A tênue linha que separa a vida, da morte (do sono eterno, do derradeiro descanso, da eterna paz, chame como quiser) sempre me fascinou. Imaginar que agora estou aqui, escrevendo, mas depois, ao colocar o pé na rua eu posso ser atropelado, enfartar ao atravessar a rua; é incrível! Não que ache incrível a idéia de morrer, mas o que me impressiona é a fragilidade da vida: algo tão forte, imponente, e - desculpe-me pelo trocadilho - cheio de vida; pode simplesmente se esvair caso você resolva nadar em um lago cheio de tubarões enquanto sua perna sangra incessantemente.
Há pouco tempo, um conhecido meu me contou a seguinte história: noivo e noiva acabam de se casar no cartório, e vão com toda a família comemorar em um restaurante. Foram com cinco carros. No caminho do restaurante, um caminhão cheio de gasolina vai ultrapassar outro caminhão na estrada, e acaba colidindo com o primeiro dos cinco carros, e assim, os outros quatro acabam colidindo-se sucessivamente. Morreram quinze pessoas, todas da mesma família, o único sobrevivente foi o pai da noiva. Após ouvir essa bela e acalentadora história, eu disse para a pessoa que me contou a história: "Pense positivo: pelo menos foi quase toda a família, assim o velho não precisa gastar muito e ocupar muito espaço mandando fazer tumbas individuais, ele que faça um só mausoléu e lá coloque todo mundo!" Logicamente, meu amigo me olhou com uma cara estranha depois que eu falei isso, e assim o fizeram as outras pessoas presentes. Porém, creio eu, que casos como esse são melhores, afinal, se uma família inteira morre, quem vai se ocupar chorando, certo? Isso não é pessimismo, somente pragmatismo! E olha que o pessimismo é uma de minhas qualidades mais atraentes...
"Viva todo dia como se fosse seu último dia"; "Viva hoje como se fosse morrer amanhã", quantos já não ouviram tais provérbios? Mas, pelo menos para mim, as coisas não funcionam assim. Se eu fosse viver todos os dias pensando que no outro eu morreria, eu certamente ficaria em casa, sentado no sofá da sala, de pijamas, encarando a parede branca, chorando ou tentando ler Ulisses, e isso realmente não seria um bom dia. Creio que ninguém sairia pela rua sorrindo e saltitando enquanto pensa: "La-di-da, amanhã vou morrer! La-di-da, minhas dívidas vou pagar!"
Para suprir a falta de algo (ou para eliminar um certo medo), as religiões criam suas teorias para o após-morte: paraíso, reencarnação, inferno, encontro com alienígenas, entre outras. Acho válido isso, afinal ninguém gosta de encarar o fato de que algum dia irá virar adubo, fará companhia para vermes subterrâneos. Mas a questão é: o que é melhor, adorar o Senhor Todo Poderoso para o resto da eternidade e escrever pra sempre o nome d'Ele com letra maiúscula; reencarnar em algum país sub-subdesenvolvido na África; passar eterno calor no inferno e ter que suportar as péssimas piadas do príncipe das trevas; viver alegre e contente com seres verdes, que possuem antenas e que utilizarão seus órgãos para experiências; ou simplesmente ser enfiado num caixão e lá poder deteriorar livremente sem ninguém perturbando?
Coco Channel e Henry Ford foram dois dos principais entusiastas do preto, até porque eles certamente sabiam da propriedade chic que o preto provoca nas pessoas e objetos. Agora me explique: quem decidiu que a cor do luto, tem que ser o preto? Acho injusto isso, deveriam ter feito uma votação pra saber a opinião das pessoas sobre isso. Eu certamente votaria no fuchsia, visto que essa é uma cor de tonalidade indefinida, com propósito indefinido e é uma cor mui feia; seria bom, afinal não é todo dia que se sai em luto, e quando se saísse de luto (todos trajando fuchsia) haveria a correta representação de algo ruim e desagradável, que é o luto.
No livro As Intermitências da Morte, José Saramago escreve sobre um dia, no qual ninguém morre. Acho que se ninguém morresse por somente um dia, não seria muito preocupante, mas eu fico imaginando como seria se, desde o início de tudo, ninguém tivesse morrido. Certamente, estaríamos todos morando em cubículos e nos apertando para caber em um só planeta. Mas isso não me preocupa, o que me preocupa é: se ninguém tivesse morrido até hoje, haveria lugar pra jogar o lixo?
"No dia seguinte ele acordou morto." Expressão geralmente usada na explicação da morte de uma pessoa que morreu enquanto dormia. Desde que me conheço por gente eu ouço tal expressão, porém - e essa é para mim uma das mais intrigantes questões da humanidade - como pode alguém "acordar morto"? Essa pergunta continua sem explicação até hoje, após anos de uso. Mas quem sabe no dia em que eu acordar morto alguém encontre a explicação.
Na Pré-história, se morria por conta do ataque de um tigre dente-de-sabre. Na Idade Antiga, se morria pelos deuses. Na Idade Média, se morria pela peste negra. Na Idade Moderna, se morria dentro de fábricas na Inglaterra. No início da Idade Contemporânea, se morria em uma explosão atômica. Nos anos noventa, se morria por overdose de heroína. Hoje em dia, se morre por overdose de impostos.
O que poderia levar alguém a, depois de anos cursando medicina, tornar-se um daqueles doutores que fazem autópsias (ou dentista, dá no mesmo)?
quarta-feira, 25 de junho de 2008
quinta-feira, 12 de junho de 2008
Logo Eu?
Lei de Murphy. Eis uma lei - uma das poucas - que é cumprida, não por seres humanos, e sim por um garoto malcriado chamado Destino. Quando tudo parece estar bom, quando você pensa "Ah!, agora sim vou ficar bem, calmo e tranqüilo.", tenha certeza, meu caro, não vai melhorar, você não vai ficar tranqüilo. E não, não me desculpe pela franqueza, sou realista, e por conseqüência, também sou pessimista.
Já cansei de pessoas que exemplificam a lei de Murphy, como "a fila do lado sempre anda mais rápido, e quando você muda pra ela, a outra que começa a andar mais rápido". Portanto, a partir de agora, quando alguém me questionar sobre a lei de Murphy, usarei o seguinte facto:
Era um dia normal, tudo que podia acontecer de errado para Ele havia acontecido - dia estranho, seria se algo de realmente bom acontecesse.
Ele sentou-se ao computador, mas, logo viu o horário e lembrou-se que tinha que sair. Foi até o armário, onde levou um certo tempo para achar a roupa que vestiria. Trocou de roupa rapidamente (gostei de como soou isso "roupa rapidamente". Experimente falar isso rápida e repetidamente), foi ao banheiro, escovou os dentes, voltou ao quarto e viu que era hora.
Como sempre, estava um tanto quanto atrasado. Foi juntado as coisas e jogando-as desajeitadamente na mala, saiu do quarto, foi à sala, catou a chave em meio a algumas contas a pagar, trancou a porta (também desajeitadamente. Tudo que Ele faz pode vir acompanhado do advérbio supracitado).
Saiu em direção à rua, mais especificamente, ao ponto do ônibus. Por alguns instantes aguardou a condução pública. Ao avistar o grande automóvel de cor chamativa, levantou-se e ficou em pé, a fim de o motorista do bonde, ver e parar para Ele poder entrar.
O grande automóvel parou (não, ele não parou. Ao dizer "parou", eu quis exprimir a seguinte idéia: "o bonde foi freando, de modo que sua velocidade foi diminuindo até chegar a uma velocidade na qual qualquer ser humano seria capaz de alcançá-lo, menos Ele." Vale lembrar, que o automóvel não parou, continuou em movimento enquanto Ele tentava colocar os pés, desajeitadamente, nos degraus.) Ele entrou, desajeitadamente, no ônibus. Ao olhar para o rosto do condutor, Ele notou um certo sadismo presente naqueles olhos proletários.
Ele andou desajeitadamente pelo ônibus, até achar um assento que mais lhe agradasse. Ele escolheu aquele lugar, porquê calculou meticulosamente (ou, se preferir, desajeitadamente) que ninguém se sentaria no assento da frente, ou no de trás. Porém, como tudo na vida de nosso desajeitado-mor, o cálculo deu errado, pois logo depois que entrou, uma mulher (mulher essa que, enquanto eu falava com Ele para poder transcrever-lhes essa magnífica parábola, Ele se referia à ela como "a filha da puta com gripe", e também "a desgraçada") sentou-se no assento que havia atrás d'Ele. Ele sentiu-se um pouco incomodado com isso, tendo em vista o facto de que Ele apresentava algumas neuroses relativas à pessoas, à limpeza, à organização, logo você verá o porquê desse meu comentário a respeito de suas psicopatias em potencial.
A mulher estava com gripe, ou qualquer uma dessas doenças que assolam (ao dizer "doenças que assolam, quis dizer algo como "ao sentir a primeira dor de cabeça e antes mesmo de espirrar ou tossir, a pessoa liga ao seu emprego dizendo que não pode ir devido à uma fortíssima gripe") a população no inverno. E Ele estava com uma blusa que tem a gola um pouco baixa, logo, sua nuca estava um pouco à mostra.
A mulher começa a tossir. Tossir. Tossir. Tossir. Tossir. Só que, a mulher não tossia como qualquer outra mulher normal e decente na face da Terra. A mulher tosse sem tampar a boca com a sua mão.
Ele sente um certo "ventinho" em sua nuca. Ele sente algo "molhadinho" em sua nuca. À essa altura, Ele está de uma cor, com a qual não conseguia-se distinguir entre ele e o assento. Ele pensa em olhar para trás, mas tem medo que ela tussa na exata hora em que Ele olharia para trás. Ele já não consegue mais se mexer, porquê imagina aquelas bactérias oriundas da mucosa bucal da indistinta mulher, entrando em seus poros, e assim, pouco a pouco, infiltrando em seu organismo.
Como se não bastasse, a mulher tosse de novo, e novamente Ele sente o "ventinho" e o "molhadinho". Ele estava nesse momento, impassível, por exemplo, se uma bomba nuclear fosse detonada em sua frente, ele continuaria ali, parado, com aquela expressão perplexa e sentindo aquelas bactérias e vírus caminhando por sua nuca como se fossem tarântulas ansiosas por penetrarem suas perfeitas células.
A mulher tosse novamente, e novamente, e novamente, até que, a raiva d'Ele foi crescendo, num misto de ira e transtorno obssessivo compulsivo. Ele vira-se para a mulher detrás, fulmina-a com olhos cheios de fogo e neurose, olhos que nesse momento seriam capazes de congelar a própria Medusa. Ele diz para a mulher:
- Será que não dá pra tossir com a mão na frente, querida?
E a mulher, não notando, ou fingindo que não notava a fúria nos olhos d'Ele, respondeu:
- Ai, me desculpa, é que eu tô gripada.
"Eu notei que tu tá gripada, sua puta anti-higiênica!" pensou Ele.
- Então, dá próxima vez, coloca a mão na frente, por favor. - por incrível que pareça, Ele ainda tentou disfarçar a cólera com alguma polidez que ainda lhe sobrava.
Ele virou-se, vagarosa e desajeitadamente, no seu assento. Mesmo depois de ter falado para a mulher sobre o facto da mão na boca, Ele esperava que a mulher tossisse de volta, e fazendo assim, que a colônia bacteriana em sua nuca aumentasse.
Porém, a mulher, como que tomada por uma súbita solidariedade ("súbita solidariedade", também é engraçado falar isso), muda-se de lugar, e vai para o fundo da condução pública.
Ele olha para trás, mas não acredita. Olha novamente e nota que é verdade: a vaca gripada foi embora. Ele sorri, desajeitadamente.
O trajeto torna-se tranqüilo de repente, e Ele relaxa (com "Ele relaxa", entenda-se "Ele pega seu lenço e limpa a nuca infectada e depois joga o lenço pela janela").
Estava tudo bem. Estava tudo bem. Estava tudo bem. avatsE tudo bem.
Lógicamente, tudo não continua bem, mas prossegue seu ritmo desajeitado.
Ao sair do ônibus, Ele respira o ar poluído da cidade, ah!, aquelas doces moléculas de carbono entravam suavemente em suas narinas.
Quando vê o bonde deixar o ponto, ele acena para a mulher, dizendo algo do gênero de: "Tomara que você vá hoje ao médico, descubra que tem tuberculose em um nível avançado."
Ele suspira aliviado, olha para os lados, e continua andando pela rua. Depois de andar uns cinco metros, ele pára passa a mão em suas costas, olha para cima, olha para baixo, olha para trás. Passa de novo a mão nas costas. "Cadê a merda da minha mala?" Pensa o desajeitado.
Já cansei de pessoas que exemplificam a lei de Murphy, como "a fila do lado sempre anda mais rápido, e quando você muda pra ela, a outra que começa a andar mais rápido". Portanto, a partir de agora, quando alguém me questionar sobre a lei de Murphy, usarei o seguinte facto:
Era um dia normal, tudo que podia acontecer de errado para Ele havia acontecido - dia estranho, seria se algo de realmente bom acontecesse.
Ele sentou-se ao computador, mas, logo viu o horário e lembrou-se que tinha que sair. Foi até o armário, onde levou um certo tempo para achar a roupa que vestiria. Trocou de roupa rapidamente (gostei de como soou isso "roupa rapidamente". Experimente falar isso rápida e repetidamente), foi ao banheiro, escovou os dentes, voltou ao quarto e viu que era hora.
Como sempre, estava um tanto quanto atrasado. Foi juntado as coisas e jogando-as desajeitadamente na mala, saiu do quarto, foi à sala, catou a chave em meio a algumas contas a pagar, trancou a porta (também desajeitadamente. Tudo que Ele faz pode vir acompanhado do advérbio supracitado).
Saiu em direção à rua, mais especificamente, ao ponto do ônibus. Por alguns instantes aguardou a condução pública. Ao avistar o grande automóvel de cor chamativa, levantou-se e ficou em pé, a fim de o motorista do bonde, ver e parar para Ele poder entrar.
O grande automóvel parou (não, ele não parou. Ao dizer "parou", eu quis exprimir a seguinte idéia: "o bonde foi freando, de modo que sua velocidade foi diminuindo até chegar a uma velocidade na qual qualquer ser humano seria capaz de alcançá-lo, menos Ele." Vale lembrar, que o automóvel não parou, continuou em movimento enquanto Ele tentava colocar os pés, desajeitadamente, nos degraus.) Ele entrou, desajeitadamente, no ônibus. Ao olhar para o rosto do condutor, Ele notou um certo sadismo presente naqueles olhos proletários.
Ele andou desajeitadamente pelo ônibus, até achar um assento que mais lhe agradasse. Ele escolheu aquele lugar, porquê calculou meticulosamente (ou, se preferir, desajeitadamente) que ninguém se sentaria no assento da frente, ou no de trás. Porém, como tudo na vida de nosso desajeitado-mor, o cálculo deu errado, pois logo depois que entrou, uma mulher (mulher essa que, enquanto eu falava com Ele para poder transcrever-lhes essa magnífica parábola, Ele se referia à ela como "a filha da puta com gripe", e também "a desgraçada") sentou-se no assento que havia atrás d'Ele. Ele sentiu-se um pouco incomodado com isso, tendo em vista o facto de que Ele apresentava algumas neuroses relativas à pessoas, à limpeza, à organização, logo você verá o porquê desse meu comentário a respeito de suas psicopatias em potencial.
A mulher estava com gripe, ou qualquer uma dessas doenças que assolam (ao dizer "doenças que assolam, quis dizer algo como "ao sentir a primeira dor de cabeça e antes mesmo de espirrar ou tossir, a pessoa liga ao seu emprego dizendo que não pode ir devido à uma fortíssima gripe") a população no inverno. E Ele estava com uma blusa que tem a gola um pouco baixa, logo, sua nuca estava um pouco à mostra.
A mulher começa a tossir. Tossir. Tossir. Tossir. Tossir. Só que, a mulher não tossia como qualquer outra mulher normal e decente na face da Terra. A mulher tosse sem tampar a boca com a sua mão.
Ele sente um certo "ventinho" em sua nuca. Ele sente algo "molhadinho" em sua nuca. À essa altura, Ele está de uma cor, com a qual não conseguia-se distinguir entre ele e o assento. Ele pensa em olhar para trás, mas tem medo que ela tussa na exata hora em que Ele olharia para trás. Ele já não consegue mais se mexer, porquê imagina aquelas bactérias oriundas da mucosa bucal da indistinta mulher, entrando em seus poros, e assim, pouco a pouco, infiltrando em seu organismo.
Como se não bastasse, a mulher tosse de novo, e novamente Ele sente o "ventinho" e o "molhadinho". Ele estava nesse momento, impassível, por exemplo, se uma bomba nuclear fosse detonada em sua frente, ele continuaria ali, parado, com aquela expressão perplexa e sentindo aquelas bactérias e vírus caminhando por sua nuca como se fossem tarântulas ansiosas por penetrarem suas perfeitas células.
A mulher tosse novamente, e novamente, e novamente, até que, a raiva d'Ele foi crescendo, num misto de ira e transtorno obssessivo compulsivo. Ele vira-se para a mulher detrás, fulmina-a com olhos cheios de fogo e neurose, olhos que nesse momento seriam capazes de congelar a própria Medusa. Ele diz para a mulher:
- Será que não dá pra tossir com a mão na frente, querida?
E a mulher, não notando, ou fingindo que não notava a fúria nos olhos d'Ele, respondeu:
- Ai, me desculpa, é que eu tô gripada.
"Eu notei que tu tá gripada, sua puta anti-higiênica!" pensou Ele.
- Então, dá próxima vez, coloca a mão na frente, por favor. - por incrível que pareça, Ele ainda tentou disfarçar a cólera com alguma polidez que ainda lhe sobrava.
Ele virou-se, vagarosa e desajeitadamente, no seu assento. Mesmo depois de ter falado para a mulher sobre o facto da mão na boca, Ele esperava que a mulher tossisse de volta, e fazendo assim, que a colônia bacteriana em sua nuca aumentasse.
Porém, a mulher, como que tomada por uma súbita solidariedade ("súbita solidariedade", também é engraçado falar isso), muda-se de lugar, e vai para o fundo da condução pública.
Ele olha para trás, mas não acredita. Olha novamente e nota que é verdade: a vaca gripada foi embora. Ele sorri, desajeitadamente.
O trajeto torna-se tranqüilo de repente, e Ele relaxa (com "Ele relaxa", entenda-se "Ele pega seu lenço e limpa a nuca infectada e depois joga o lenço pela janela").
Estava tudo bem. Estava tudo bem. Estava tudo bem. avatsE tudo bem.
Lógicamente, tudo não continua bem, mas prossegue seu ritmo desajeitado.
Ao sair do ônibus, Ele respira o ar poluído da cidade, ah!, aquelas doces moléculas de carbono entravam suavemente em suas narinas.
Quando vê o bonde deixar o ponto, ele acena para a mulher, dizendo algo do gênero de: "Tomara que você vá hoje ao médico, descubra que tem tuberculose em um nível avançado."
Ele suspira aliviado, olha para os lados, e continua andando pela rua. Depois de andar uns cinco metros, ele pára passa a mão em suas costas, olha para cima, olha para baixo, olha para trás. Passa de novo a mão nas costas. "Cadê a merda da minha mala?" Pensa o desajeitado.
terça-feira, 10 de junho de 2008
Hoje é o Primeiro Dia do Resto da sua Vida
Meu rosto estampava todos os jornais e revistas, fui até chamado, por um desses jornais, de "a nova Shirley Temple, porém, com um pênis."
A verdade é que o povo adora uma criança que dança, canta, sapateia, atua e limpa a casa como um adulto normal (normal?). E eu fui isso durante alguns anos. Meu nome era sinônimo de lucro, e por conta disso eu era disputado à tapas por empresas que queriam renovar suas campanhas publicitárias, até uma empresa de cigarros me procurou (já imaginou uma criança loura, de cachos balançantes, cantando e dançando, e cantando numa propaganda de cigarros? Pois eu fiz isso!), e reza a lenda, que os lucros dessa empresa aumentaram por minha causa.
Se você ainda não sabe quem eu sou, vou lhe contar um pouco de minha história, para maiores esclarecimentos: Nasci no interior do Espírito Santo, em 1967. Meu pai era pedreiro e minha mãe era parteira (possuía tamanha experiência, que, contam algumas velhinhas da vila, que minha mãe fez o próprio parto e depois ainda fez um chá de camomila), e ao contrário do que dizem muitos artistas, na minha família não havia ninguém que possuísse alguma espécie de ligação com as artes, logo vê-se que minhas incríveis técnicas, foram desenvolvidas por mim mesmo. Saí do meu vilarejo quando tinha treze meses (eu e minha família fomos expulsos de lá, pois meu pai andava alisando as galinhas do vizinho), e fui parar no Rio de Janeiro algum tempo depois (mais precisamente, quando completei dois anos e tanto, afinal fomos de bicicleta. Só uma bicicleta). No Rio, tive a vida que toda criança pobre tem, morei em um barraco numa favela, o qual com cada chuva ou ventania, saía voando e eu tinha que rolar morro abaixo para alcançá-lo e depois reconstruir minha moradia; também cometia alguns pequenos delitos para sobreviver (traficava botes salva-vidas). Vivi "normalmente" até os quatro anos, quando um produtor de filmes norte-americano veio visitar o Rio, e num passeio à favela, me viu sapateando em uma esquina e me puxou para dentro do seu carro. Um dia depois estava em NY com ele. Lá, aprimorei minhas habilidades com aulas de dança, canto e atuação. No meu aniversário de seis anos, um amigo de meu pai seqüestro-adotivo, que produzia musicais, veio me visitar e me convidar para integrar o elenco de "Apalpando o Palco", a história de um menino cego que aprende a sapatear, cantar e aparar gramas, para esquecer os problemas ocasionados pela falta de visão. E acabei sendo o menino, papel principal! O filme foi um sucesso, e eu com seis anos já recebia propostas de casamento. Depois desse filme, fiz outros dois mega-sucessos: "Papai-Polvo", filme que conta a vida de um menino que uma vez naufragou no meio do Pacífico, e acabou no fundo do oceano, na cidade de Polvorosa, onde foi criado por um polvo; e o elogiadíssimo "A Fábrica de Pirulitos do Sr. Stein", que mostra como um homem judeu conseguiu se disfarçar de piruliteiro para escapar dos nazistas. Uma semana depois da estréia de "A Fábrica...", meu pai seqüestro-adotivo morreu por conta de um infarto e um derrame (que aconteceram simultaneamente). Fiquei muito abalado e passei três meses no ostracismo, mas mesmo assim, o povo não me esqueceu, até me ajudaram mandando cartas e bombons. Após essa triste fase em minha vida, voltei com tudo em uma releitura da tragédia de Tróia, intitulada de "O Coelhinho Aquiles e seus Amiguinhos", nesse filme intepretei Aquiles, um inocente coelhinho-soldado que mata todos com sua arma secreta: o maxixe. (Esqueci de mencionar que, após a morte de meu pai seqüestro-adotivo, o seu amigo produtor de musicais, me adotou, a sua nova galhinha dos ovos de ouro). Mas foi com "Os Meninos do Arco-Íris contra o Vilanesco Sr. Stein", a continuação de "A Fábrica...", nesse filme, o Sr. Stein deixa de ser o judeu sofredor e vira o vilanesco diretor da Escola do Arco-Íris. Nesse filme minha carreira foi catapultada e pude ter meu trabalho reconhecido também fora dos EUA. O filme foi aclamado por público e crítica, e foi até exibido no circuito competitivo de Cannes (lá encontrei Gene Kelly, ele disse que finalmente viu alguém recapturar o espírito dos musicais). Depois de "Os Meninos...", fiz várias campanhas publicitárias para empresas, e todas tiveram um lucro maior do que o esperado, graças ao sorridente rosto de um menino loiro e de olhos azuis estampado em seus produtos. Ganhei muito dinheiro, me tornei o mais jovem milionário dos EUA. Fiz filmes como "Confete!"; "Viva La Vida en Las Vegas"; "A Sorveteria do Amor"; "Travessuras na UTI"; "Amigo Amish"; "Maravilhas Modernas de Mademoiselle Marion"; "Um Dia no Sítio da Alegria"; "Cantando com o Proletariado" e uma versão musical de "O Crime do Padre Amaro" - só para citar os maiores sucessos, pois eu fazia, em média, quinze filmes por mês. Porém, a idade foi chegando e as ofertas de trabalho foram desaparecendo. Já com dezesseis anos de idade, os quinze filmes mensais se tornaram somente um por bimestre. Meu rosto e doçura infantis se foram, e assim, ninguém mais me queria, de repente todos me esqueceram. Me vi desempregado, mas ainda bem que havia guardado algumas economias. Com dezenove anos, ingressei no cinema pornô, só o que sobrava. O salário era razoável, mas como dizem por aí, eu unia o útil ao agradável. Consegui certo reconhecimento na indústria pornô, devido ao meu conteúdo, se é que você me entende. Fiz cinqüenta e três filmes num intervalo de quatro anos. No ano passado voltei ao Brasil, e fiquei trabalhando como caixa de um mercado, lá quase ninguém me reconhecia, exceto por alguns que me conheciam pelos musicais ou pelos pornôs, mas nunca me senti envergonhado por causa desse reconhecimento sexual, e já dizia um ex-companheiro meu de profissão: "antes que te conheçam pela maçaneta, do que pelo buraco da fechadura".
E cá estou eu, abaixo do Equador, onde não existe pecado, e nem dinheiro.
Se você conhece alguém que conhece alguém que conhece alguém, conte pra essa pessoa sobre a minha pessoa, mostre essa minha história, quem sabe assim volto para as telas.
Meus filmes são um pouco difíceis de se achar no meio comercial brasileiro, mas para os interessados, eles devem estar a venda em algum desses sites de leilão, onde as pessoas se desfazem do que já não lhes têm mais préstimo.
A verdade é que o povo adora uma criança que dança, canta, sapateia, atua e limpa a casa como um adulto normal (normal?). E eu fui isso durante alguns anos. Meu nome era sinônimo de lucro, e por conta disso eu era disputado à tapas por empresas que queriam renovar suas campanhas publicitárias, até uma empresa de cigarros me procurou (já imaginou uma criança loura, de cachos balançantes, cantando e dançando, e cantando numa propaganda de cigarros? Pois eu fiz isso!), e reza a lenda, que os lucros dessa empresa aumentaram por minha causa.
Se você ainda não sabe quem eu sou, vou lhe contar um pouco de minha história, para maiores esclarecimentos: Nasci no interior do Espírito Santo, em 1967. Meu pai era pedreiro e minha mãe era parteira (possuía tamanha experiência, que, contam algumas velhinhas da vila, que minha mãe fez o próprio parto e depois ainda fez um chá de camomila), e ao contrário do que dizem muitos artistas, na minha família não havia ninguém que possuísse alguma espécie de ligação com as artes, logo vê-se que minhas incríveis técnicas, foram desenvolvidas por mim mesmo. Saí do meu vilarejo quando tinha treze meses (eu e minha família fomos expulsos de lá, pois meu pai andava alisando as galinhas do vizinho), e fui parar no Rio de Janeiro algum tempo depois (mais precisamente, quando completei dois anos e tanto, afinal fomos de bicicleta. Só uma bicicleta). No Rio, tive a vida que toda criança pobre tem, morei em um barraco numa favela, o qual com cada chuva ou ventania, saía voando e eu tinha que rolar morro abaixo para alcançá-lo e depois reconstruir minha moradia; também cometia alguns pequenos delitos para sobreviver (traficava botes salva-vidas). Vivi "normalmente" até os quatro anos, quando um produtor de filmes norte-americano veio visitar o Rio, e num passeio à favela, me viu sapateando em uma esquina e me puxou para dentro do seu carro. Um dia depois estava em NY com ele. Lá, aprimorei minhas habilidades com aulas de dança, canto e atuação. No meu aniversário de seis anos, um amigo de meu pai seqüestro-adotivo, que produzia musicais, veio me visitar e me convidar para integrar o elenco de "Apalpando o Palco", a história de um menino cego que aprende a sapatear, cantar e aparar gramas, para esquecer os problemas ocasionados pela falta de visão. E acabei sendo o menino, papel principal! O filme foi um sucesso, e eu com seis anos já recebia propostas de casamento. Depois desse filme, fiz outros dois mega-sucessos: "Papai-Polvo", filme que conta a vida de um menino que uma vez naufragou no meio do Pacífico, e acabou no fundo do oceano, na cidade de Polvorosa, onde foi criado por um polvo; e o elogiadíssimo "A Fábrica de Pirulitos do Sr. Stein", que mostra como um homem judeu conseguiu se disfarçar de piruliteiro para escapar dos nazistas. Uma semana depois da estréia de "A Fábrica...", meu pai seqüestro-adotivo morreu por conta de um infarto e um derrame (que aconteceram simultaneamente). Fiquei muito abalado e passei três meses no ostracismo, mas mesmo assim, o povo não me esqueceu, até me ajudaram mandando cartas e bombons. Após essa triste fase em minha vida, voltei com tudo em uma releitura da tragédia de Tróia, intitulada de "O Coelhinho Aquiles e seus Amiguinhos", nesse filme intepretei Aquiles, um inocente coelhinho-soldado que mata todos com sua arma secreta: o maxixe. (Esqueci de mencionar que, após a morte de meu pai seqüestro-adotivo, o seu amigo produtor de musicais, me adotou, a sua nova galhinha dos ovos de ouro). Mas foi com "Os Meninos do Arco-Íris contra o Vilanesco Sr. Stein", a continuação de "A Fábrica...", nesse filme, o Sr. Stein deixa de ser o judeu sofredor e vira o vilanesco diretor da Escola do Arco-Íris. Nesse filme minha carreira foi catapultada e pude ter meu trabalho reconhecido também fora dos EUA. O filme foi aclamado por público e crítica, e foi até exibido no circuito competitivo de Cannes (lá encontrei Gene Kelly, ele disse que finalmente viu alguém recapturar o espírito dos musicais). Depois de "Os Meninos...", fiz várias campanhas publicitárias para empresas, e todas tiveram um lucro maior do que o esperado, graças ao sorridente rosto de um menino loiro e de olhos azuis estampado em seus produtos. Ganhei muito dinheiro, me tornei o mais jovem milionário dos EUA. Fiz filmes como "Confete!"; "Viva La Vida en Las Vegas"; "A Sorveteria do Amor"; "Travessuras na UTI"; "Amigo Amish"; "Maravilhas Modernas de Mademoiselle Marion"; "Um Dia no Sítio da Alegria"; "Cantando com o Proletariado" e uma versão musical de "O Crime do Padre Amaro" - só para citar os maiores sucessos, pois eu fazia, em média, quinze filmes por mês. Porém, a idade foi chegando e as ofertas de trabalho foram desaparecendo. Já com dezesseis anos de idade, os quinze filmes mensais se tornaram somente um por bimestre. Meu rosto e doçura infantis se foram, e assim, ninguém mais me queria, de repente todos me esqueceram. Me vi desempregado, mas ainda bem que havia guardado algumas economias. Com dezenove anos, ingressei no cinema pornô, só o que sobrava. O salário era razoável, mas como dizem por aí, eu unia o útil ao agradável. Consegui certo reconhecimento na indústria pornô, devido ao meu conteúdo, se é que você me entende. Fiz cinqüenta e três filmes num intervalo de quatro anos. No ano passado voltei ao Brasil, e fiquei trabalhando como caixa de um mercado, lá quase ninguém me reconhecia, exceto por alguns que me conheciam pelos musicais ou pelos pornôs, mas nunca me senti envergonhado por causa desse reconhecimento sexual, e já dizia um ex-companheiro meu de profissão: "antes que te conheçam pela maçaneta, do que pelo buraco da fechadura".
E cá estou eu, abaixo do Equador, onde não existe pecado, e nem dinheiro.
Se você conhece alguém que conhece alguém que conhece alguém, conte pra essa pessoa sobre a minha pessoa, mostre essa minha história, quem sabe assim volto para as telas.
Meus filmes são um pouco difíceis de se achar no meio comercial brasileiro, mas para os interessados, eles devem estar a venda em algum desses sites de leilão, onde as pessoas se desfazem do que já não lhes têm mais préstimo.
quarta-feira, 4 de junho de 2008
Quero que Vá Tudo pro Inferno
Minhas unhas,
meu cabelo,
o Lula,
a Lua,
minha rua,
meus vizinhos,
os carros,
o pagode,
o barulho da cidade,
o sol,
a merda,
a porra,
o medo,
a insolação,
a carne de soja,
o Tio Sam,
as baratas,
as prévias das eleições americanas,
as crianças com fome,
o deputado larápio,
a NASA,
o BOPE,
o Pelourinho,
a batucada,
os homicidas do português,
o rato que roeu a roupa do rei de Roma,
a vaca,
o pasto,
a marca,
o final de semana,
a licença maternidade,
o INSS,
a anarquia,
a democracia,
o comunismo,
o capitalismo,
o meio-ambiente,
a camada de ozônio,
a favela,
o futebol,
a antena,
o verbo de ligação,
a etiqueta,
a puta,
a freira,
o abacate,
o repolho,
a Luciana Gimenez,
o ônibus lotado,
o teatro vazio,
o estádio novo,
a biblioteca velha,
o vereador,
a Bíblia,
a bula,
a goma,
a Tela Quente,
a Sessão da Tarde,
o macaco em extinção,
o cadafalso,
a colina,
o solstício,
o equinócio,
a órbita,
a falta de dinheiro,
as milhas,
a erva cidreira,
a babosa,
o artista,
o imitador,
o cansaço,
o Patrick Swayze e seu câncer,
o intrínseco,
o extrínseco,
a coluna social,
os acomodados,
os agitadores,
a meia rasgada,
a Nike,
o Playstation,
o Lost,
a falta da presença,
a presilha,
a cueca,
a ceroula,
a calcinha,
o raio-x,
o gama,
o alfa,
o beta,
a hipotenusa,
os outdoors,
a propaganda política,
o rap,
o hip hop,
o repentista,
a carpideira,
o Paulo Coelho,
o Jornal Nacional,
a CNN,
o Canal Rural,
o cinema comercial,
a Blockbuster,
o léxico,
o gago,
o cego,
o manco,
o melancólico,
o burlesco,
o filantropo,
a unanimidade que é burra,
a marca de copo molhado na mesa de madeira cara,
o conceitual,
o enjôo,
os que lêem,
os que vêem,
o Zé Ninguém,
o homem sério que contava dinheiro,
o faroleiro que contava vantagem,
a namorada que contava as estrelas,
a moça triste que vivia calada,
a rosa triste que vivia fechada,
o velho fraco que se esqueceu do cansaço e pensou que ainda era moço pra sair no terraço e dançou,
a moça feia que debruçou na janela,
a marcha alegre que se espalhou na avenida,
a lua cheia que vivia escondida,
o Créu,
a fábula,
o móbile,
o vírus encubado,
o argentino,
o vestido Valentino,
a bolsa Victor Hugo,
o salto Prada,
a lente,
a escova,
aquilo que dói no meu dente,
o cão,
o chão,
o pão,
o são,
o louco,
o arroz,
o feijão,
o latino-americano,
o anglo-saxão,
o afro-brasileiro,
o ítalo-inglês,
a Rainha,
o castelo,
o feudo,
o dólar,
o real,
o euro,
o iene,
a coroa,
o marco,
o peso,
a configuração,
o motor,
o gato,
o ronronar,
a ruína,
a rosca,
a rolha,
a rajada,
o rapé,
o engenheiro,
o matemático,
o oceanógrafo,
o estilista,
a Gestapo,
o Bush,
a Margaret Thatcher,
o Tony Blair,
a Lady Di,
a Princesa de Mônaco,
o Canal de Suez,
a Faixa de Gaza,
o Tratado de Tordesilhas,
o Canal do Panamá,
o acarajé,
o vatapá,
o tucupi,
o tacacá,
a pitanga,
o pires,
o cortiço,
o mulato,
a moça com olhos de ressaca,
o verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver,
a inocência,
o guarani,
o sargento de milícias,
o bom fim,
o mau começo,
a floresta amazônica,
a festa junina,
os banheiros públicos,
a falta da cultura,
a presença do inútil,
o voto,
a UE,
o FBI,
a ONU,
a CUT,
o cara que matou a mãe do Bambi,
a bruxa que envenenou a maçã da Branca de Neve,
o sapato de cristal da Cinderela,
o espinafre do Popeye,
o porquinho que construiu a casa de palha,
o irmão do Rei Leão,
a Pequena Sereia,
o Brutus,
a velha que jogou o coração do oceano no mar,
o menino que vê gente morta,
o anjo que se joga do prédio pra comer a Meg Ryan,
os créditos iniciais,
os créditos finais,
e o fade out.
meu cabelo,
o Lula,
a Lua,
minha rua,
meus vizinhos,
os carros,
o pagode,
o barulho da cidade,
o sol,
a merda,
a porra,
o medo,
a insolação,
a carne de soja,
o Tio Sam,
as baratas,
as prévias das eleições americanas,
as crianças com fome,
o deputado larápio,
a NASA,
o BOPE,
o Pelourinho,
a batucada,
os homicidas do português,
o rato que roeu a roupa do rei de Roma,
a vaca,
o pasto,
a marca,
o final de semana,
a licença maternidade,
o INSS,
a anarquia,
a democracia,
o comunismo,
o capitalismo,
o meio-ambiente,
a camada de ozônio,
a favela,
o futebol,
a antena,
o verbo de ligação,
a etiqueta,
a puta,
a freira,
o abacate,
o repolho,
a Luciana Gimenez,
o ônibus lotado,
o teatro vazio,
o estádio novo,
a biblioteca velha,
o vereador,
a Bíblia,
a bula,
a goma,
a Tela Quente,
a Sessão da Tarde,
o macaco em extinção,
o cadafalso,
a colina,
o solstício,
o equinócio,
a órbita,
a falta de dinheiro,
as milhas,
a erva cidreira,
a babosa,
o artista,
o imitador,
o cansaço,
o Patrick Swayze e seu câncer,
o intrínseco,
o extrínseco,
a coluna social,
os acomodados,
os agitadores,
a meia rasgada,
a Nike,
o Playstation,
o Lost,
a falta da presença,
a presilha,
a cueca,
a ceroula,
a calcinha,
o raio-x,
o gama,
o alfa,
o beta,
a hipotenusa,
os outdoors,
a propaganda política,
o rap,
o hip hop,
o repentista,
a carpideira,
o Paulo Coelho,
o Jornal Nacional,
a CNN,
o Canal Rural,
o cinema comercial,
a Blockbuster,
o léxico,
o gago,
o cego,
o manco,
o melancólico,
o burlesco,
o filantropo,
a unanimidade que é burra,
a marca de copo molhado na mesa de madeira cara,
o conceitual,
o enjôo,
os que lêem,
os que vêem,
o Zé Ninguém,
o homem sério que contava dinheiro,
o faroleiro que contava vantagem,
a namorada que contava as estrelas,
a moça triste que vivia calada,
a rosa triste que vivia fechada,
o velho fraco que se esqueceu do cansaço e pensou que ainda era moço pra sair no terraço e dançou,
a moça feia que debruçou na janela,
a marcha alegre que se espalhou na avenida,
a lua cheia que vivia escondida,
o Créu,
a fábula,
o móbile,
o vírus encubado,
o argentino,
o vestido Valentino,
a bolsa Victor Hugo,
o salto Prada,
a lente,
a escova,
aquilo que dói no meu dente,
o cão,
o chão,
o pão,
o são,
o louco,
o arroz,
o feijão,
o latino-americano,
o anglo-saxão,
o afro-brasileiro,
o ítalo-inglês,
a Rainha,
o castelo,
o feudo,
o dólar,
o real,
o euro,
o iene,
a coroa,
o marco,
o peso,
a configuração,
o motor,
o gato,
o ronronar,
a ruína,
a rosca,
a rolha,
a rajada,
o rapé,
o engenheiro,
o matemático,
o oceanógrafo,
o estilista,
a Gestapo,
o Bush,
a Margaret Thatcher,
o Tony Blair,
a Lady Di,
a Princesa de Mônaco,
o Canal de Suez,
a Faixa de Gaza,
o Tratado de Tordesilhas,
o Canal do Panamá,
o acarajé,
o vatapá,
o tucupi,
o tacacá,
a pitanga,
o pires,
o cortiço,
o mulato,
a moça com olhos de ressaca,
o verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver,
a inocência,
o guarani,
o sargento de milícias,
o bom fim,
o mau começo,
a floresta amazônica,
a festa junina,
os banheiros públicos,
a falta da cultura,
a presença do inútil,
o voto,
a UE,
o FBI,
a ONU,
a CUT,
o cara que matou a mãe do Bambi,
a bruxa que envenenou a maçã da Branca de Neve,
o sapato de cristal da Cinderela,
o espinafre do Popeye,
o porquinho que construiu a casa de palha,
o irmão do Rei Leão,
a Pequena Sereia,
o Brutus,
a velha que jogou o coração do oceano no mar,
o menino que vê gente morta,
o anjo que se joga do prédio pra comer a Meg Ryan,
os créditos iniciais,
os créditos finais,
e o fade out.
Assinar:
Comentários (Atom)
