segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

baladinhas sentimentais

acordei com o coração
pulsando na palma da mão
senti dentro de mim um vão
o coração saíra e deixara aberto o alçapão

na dancinha de nós dois
não há lugar para talvez ou pois
nem para eles ou bois
só eu e tu nós dois

pra suportar essa tua ausência
é preciso sapiência
porém diz a minha ciência
que o melhor é a tua paciência

quando te lembro há em mim um paroxismo
que mais parece um sismo
e cada vez mais eu cismo
que é uma bela doença um saudadismo

o poeminho que lh'escrevi
fiz quando me lembrei de com'ocê sorri
de quand'eu primeiro lhe vi
e de com'ocê riu quand'eu lhe mordi

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

poemeto de alguém

bati e a porta lá continuou
quando as costas a ela dei
alguém meu nome chamou
embora por aquilo esperasse
pus meus pés à frente e continuei
e alguém meu nome ainda chamava
com tal força e tal sentimento que jamais imaginara
mas eu ainda hesitava
e alguém meu nome continuava a chamar
voltei porém alguém a porta fechara
quando a ponto de ir-me estava
percebi que lá de dentro alguém a me chamar continuava
sem mais pensar entrei
e ao meio do corredor alguém se quedava
e a esse alguém minhas mãos lancei
e num fulgurante pas de deux entramos
mãos bocas pernas braços pupilas alguéns todos dançaram
ao final da ária inertes ali ficamos
e as mãos as bocas as pernas os braços as pupilas os alguéns todos suspiraram
e quando aquele sorriso que só alguém sabe dar
dar-me-ia
por fim um demônio me veio a cutucar
a dizer que parar deveria

de todas as idiossincrasias que pensei ter
jamais me veio às ideias
que talvez pudesse ser
um daqueles que pensam
naquilo que poderia ter sido
mas não foi
naquilo que é
mas não poderia ter sido
naquilo que há-de ser
mas
pensando bem
não há-de ser

e àquele pequeno demônio que isso me fez pensar
eis aqui meus sinceros desejos
vá à merda

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

da inevitável e infindável ciranda nacional

e cá estamos todos nós
valsando a dança dos sem voz
sair não conseguimos
mas não por falta de tentar
o que nos impede ainda não descobrimos
talvez seja essa orquestra que não para de tocar
muitos já tentaram a valsa deixar
homens de boina e damas de peignoir
em verdade vos digo que eles saíram
e em verdade também digo que nunca mais os viram
isso que dançamos é uma dança sem par
é mais uma ciranda maldita
cheia de homens de boina e damas de peignoir
talvez seja essa orquestra que não para de tocar
muitos já disseram que da música não gostam mais
e perguntar-me-ás tu "por que eles não saem?"
porque eles descobriram que a dança lhes apetece mais
e os filhos dos homens de boina e das damas de peignoir
aprendem a viver essa dança sem reclamar
e todos se perguntam
"quando a dança acabará?"
embora as cãs já apareçam
parece que o maestro jamais se cansará
pergunto-me no entanto
"e se um dia a orquestra parar
o que farão o que acontecerá
ao homem de boina e à dama de peignoir?"
mas o maestro não se parece cansar
por isso creio que cá sempre iremos estar
nessa dança sem par
que é mais uma ciranda maldita
cheia de homens de boina e damas de peignoir

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Sobre o traumatismo de Saramago

Sempre achei desnecessário e, talvez, desinteressante demais se pusesse aqui meus sentimentos e emoções e pensamentos de forma direta, crua; por isso, sempre os pus sob a máscara do lirismo. Mas, hoje, sinto que devo expor algo sublime; por favor, suportem este pequeno parágrafo. Acabo de chegar da primeira noite da sétima edição do Joinville Jazz Festival, e é esse o motivo do parágrafo. A noite começou com a banda do sexagésimo segundo batalhão de infantaria que trouxe todo aquele calor das big bands - e mostrou que até a plateia mais "seleta" sabe cantar Roupa Nova -; e a noite terminou com com Toninho Horta e seu quarteto, Toninho foi eleito por uma revista inglesa como o quinto maior guitarrista deste planeta azul. Mas foi o segundo concerto que rasgou minha alma. Foi a pianista Heloisa Fernandes. Ela, como quase todo bom músico brasileiro, é mais conhecida na terra do tio Sam do que aqui. Heloisa entrou no palco descalça e com um vestido branco e preto, e o piano a esperava. Sentou ao piano e abriu com um Pixinguinha e logo puxou um Hermeto Pascoal. Mas foram as suas composições que me tocaram. A terceira canção chama-se "Vou" e foi esta que abriu meus canais lacrimais. Suas mãos bailavam sobre as teclas e seu rosto mostrava toda a dor presente na composição. E em meu rosto caíam as lágrimas. Heloisa continuou com "Candeia", "Criança" e terminou com outra composição sua cujo nome me foge agora. Depois de uma apresentação sóbria e ao mesmo tempo emocionadíssima, a pianista deixou o palco sob aplausos que, se dependessem de mim, durariam toda a noite. Quando as pessoas dizem no palco que estão emocionadas por estar em tal lugar, geralmente mentem; mas os olhos de Heloisa mostraram que não mentia ao dizer que se sentiu honrada de estar no festival. Não me considero a pessoa mais dura do mundo, sempre choro com filmes e livros e canções; mas, Heloisa fez comigo o que só fizera Chopin, ela entrou lá na parte mais escura de mim e a trouxe à luz do piano. José Saramago em uma crônica sobre o livro "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez, disse que se a palavra "traumatismo" tivesse um bom significado, seria isso que o livro causara nele. E, portanto, digo que Heloisa causou em mim um enorme traumatismo.

Eis um trecho de "Candeia", não gravado por minha pessoa. Curto, mas dá para se ter uma ideia do poder da moça. Como não sei fazer direito essas coisas, deixo o link aí, a quem interessar.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

àquela, a (in)devida tradução

"Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?"
(Traduzir-se, de Ferreira Gullar)

meditei sobre como escrevê-la
arranquei do meu eu a vontade de trazê-la
(re)busquei em mim algo para descrevê-la
irritei-me por não haver maneiras de traduzi-la
nas minhas ondas fui pescá-la
a fim de consumi-la

mas nem assim consegui
organizar-me para que pudesse ver
(re)aparecer os versos da tradução
então parei de procurar e buscar
nesse instante é que me apareceu
a tal

a mim ela veio
numas palavras que se revelaram
irritantemente adequadas
(re)fiz o meu eu
através das tais palavras que mágicas não são
mas a descrevem como nenhuma outra: preto e verde

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Enfadonho

Visito-me amiúde. Isso de ser visitado por si mesmo é maravilhoso, embora difícil. Talvez o pior desse tipo de visita esteja nas incontáveis vezes em que se faz mister sair correndo. Não obstante tudo isso, as visitas são agradáveis. Dentro de mim já encontrei Bento Santiago e Brás Cubas; Jesus Cristo e Santo Agostinho; Groucho Marx e Pedro Almodóvar. Todo eles pareciam velhos conhecidos; debatiam ideias e tomavam café. O leitor mais arguto, talvez o portento de sua família, pode estar a se perguntar "Por quê diabos alguém escreveria isso? Por quê estou a lê-lo?" Caro portento, não sei; e se o soubesse, tenho certeza que não escreveria isso. Porque todas essas frases terminadas em ponto final são mais indagativas do que aquelas condecoradas com um ponto de interrogação. É certo que o ponto de interrogação acabou por levar toda a fama de ser o curioso entrevistador; enquanto isso, o ponto final, pobre sinal, sonha em também ser reconhecido pelas indagações, cansou-se de afirmar e de fechar o tempo todo; ele quer, como as interrogações, abrir portões na mente. Mas, só vê essa fadiga do ponto final, aquele que está cansado das respostas, aquele que percebe que, na maioria das vezes, as perguntas escondem profundidades às quais só se pode submergir depois de certas visitas a si mesmo. O enfado do ponto final é também partilhado pelas vírgulas que, maltratadas pelo tempo, cansaram de pausar e separar as coisas; elas querem ser como as aspas que, quando bem utilizadas, aqui talvez o leitor arguto saiba o que quero dizer, podem abrir novos mundos. No entanto, as aspas, portais de frases, estão cheias de abrir e fechar as coisas, elas sonham em ser mais simples, quem sabe pontos finais. Tu que estás a deitar os olhos por essas linhas, talvez te perguntes como sei desses cansaços gramaticais; e eu, com toda a certeza que grassa na atmosfera, te digo que vim a saber de tudo isso somente olhando na almas de tais sinais. "E sinais de pontuação têm alma?" Por me perguntares isso, posso perceber que não és tal portento. Mas, sim, caríssimo, os sinais de pontuação têm alma, quiçá maior que a de muita gente. E a almas deles já vem cansada, invejosa, rota e decrépita há muito. Desde que foram criados ninguém lhes deu descanso, estão sedentos por novos ares. "Então, talvez, a dita nova reforma ortográfica lhes traga novos ares." Voltaste a ser o portento de outrora! orgulho-me disso. Estás certo, leitor; mas, como conheço os travessos sinais, sei que, não demora, já estarão, outra vez, cheios de fadiga. Bom, meu arguto leitor atencioso, vejo que chegaste ao final de um egocêntrico discurso que começou do nada e ao nada fadado está. Saiba que o autor das frases acima, à essa altura, já está com os dedos moídos e tem uma vida a tocar e, assim como os sinais de pontuação, já está começando a se importunar com as coisas e precisa de uma nova reforma.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

afasia na praça

- veja,
aquele menino lá
vai atravessar a rua.
- será
que ele conseguirá?
- veja,
ele já atravessou.
- pobre menino,
fez aquilo por que tanto procurou,
a rua atravessou,
e parece tão acabrunhado.
- vá entender
esses meninos de hoje em dia...
- veja,
lé vem uma menina.
parece que a rua
também vai ela atravessar.
- que menina astuta.
atravessou,
chegou,
e o menino nem a conseguiu notar.
- estarão eles a conversar?
- creio que sim.
e o menino parece interessado
na conversa da menina.
- ele parece
movido,
hipnotizado.
- são coisas
da meninice...
- mas a menina
é das danadas.
já no menino
um beijo tascou.
- veja,
o menino,
pobre ingênuo,
até corou.
- e agora,
onde vai o menino?
- acho que...
veja, lá!
foi atrás de flores
para a menina.
- que bela cena.
é lindo esse sentimento
que só expresso é
com flores,
cores,
e rubores.
- veja,
o menino é sortudo.
conseguiu uma rosa
amarela.
- sortuda é a menina
que terá uma flor
e um amor dedicado
só para ela.
- e lá vai ele
levar a flor
e o amor.
- veja o sorriso
que junto ele leva.
- mas...
cadê a menina?
- até há pouco
ela lá estava.
- será
que se foi embora?
- pobre menino...
veja,
aquele sorriso
foi-se também embora.
- agora sim
ele está realmente
acabrunhado.
- se ao menos
pudesse ajudá-lo...
- deixe-o.
- vá entender
essas meninas de hoje em dia...
- que nada nos dão
senão afasia!
- deixa
a tua mulher ouvir isso.
ela te põe na rua
sem dinheiro e sem fantasia.

le petit presque-fado triste du carrefour des vies

"Allons fêter ton chagrin
Ton premier chagrin d'amour
Qu'il est beau le vilain
Faisons vite il sera court!"
(La chance, de Florent Vintrigner)

tellement proche
ça n'était pas suffisant
et tu ne m'as laissé
qu'une bouteille de chagrins
tu as disparu
et je reste ici

non je ne veux pas mourir
mais je ne peux plus sourire
comme je souriais

si je chante
c'est à cause de ces chagrins
c'est pas à cause de toi
c'est à cause des jours sans ces verts
c'est à cause de qui je suis
c'est à cause du monde

non je ne veux pas sourire
mais je ne peux plus mourir
comme je mourais

je suis perdu
au carrefour de nos vies
et je pense
à tout ce que je n'ai pas dit
à tout ce que j'ai fait
à tout ce que je pouvais faire

non je ne peux pas
mais je ne veux plus
comme je voulais

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

poemeto míope

a noite gélida
deixou-me atônito
e um tanto ávido
a esperar por notícias
da moça míope,
filha daquela
senhora estrábica.
pela janela
via um jardim babilônico
cuja visão
deixou-me sem fôlego.
vindo da porta
ouvi um baralho lúgubre
que pensei
vir do cão anêmico.
e era o próprio
avisando-me
o que eu esperava.
pela janela
vi que quase a um quilômetro
aproximava-se
a moça míope.
saltei a janela
e corri mui frenético
na direção
da moça míope.
quando nos aproximamos
pulou ela em meus braços
nem um pouco herculâneos.
sem qualquer palavra
despimo-nos do léxico
e das roupas
e sobre a relva
fizemos
um amor rápido.
de volta às roupas
e ao léxico
fomos à casa
contar e ouvir notícias.
disse-me ela o que
lhe dissera o médico;
era um diagnóstico
assaz demoníaco.
disse-me ela
que ora tinha
cistite atávica
cisticercose asiática
indevida insônia
pneumonia etérea
endometriose crônica
rubores pálidos
bronquite asmática
lepra tísica
intestino estúpido
paixão metódica,
e além de tudo
já era míope.
o doutor da clínica
a ela disse
que isso era prenúncio
de morte certa.
choramos bátegas
por sua morte próxima.
dei-lhe um
demorado ósculo
até que
me afastou
com suas mãos trêmulas.
lançou-me um
olhar lânguido.
disse-me ela
que morrer não poderia
guardando tamanho segredo;
tinha ela um outro
amor proparoxítono,
meu irmão,
maldito otávio.
enfurecido,
lancei sobre a míope
quente chaleira
com escaldante água.
e assim termina,
em simples tragédia,
meu amor hiperbólico.
em tremendo festival
de sentimentos antitéticos
deixei à míope
um bilhete póstumo
"tu eras vulgívaga,
mulher, carnívora;
vá ao inferno
ter com o senhor das víboras."
deixei-a lívida
estirada no pátio
de minha casa.
fugi para não
ser pego pela polícia.
escrevo agora de
algum canto da suécia.
ó, mulher míope,
foste a lógica
de minha vida errônea;
que a partir de agora
tu sejas
a lógica
das vidas errôneas
dos vermes de
teu futuro túmulo.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

poemeto da esquina

por todas as ruas em que a procurei
ela dobrava as esquinas
e nunca a achei
através da vidraça
de cada táxi em que a persegui
via seu vulto sentia suas cores
mas por completo nunca a vi

finalmente
resolveste aparecer
deixou-se ver
e se os olhos não mentem
apareceste de um modo
que só os olhos sentem

e ela voltou a fugir
e voltei a perseguir
não como outrora
pois ora sei por onde passa
e aguardo-a três esquinas a frente
para vê-la
de repente

e se os olhos não mentem
desapareceste de um modo
que só os olhos sentem

terça-feira, 14 de julho de 2009

Je ne crois pas

- Isso não se faz com uma pessoa...
- Isso o quê?
- Tu consegues parar de fingir, pelo menos, por um pouco?
- Quem disse que eu finjo, mulher?
- Eu.
- Tá bom. Digamos que eu finja; mas finjo o quê?
- Tu bem sabes.
- Não...
- Tudo.
- Tudo o quê?
- Ah, tá bom... Agora esqueceu até o que é "tudo"; "tudo" é tudo!
- Depende do que tu queres dizer com "tudo".
- Com "tudo" eu quero dizer "tudo"!
- Então, a senhorita diz que eu finjo tudo. Logo, se finjo tudo, esses quatro anos juntos não existiram, foram somente atuação...
- Exatamente.
- Estou a fingir quando digo que te amo?
- Sim.
- Estou a fingir quando te elogio?
- Sim.
- Estou a fingir quando conversamos?
- Sim.
- Estou a fingir quando tomamos café da manhã?
- Possivelmente...
- Estou a fingir quando na cama estamos?
- Sim... Não... É um pouco real, devo admitir.
- Portanto, eu não finjo todo o tempo...
- Tá bom; não finges o tempo todo, mas grande parte dele.
- Vou tentar reformular meu pensamento... Como é que descobriste que eu finjo?
- Não descobri, eu sempre soube.
- Se sempre soubeste, por quê estamos juntos há quatro anos?
- Porque... Porque eu... É que...
- Aonde queres chegar com essa história de fingimento?
- Ao cerne da coisa.
- Qual coisa?
- A... coisa. A coisa "nós".
- Somos uma coisa?
- Sim.
- Pensei que fôssemos duas coisas distintas.
- Rá! Chegaste aonde eu queria chegar... Tu és egocêntrico, materialista e megalomaníaco. Pensas em nós como duas coisas distintas, mas a partir do ponto em que engatamos um relacionamento, tornamo-nos uma coisa só.
- Posso ser egocêntrico e materialista, mas não megalomaníaco. Algum dia eu saí por aí bradando "Eu sou Napoleão!", "Adorai a Caesar!"? Nunca! E quando descobriste que eu sou egocêntrico e materialista?
- Não descobri, eu sempre soube.
- Se sempre soubeste, por quê estamos juntos há quatro anos?
- Pode parar de repetir o que disseste? A questão é que tu só pensas em ti.
- Só em mim?
- Só em ti.
- Aquela noite em que te levei ao hospital porque tinhas vomitado durante todo o dia, lembra? Por acaso, isso mostrou que sou egocêntrico?
- Bom, não... Mas fora isso, sempre foste egocêntrico.
- Certo. Então, todos os "eu te amo" foram provas de um egocentrismo?
- Sei lá... Talvez não todos... Mas a maioria.
- Todos os presentes que te dei foram provas de que sou um materialista egocêntrico?
- Acho que... não.
- Eu te amo, mulher! Precisas de alguma prova disso? Esse amor não ficou claro em quatro anos? Amar agora é sinônimo de egoísmo?
- Não preciso de mais provas... O amor ficou claríssimo em quatro anos...
- E o que é que eu fiz de errado..?
- Nada...
- Por que começaste toda essa discussão, então?
- É só que eu precisava que tu me dissesses que me amava, e eu não sabia como arrancar isso de ti; às vezes é difícil pra um homem dizer que ama uma mulher, mas pra ti não é difícil, e eu sempre me perguntei se não era difícil pra ti porque talvez fosse mentira, mas agora eu vi que tu me amas de verdade...
- C'est ça? Ah... Va au enfer, chienne! Et va te faire foutre, aussi... Je ne crois pas que tu as commencé tout cela seulement pour écouter "je t'aime"? C'est incroyable! Bon, tu es une chienne mais je t'aime.
- Ah... Que lindo! Adoro quando tu me elogias em francês, é tão lindo...

E Ele pensa: "Depois eu é que sou o egocêntrico e megalomaníaco?"

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Discussão pronominal

Uma ótima cena acaba de acontecer. Ei-la:

Estavam Eu e Mim sentados no salão de Minha Consciência. O silêncio estava a ponto de tomar forma e matar a ambos. Mim levanta os olhos do livro que estava a ler e observa Eu que apreciava os quadros do salão sem perceber os olhos de Mim. Isso continuou durante certo tempo até que Mim resolveu falar o que o atormentava. Mim descruzou as pernas e disse que Eu não sabe versear; que Eu não consegue fazer poemas; que Eu deveria ligar mais para a forma do poema; que o que Eu sabe fazer, e olhe lá, é prosear. Eu baixou os olhos dos quadros, descruzou as pernas e levantou-se; Mim, sorrindo pela vitória de seu argumento, voltou os olhos a seu livro. Eu atravessava o salão, a ir-se embora, quando se lembrou de algo; olhou para trás e viu o sorriso facinoroso na boca de Mim. Eu aproximou-se de Mim e disse que Mim já deveria estar a par de tudo o que dissera, pois Eu já escrevera tudo aquilo no primeiro poema de sua autoria postado neste blógue; Eu disse também que o poema deve vir de si e não de dentro de alguma gramática. Eu voltou aonde estava sentado. Mim, vexado, fechou seu livro e levantou os olhos a Eu enquanto este voltava a cruzar as pernas; a vitória da discussão fora claramente de Eu, portanto, Mim levantou-se, baixou os olhos, pôs o rabo entre as pernas e foi-se pelo salão até desaparecer da vista de Eu. E Eu voltou a observar os quadros.

poemeto preambular das mesóclises arrependidas

far-te-ei uma contraproposta:
fique.
dar-te-ei tudo o que tenho,
o que não tenho
e o que terei.
dir-te-ia tudo,
no entanto, não posso.
no futuro
contar-se-á esta história
sem que, ao menos,
se possa ouvir
minha versão.

terás tuas conclusões
enquanto
não terei nada além de meus velhos preâmbulos.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

O fumo vem, a chama passa

17 de janeiro
Ela é linda. Alta, branca, grande e vistosa. Nunca vi igual. E nem acredito que agora é minha! Nossos olhares se encontraram, e quando entrei nela, senti que ela sempre havia sido minha; foi algo indescritível. Pra ser sincero, agora só tenho olhos para ela. Ela lembra aquele tipo de casa que há nos Hamptons, em Nova York. Dois andares, uma varanda que circunda toda a casa e é de frente para o mar, com uma parte na areia. Há uma semana eu vim pra cá com minha namorada, fomos à praia, e foi aí que me apaixonei pela casa. Juntei algum dinheiro àquele que eu tinha guardado e foi suficiente para poder comprá-la. Há poucos móveis dentro dela, mas pelo pouco ali presente pode-se notar o bom gosto dos antigos donos. Já estou pensando em como decorá-la de modo que combine com a mobília já presente. Sim, eu que vou decorar a casa, minha namorada não é muito dessas coisas. A cozinha tem aqueles azulejos estilo português. O resto da casa é todo com assoalho de madeira. As janelas são grandes e com vistas de madeira pintada de preto. No anda de cima são três suítes e uma sala enorme com uma grande porta de vidro que leva até a varanda e que propicia uma bela vista da praia. Como estou de férias, semana que vem vou chamar um eletricista para fazer alguns reparos na parte elétrica e vou procurar alguns móveis.

26 de janeiro
Parece que a instalação elétrica da casa é um pouco antiga e me foi recomendado trocá-la. Segundo o eletricista, vai levar, mais ou menos, um mês até ficar toda a instalação pronta. E barato não será. Mas, meu pai diz que está disposto a me ajudar em tudo o que precisar. Além dos reparos elétricos, é preciso arrumar algumas madeiras que estão soltas ou rangendo. Já chamei também o marceneiro que dará conta disso. Vou aproveitar o marceneiro e pedirei que ele arrume alguns móveis que estão na casa. No quarto que escolhi, uma das mesas de cabeceira está que é só cupim. Volto aqui na próxima semana quando o serviço do marceneiro estiver pronto.

3 de fevereiro
Achei os sofás para a sala de cima. São dois sofás de quatro lugares, verde-claros, e já vêm com algumas almofadas brancas. Tenho que lembrar de chamar um pintor para pintar a sala. Serão três paredes brancas e a parede da porta de vidro será de um verde próximo ao dos sofás. O marceneiro terminou seu serviço, mas disse que se fosse eu, firmaria as cadeiras da cozinha. É lógico que aproveitei e pedi que ele as firmasse, afinal, não pretendo cair durante a janta. Quando fui à cozinha para ver as cadeiras, resolvi tomar um copo d'água. Peguei um copo, abri a torneira e um jorro de água marrom atravessou a cozinha. Voilà, chamemos algum técnico hidráulico. E lá se vai meu belo dinheiro...

7 de fevereiro
Hoje, comprei a mesa para a sala de jantar. Tem pés de madeira, trabalhados de forma simples, e um tampo de vidro. Comprei também seis cadeiras trabalhadas de um jeito meio art nouveau. O dinheiro está indo tão rápido; é tanto técnico e mão-de-obra, e ainda nem comecei direito a comprar as coisas para a casa. Como não entendo dessas coisas de construção e reparação, acabo acatando quase tudo o que os técnicos nas áreas dizem. Devia ter sido marceneiro, acho que ganharia mais e não seria tão imprestável como homem...

12 de fevereiro
Quanto à torneira da cozinha, já está tudo resolvido. O problema é o pintor... Chamei-o para que pintasse a sala de cima, o meu quarto e algumas coisas no andar de baixo. A sala de cima está pronta e meu quarto também. Mas, hoje, quando apareci para ver como andavam as coisas, vi, em cima da mesa da cozinha, o pintor e o eletricista agarrando-se em um louco jogo de braços e pernas e roupas no chão. Fiz bastante barulho no assoalho, mas a volúpia dos trabalhadores não permitiu que me ouvissem chegando. Assomei à porta e pigarreei como todos fazem quando querem ser notados. Os dois saltaram da mesa, correndo nus pela cozinha à cata de suas roupas. Depois que se vestiram, disseram-me que aquilo não era o que parecia. Eu disse que nunca pensei que o proletariado também tivesse representatividade na população homossexual. Foi nesse exato instante que lembrei que o pintor é também designer de interiores, e isso justificou a cena. Eu não posso arrumar nada elétrico e nem pintar uma parede, então, resolvi mantê-los, mas pedi que eles não deixassem esse fogo todo atrasar o trabalho, caso contrário, eu os demito e conto tudo para a mulher do eletricista.

13 de fevereiro
Minha namorada fez o primeiro e, até agora, único investimento na casa, comprou um jogo de roupas de cama. À tarde, observávamos a praia pela porta de vidro. Ela me olhou enquanto estávamos deitados no chão da sala e me perguntou se o pintor e o eletricista tinham o direito de inaugurar a casa. E, lá em cima, no chão, inauguramos a casa, com a bênção dos cupins do chão rangente.

22 de fevereiro
Pedi ao pintor que pinte a casa por fora; ele começa hoje. Decidi que a casa não terá sala de televisão, já estou farto de televisão na cidade, então por quê razão colocaria uma aqui também? No lugar onde ficaria a televisão ficará uma enorme estante que comprei em um antiquário, na qual vão estar alguns livros meus e da minha namorada. A casa me inspira de tal forma, que estou começando a trabalhar a ideia de pedir minha namorada em casamento.

5 de março
A parte de acessórios, utensílios dispensáveis e decorativos está pronta. Mas o resto... Isso tudo era só pra fazer alguns reparos na casa, mas já virou reforma. O eletricista e o pintor não querem sair da casa. A todo tempo eles arrumam mais coisas para fazer, mas, para mim, já está tudo bom, não precisa de mais nada. Desconfio de que eles querem continuar trabalhando aqui para que se possam ver todo dia sem precisar pagar motel. Já estou farto de sustentar o apetite sexual deles. Hoje volto para a cidade, mas depois de amanhã eu venho para cá e ponho um fim em toda essa palhaçada.

6 de março
Sei que o propósito desse diário é relatar os acontecimentos relacionados à casa, mas o fato a seguir deve ser narrada, afinal, não possuo outro diário e preciso escrever para aliviar a alma, não que o fato a ser relatado seja de extrema importância para a humanidade, até porque não devo ser o único que passou por isso, mas como disse, tenho que lavar a alma. Como já dito no dia 22 de fevereiro, eu decidira pedir minha namorada em casamento. Pois pedi. Acabo de chegar do restaurante onde fiz o pedido. À tarde eu fui ao restaurante e fiz tudo certo: entreguei a aliança para que o cozinheiro a pusesse no bolo; liguei para o quarteto de cordas; pedi que reservassem uma champanhe... No começo da noite busquei minha namorada em sua casa e fomos ao restaurante. Lá chegando, como sempre faço, abri a porta do carro para ela e fomos à mesa reservada. Até aí tudo bem. Começamos a conversar, e com o desenvolvimento da conversa, ela começou a me dizer coisas estranhas. Disse que, embora nossa relação fosse tudo o que ela pedira aos céus, estava faltando alguma coisa; o amor era recíproco mas não suficiente. Então, mesmo antes de começarmos a comer, ela me chutou. Não me queria mais. Levantou-se e saiu, com toda aquela graça que ela deixa por onde passa. Foi-se para nunca mais voltar. Durante uns cinco minutos eu fiquei parado com os olhos fixos na cadeira em que ela estava, até que me ocorreu que eu deveria falar com o maître e abortar a história do bolo e da champanhe, e deveria ligar para o quarteto de cordas a fim de cancelar. No fim das contas, a aliança já estava no bolo e a champanhe aberta, e tive que pagar por eles; pelo menos contei com o consolo da champanhe. Saí desolado do restaurante e resolvi ir à casa da praia para espairecer. Agora, escrevo enquanto vejo o mar à minha frente e ouço seu marulho acolhedor. Aqui de cima, olho para a casa e percebo como tudo (na casa) evoluiu; ela está linda, exatamente como desenhara em minha mente. --------------------. Agora, estou na cozinha e acabei de chegar de um breve passeio pela casa e está tudo pronto. Mantenho a minha posição e amanhã mando embora o eletricista e o pintor. E acabo de decidir que passarei a morar aqui; preciso de um pouco de paz e solidão neste preciso momento de minha vida.

7 de março
Mandei o proletariado embora; eles disseram algumas coisas sem importância e se foram. Parece que esta vem a ser a minha sina: a ida. Todos se foram; uns foram porque quis, outros se foram e eu não queria. Até eu me fui. Fui-me da cidade e vim para cá; fui-me de homem realizado a descontente; fui-me de mim mesmo.

8 de março
Acho que tudo isso que estou passando, a desolação não desejada e a solidão planejada, despertou em mim algo que adormecia: eu.

9 de março
Minha essência sempre morou nessa casa, embora eu não soubesse. Nunca me senti assim... tão cheio de... mim.

12 de março
Eu posso até andar pelado pela casa!

15 de março
Devo ir à cidade para resolver alguns problemas, pegar algumas coisas no meu apartamento e volto em dois ou três dias. Dessa vez eu levo o diário junto.

17 de março
Resolvi o que devia resolver e estou aproveitando o tempo aqui na cidade como nunca o fiz. Sinto-me muito bem. Eu acho que é isso que faz a vida, esse balanço, esse desequilíbrio de situações. Ficarei por mais dois dias aqui; é uma delícia ser um turista em sua própria cidade.

19 de março
Os prédios daqui falam comigo, eu juro! É lindo. Passeio pela cidade, sinto seu gosto, seu cheiro, e parece que faço parte dela. Estou voltando à casa. --------------------. Eu nunca acreditei em milagres. Bom, não sei se posso chamar isso que aconteceu de milagre. Agora com ela aqui, ao meu lado, dormindo, me sinto ainda melhor do que no dia em que me mudei para cá. Explicando: quando cheguei à casa, na pequena escada que leva à porta estava a minha namorada. Ela disse que o que fizera foi um grande erro e que não podia viver sem mim. Na hora eu até me esqueci de fazer um jogo duro e dizer que não dava a mínima pra ela; mas a verdade é que ainda a amo, e muito. Eu disse isso para ela e ela pulou em meus braços. Agora estamos aqui, ela dormindo, e eu escrevendo isso... Finalmente sinto-me pleno, de fato.


Os excertos àcima mostram a ruína e a guinada na vida do antigo dono da casa; guinada essa que durou pouco tempo. Na noite de 19 de março, enquanto Ele e sua namorada dormiam, o eletricista que trabalhara na casa ateou fogo à mesma. Ele e sua namorada se acordaram e tiveram tempo de sair da casa. Na escada que levava à porta estava sentado o eletricista. Este, ao ver Ele, desferiu sete facadas na região abdominal do dono da casa. Enquanto Ele morria, o eletricista disse que Ele não poderia ter feito o que fez a ele e ao pintor; disse que ambos se amavam e precisavam do dinheiro do pagamento de mais um mês para que fugissem para o Chile. O jovem Ele estava morto. A namorada do dono da casa conseguiu fugir envolta em um lençol branco; atualmente está em um casamento aberto com o engolidor de fogo de um circo mambembe.
A casa dEle, tão sonhada e desejada, não mais existe, as chamas lamberam toda sua estrutura.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

poemeto do lenço




por isso é que sempre quis
escrever um poema em um lenço:
existo, logo penso.
danço aos pés do acaso
até que se possa ver o ocaso.
danço como as vogais e consoantes
dançam em mim, um ser dissonante.
eu sou em película, eu sou em tom.
eu sou em prosa, quase não sou em verso,
e, se pensar bem, sou fora do tom.
por quê escrever algo
tão egocêntrico e misantropo?
porque sou assim ma non troppo.
existo, logo penso,
por isso é que sempre quis
escrever um poema em um lenço.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Sobre um complicado gesto

“Quando te aproximares da terra, abre os olhos
Américo Vespúcio – 1503

Haverá gesto mais simples que o abrir dos olhos? Na atual configuração da sociedade, a pergunta correta a ser feita é: será alguém capaz de abrir os olhos? Todos nós, Homo sapiens, julgamo-nos esclarecidos e racionais, mas não somos. Há alguns anos, em meu Brasil, grupos de seres esclarecidos e racionais decidiram mudar: puseram o nosso país nas mãos (uma delas incompleta) do salvador que o país tanto esperava, o homem do povo a quem o povo tanto desejava. Semi-iletrado, porém carismático, com a cara do povo, ele foi assunto e aclamado com se faz às divindades. Esse homem, quando era só um pobre homem, liderava turbas e as arrastava pelas ruas, a cantar o poder da união do povo e a protestar pelas "barbáries" que o governo cometia e a buscar seus direitos tão evidentes. Esse homem, liderando um povo enfurecido, destituiu um presidente. Agora, esse homem é presidente. Agora, onde andará aquele povo de outrora? Esse homem, agora frui da cornucópia de seu segundo mandato. O povo que o elegeu nunca teve anos tão felizes como esses do mandato do homem a quem me refiro: esse povo frui de outra cornucópia que consiste em comer, dormir, trepar e receber um mísero dinheiro por cada filho produzido; sua cornucópia não é nada perto daquela do presidente. Já o povo que não elegeu o presidente não se sente nem um pouco alegre. É certo que a história desse Brasil varonil não é um perfeito exemplo de retidão e bom comportamento, mas, como o próprio presidente diz: "nunca, na história desse país", a putaria foi tão grande. Sempre se roubou, mas jamais como hoje. Roubar deixou de ser crime ou pecado, roubar virou modalidade esportiva. O povo paga, à duras penas, impostos que são estupros aos bolsos; impostos esses que destinar-se-iam a melhorias por todo o país. E, de fato, os impostos são usados para melhorias, só que são melhorias nas casas, apartamentos e casas de cães de políticos por todo esse Brasil. Oxalá que esse dinheiro todo fosse roubado como deve-se roubar de acordo com a cartilha desse crime: discretamente. No entanto, como já disse, por ter virado modalidade esportiva, o roubo é realizado mormente em grandes arenas às quais dá-se os nomes de assembleias, congressos, palácios e plenários. O povo assiste, pacientemente, a esses torneios de roubo, porém assiste com os olhos fechados. Castelos são construídos, apartamentos funcionais decorados, e o povo continua de olhos fechados. A arcaica política do pão e circo dos antigos governos romanos, vem sendo utilizada como nunca: até quem não tem dinheiro para alimentar o seu filho possui uma televisão em casa, através da qual entorpecem-se com intermináveis histórias utópicas e jogos intermináveis. Assiste-se a tudo com olhos fechados.
Ó povo, abri os vossos olhos! Não temos todo o tempo do mundo. Só temos o curto tempo de um abrir de olhos.

Pequenas mudanças de ordem orçamentária

A partir de hoje, este blógue destinar-se-á não somente a textos fictícios de minha (incrível, magnífica, magistral, estupenda, esfuziante, maravilhosa e egoísta) autoria, mas também a pequenos comentários sobre a vida, o universo e todas as coisas que nos perturbam; ou seja, sintam-se em casa.