As coisas não terminam, elas param.
Por termos sido criados em meio a uma cultura cristã, crescemos com duas principais visões acerca do fim: o apocalipse e o término. A primeira diz que tudo converge para um final que será de acordo com a vida que tivemos: inferno ou paraíso. A segunda nos faz crer que tudo termina: morremos como em um filme mudo dos anos vinte, com caras e bocas e gestos e despedidas e lágrimas. A visão de término não diz respeito somente à morte mas também a outras áreas da vida cujos finais nos parecem tão distantes.
Se nos parecem distantes, é porque são tão distantes... inexistentes. Os finais como vemos em novelas e filmes comerciais não existem; nada acaba redondo. As coisas simplesmente param. Quem espera dizer adeus e eu te amo a todos antes de morrer pode se decepcionar: quantas pessoas tu conheces que disseram eu te amo antes de morrer?
Muitos podem não entender os bruscos cortes em filmes do Godard porque estão apegados a uma visão muito romântica ou muito cristã da vida. Os cortes secos em seus filmes representam a vida e as paradas que levamos: estamos a andar por um caminho e, de repente, cai uma parede em nossa frente. A religião nos diria que a parede foi um meio de Deus nos mostrar sua insatisfação em relação a nossas vidas e, por ser uma obra divina, nada podemos fazer senão rezar a fim de que Deus a remova. Um olhar realista veria a parede e constataria que é preciso fazer uma curva em seu caminho e passar ao lado dela. A parede pode ser um amor interrompido ou até um trabalho abortado.
Embora a visão da parada seja verdadeira, nos é difícil lidar com isso: tudo pode acabar agora.
Bom, pode até ser difícil, mas é necessário que aprendamos a viver a vida como ela é: um grande quadro cubista.
Para parar tudo isso que fui escrevendo, deixo-te com meu amado Manuel Bandeira e seu "A vida assim nos afeiçoa" em que ele traduz (muito melhor) tudo o que disse.
Se fosse dor tudo na vida,
Seria a morte o sumo bem.
Libertadora, apetecida,
A alma dir-lhe-ia, ansiosa: - Vem!
Quer para a bem-aventurança
Leves de um mundo espiritual
A minha essência, onde a esperança
Pôs o seu hálito vital;
Quer no mistério que te esconde,
Tu sejas, tão somente, o fim:
- Olvido, impertubável, onde
"Não restará nada de mim!"
Mas horas há que marcam fundo...
Feitas, em cada um de nós,
De eternidades de segundo,
Cuja saudade extingue a voz.
Ao nosso ouvido, embaladora,
A ama de todos os mortais,
A esperança prometedora,
Segreda coisas irreais.
E a vida vai tecendo laços
Quase impossíveis de romper:
Tudo o que amamos são pedaços
Vivos do nosso próprio ser.
A vida assim nos afeiçoa,
Prende. Antes fosse toda fel!
Que ao se mostrar às vezes boa,
Ela requinta em ser cruel...
quinta-feira, 25 de março de 2010
sábado, 20 de março de 2010
segunda-feira, 15 de março de 2010
abuso de poder número um
tudo podias
aquele poder magnético
tu o tinhas
além de qualquer senso estético
tu estavas
à frente da (minha só minha) multidão
tu caminhavas
nem em rima nem em canção
tu cabias
aquela (tácita) linha do equador
tu movias
meus olhos cansados
tu lias
a cada frêmito
tu gemias
aqueles olhos (tão teus)
tu expunhas
até porque
tudo podias
- não podes mais
- por quê?
- não se quer que ainda possas
- será?
- serias
aquele poder magnético
tu o tinhas
além de qualquer senso estético
tu estavas
à frente da (minha só minha) multidão
tu caminhavas
nem em rima nem em canção
tu cabias
aquela (tácita) linha do equador
tu movias
meus olhos cansados
tu lias
a cada frêmito
tu gemias
aqueles olhos (tão teus)
tu expunhas
até porque
tudo podias
- não podes mais
- por quê?
- não se quer que ainda possas
- será?
- serias
segunda-feira, 1 de março de 2010
elegia d'eu
"Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
- saudosa do que não faço
- do que faço, arrependida."
(Canção excêntrica, de Cecília Meireles)
nesse triste canto
quero de mim um pedaço deixar
não quero que seja lido com pranto
mas meu querer conhece bem o pesar
por toda a vida dancei
por toda a vida gemi
por toda a vida menti
por toda a vida amei
o canto escorre de mim
na verdade
sou eu quem escorre do canto
com medo da realidade
aquele lá era eu
sim assim imperfeito
este aqui sou eu
aquele da dor no peito
vivia desse jeito
como estrofes desconexas
de um poema malfeito
quero de mim um pedaço deixar
nesse triste canto
mas meu querer conhece bem o pesar
não me animo a um breve traço:
- saudosa do que não faço
- do que faço, arrependida."
(Canção excêntrica, de Cecília Meireles)
nesse triste canto
quero de mim um pedaço deixar
não quero que seja lido com pranto
mas meu querer conhece bem o pesar
por toda a vida dancei
por toda a vida gemi
por toda a vida menti
por toda a vida amei
o canto escorre de mim
na verdade
sou eu quem escorre do canto
com medo da realidade
aquele lá era eu
sim assim imperfeito
este aqui sou eu
aquele da dor no peito
vivia desse jeito
como estrofes desconexas
de um poema malfeito
quero de mim um pedaço deixar
nesse triste canto
mas meu querer conhece bem o pesar
Assinar:
Comentários (Atom)
