terça-feira, 28 de setembro de 2010

autolimpante

dois dias depois ele abriu todas as portas
respirou o ar das janelas e batucou nas panelas
dirá a vizinhança pobrezinho bateu as tortas
[botas

- trazia ele a voz embargada
como visse a mãe enterrada

terça-feira, 21 de setembro de 2010

cosido

eis que o amante transversal
suas roupas arrancava nu ficava
a amar-se em meio ao milharal
por que arfava por que cantava
a si mesmo num latido salarial
quem lá o via ébrio porque gritava
talvez se esquecesse da vidinha semanal
imponente oráculo do enfado que marchava
e que tolhia qualquer novo ímpeto seminal
talvez se esquecesse da vidinha que trepava
por sobre as cercas das ideias num arroubo visceral
dominada por um santo que lhe urrava
quem lá o via ébrio pensava em carnaval
um espetáculo de luzes interiores que brindava
a uma vida semiaberta a portugal
de um louco aparente que penava
é que vêm as belas ideias como um coral
de multicolor anima que de ser brincava
de um aparente louco terminal
sai a redenção

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

intermezzo de um fumista

das dores da consciência
depois do não-pensar e do tudo abreviar
eu desenho uma bela reticência

às vezes eu até penso em ser um radar
mas me escapa me foge a onisciência
e por fim me vejo atado ao eterno-errar

talvez o maior problema seja a impotência
do ser do tremer do rir do vestir do mastigar
a fim de inquietar-me toda a velha malemolência

do ser do tremer do rir do vestir do mastigar
eu desenho uma bela reticência
e por fim me vejo atado ao eterno-errar

domingo, 5 de setembro de 2010

pedido de alforria

não desejo teu amor
nem teu sentimento
desejo arrancar teu pudor
sem discernimento

embora saiba que não sem dor
e um quê de sofrimento
porque deles vem o alento
a uma alma vazia de vigor

não deves vir sem calor
ou querendo autoconhecimento
isso não se trata de amor
é apenas pé-de-vento

busco em ti o furor
que perdi numa rota de tormento
busco ser o vencedor
do teu país do sortimento

vem que não haverá entristecimento
ninguém mais saberá do teu fulgor
vem que te mostrarei o encantamento
dessa vontade sem senhor

desejo arrancar teu pudor
não desejo teu amor
nem teu sentimento
sem discernimento