá sem passe até hoje.
Até porquê, o negócio d'Ele (segundo o próprio), agora é virar monge tibetano...

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Rei Onírico

Hoje quando acordei fiz um daqueles exercícios para a memória, o de escrever o sonho que você teve na noite que se passou. Meu sonho foi tão..., tão... estranho, que creio que lembrarei dele para sempre:

Abri os olhos. Estava deitado no meio de uma estrada e vestia somente uma túnica branca com um diagrama da saída de incêndio de algum hotel.
Quando levantei, já não estava na estrada, eu estava na minha festa de aniversário de cinco anos. Vi meus tios contando piadas sobre o governo; vi meus primos comendo a sujeira do nariz; mas, principalmente, me vi. Me vi como sou atualmente, com esse corpo de homem de vinte e sete anos, porém falava como criança, e também agia como tal. Procurei desbravar a minha antiga casa, afinal, não é sempre que se volta no tempo. E fui andando pela casa: na sala de estar vi duas pessoas sentadas, mas só me dei conta de quem eram essas pessoas, depois que eu passei. Para ter certeza, voltei. Na minha sala estavam sentados Kurt Cobain e Gandhi, discutindo sobre a Birmânia. Procurei me acalmar, e fui andando até onde creio que era a cozinha.
Logo que botei os pés na cozinha, já não me encontrava na cozinha, e sim em um zoológico. Só que dessa vez eu era um jacaré, e as pessoas se apoiavam na grade para me ver, e alguns meninos pervertidos, jogavam pedras em mim. Não podia me defender, eu era só um jacaré. Logo olho para o lado e vejo minha atual noiva, caminhando em minha direção, só que usando um daqueles macacões de tratadores de animais de zoológico. Ela chegou perto de mim (ainda um jacaré), abriu sua blusa, e onde deveriam estar seus seios, estava uma placa luminosa "Welcome to Las Vegas". E num desejo incontrolável, eu-jacaré, mordo a placa e tomo um choque.
E em um piscar de olhos eu estou em uma maca num hospital, e haviam câmeras ao meu redor, como se eu fosse um ator de novela, atuando como um paciente que tomara um eletrochoque. Quando consegui enxergar melhor, vi que as pessoas que estavam ao meu lado (enfermeiros, médicos, operadores de câmera, e outros atores) tinham o meu rosto! De repente, ouço alguém gritar "Corta!". Levanto-me e tento andar, ao colocar os pés no chão, meu pés não tocam mais o piso, e sim areia.
Estava em uma praia. Além de mim, haviam mais coisas na praia: dois chimpanzés e um caranguejo. E como não havia nada mais interessante, eu acordei.

Nunca tive nenhum problema psicológico (pelo menos que eu soubesse), sendo assim nunca havia procurado um psicólogo. Porém, com esse sonho fui obrigado a procurar um especialista.Primeiro, visitei um parapsicólogo. Contei meu sonho, e analisando-o, o parapsicólogo me disse que isso talvez fosse alguma coletânea de todas as minha vidas passadas em forma de sonho, ou que eu devia parar de comer feijoada antes de dormir.
Não confiando em seu diagnóstico, procurei um psicólogo, e também lhe contei meu sonho. Este me disse que de acordo com o meu sonho, eu tenho ínicio de alguma psicopatia.
Saí de lá inconformado, já que minha família tem histórico de demência, alzheimer, parkinson, esquizofrenia e depressão. Passei o dia trancado no banheiro da empresa onde trabalho.
Perto das cinco horas da tarde, o psicólogo me liga, e diz que tinha feito o diagnóstico errado. "Ai, que alívio!", pensei. Mas ele me disse que havia pensado em meu caso pelo resto do dia. Segundo ele, minha psicopatia não estava em início, já estava em estado avançado. Também me disse que sou esquizofrênico e um homicida potencial. O psicólogo me deu o número de um colega dele que é psiquiatra, mas como também não confiei nele, não falei mais com ele e tampouco liguei para seu colega.
Não sou esquizofrênico, e muito menos homicida! Porém, lhe juro, que só matei o psicólogo porquê Bette Davis e Rimbaud (que dividem apartamento comigo) ordenaram que eu fizesse isso.
E hoje a tarde vou tomar chá com Nietzsche e Freud, só que eles pediram para eu não ir com a minha fantasia de lontra.
E repito, não sou esquizofrênico e nem homicida, certo?

terça-feira, 20 de maio de 2008

Ramal 7

- Thermatec, Viviana, boa tarde.
- Oi, Viviana. Meu nome é Diogo, e essa semana comprei um ar-condicionado de sua marca, e hoje fui instalar ele e houve uma pequena explosão que decepou a minha mão esquerda.
- Certo...
- E eu queria saber se a Thermatec cobre as despesas com hospital e psiquiatria...
- Certo... - em um misto de condescendência e interrogação. - vou estar lhe passando para o ramal 7, que cuida desses casos.
Enquanto Diogo aguarda, é tocada como música de espera uma parte de Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky. Na meia hora que se seguiu de espera, a mão de Diogo sangrou o suficiente para besuntar um touro, enquanto ele dançava ao leve som de Lago dos Cisnes. Quando iria começar a cantarolar, alguém atende.
- Oi, bom dia, aqui é Johann do ramal 7 da Thermatec, qual seria o seu problema?
"O chefe deve gostar de música clássica", pensou Diogo.
- É o seguinte, - Diogo pigarreou, e logo continuou. - comprei um ar-condicionado de vocês, hoje fui instalar e ele explodiu e arrancou a minha mão esquerda, e eu gostaria de saber se vocês cobre as despesas hospitalares e psiquiátricas.
- Certo... - Johann falou com aquele tom de quem aguarda pelo fim do expediente. - Preciso de alguns dados a seu respeito...
- Diga.
- A idade em que sua avó perdeu a virgindade...
- 17 anos.
- Seu ano de nascimento...
- 1977.
- Seu RG...
- 892754.697-52
- Seu filme preferido...
- A Malvada.
- A primeira vez que você pegou uma prostituta eslava...
- Nunca.
- Seu feriado preferido...
- O Dia do Gavião Dourado, no Tibet.
- Seria só isso mesmo, senhor Gonçalves.
- Tá, e agora? - Diogo geme, o gato estava lambendo sua ferida aberta.
- Agora o senhor aguarda só um instante enquanto processamos seus dados, sua ligação é muito importante para nós. Na espera, o senhor gostaria de estar ouvindo Chopin, ou uma composição para cordas de Bartók?
- Bartók.
Vinte e três minutos se passaram ao som de Bartok. Diogo sangrou um pouco mais, e estava tentando tirar a sua meia com uma mão só, quando uma mulher atende.
- Aqui é Anna O., do ramal de zoologia da Thermatec. Como poderia estar ajudando o senhor?
- Zoologia? Desculpe querida, mas meu problema não é com animais, e eu estava falando com Johann do ramal 7.
- Ah, sim... O ramal 7... Desculpe-me senhor, estaremos lhe passando de volta ao 7.
Mais cinqüenta e quatro minutos de espera, numa repetição de As Bodas de Fígaro, de Mozart.
- Alô? Senhor Diogo? Aqui é Johann...
- Diga-me o que houve Johann.
- Sim. Houve um pequeno problema... A idade com que sua avó perdeu a virgindade, que o senhor me forneceu, não confere com a que o senhor forneceu a um SAC de balas de goma.
- É que você não me disse se era avó paterna ou materna, eu disse a primeira que lembrei.
- Mas, senhor, nós estamos precisando desses dados!
- Escuta aqui, meu filho: eu gastei mil e quinhentos reais naquela porra, vou instalar, aquilo explode e arranca a minha mão esquerda, e ainda por cima eu sou canhoto! Tô com uma dor do caralho, meu gato tá aqui lmabendo a ferida e tomando o sangue. E você fica aí me perturbando com a idade com que a minha avó rasgou o lacre?
Após terminar de falar, ele ouve a 9ª de Beethoven. Percebe que foi colocado em espera, e aquela torna-se a perfeita trilha sonora para a sua ira. Quando já está bufando, Johann atende, e Diogo, cuspindo marimbondos:
- ME VÊ UM EXAME DE URINAAAAAAA!
- Gostaríamos de estar avisando, que você pode se dirigir ao hospital mais próximo, só por favor anote o número do protocolo.
- COMO QUE EU VOU ME DIRIGIR AO HOSPITAL, COM UMA MÃO SÓ? COMO EU VOU ANOTAR ALGO SE EU SÓ TENHO UMA MÃO?
Novamente, Johann desliga e Diogo ouve ao fundo a 9ª de Beethoven. Tomado por uma ácida e corrosiva raiva, Diogo joga o telefone contra o aquário, e corre para a janela. Com a calça embebida de sangue, senta-se desajeitadamente na beirada da janela, olha para o seu destino, e se joga. A mão (ou o lugar onde deveria haver uma) ainda jorrando sangue, junto com a velocidade da queda e o vento, acaba pintando a fachada branca do prédio, com seu sangue escarlate. Quando cai, acidentalmente cai em cima de uma pobre velha de oitenta e quatro anos, que sofria de osteoporose. Os dois morrem.
Após morrer, Diogo vê que a mão decepada fora a direita, e não a esquerda. Se soubesse disso antes, não teria se matado, mas agora que já fez isso, tudo bem.
Até hoje, Diogo está no Purgatório em uma espera numa ligação para o Céu. Só que dessa vez, as músicas de espera são de uma coleção dos anos 80.
Me parece que o Céu não atende o telefone, pois está em uma reunião com a contabilidade.

P.S.: Diogo acha que, quando Johann perguntou-lhe sobre Chopin ou Bartók, se tivesse respondido Chopin talvez nada disso tivesse ocorrido. Exceto pela mão decepada.
Mão direita.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

The Problem with Poems (ou Poema #1, ou O Canto do Amador)

Sempre me disseram
Que para um poema acontecer,
Nele deveriam haver:
Rimas,
E emoções.
Que as estrofes
Deveriam ter o mesmo número de versos.
E que os versos deveriam ter
O mesmo número
De sílabas poéticas.

Mas,
Que diabo!

Não sei rimar,
Só sei me expressar.
Emoções?
Escondo-as!
Não vejo porquê
Me preocupar
Com números e estética,
Em algo que deveria exalar beleza,
Por si só!
Será,
Que por isso,
Como poeta não servirei?

Mas,
Fique você sabendo,
Que o que está lendo,
É um poema!

Um poema,
Igual aos outros
Em essência,
E ambição.

E então contento-me
Com a alcunha
De poeta-amador!

Amador...
Não seria um amador,
Alguém que ama?
Sou então,
Um amador das letras
E,
Da vida,
Um pobre observador.