quarta-feira, 28 de outubro de 2009

da inevitável e infindável ciranda nacional

e cá estamos todos nós
valsando a dança dos sem voz
sair não conseguimos
mas não por falta de tentar
o que nos impede ainda não descobrimos
talvez seja essa orquestra que não para de tocar
muitos já tentaram a valsa deixar
homens de boina e damas de peignoir
em verdade vos digo que eles saíram
e em verdade também digo que nunca mais os viram
isso que dançamos é uma dança sem par
é mais uma ciranda maldita
cheia de homens de boina e damas de peignoir
talvez seja essa orquestra que não para de tocar
muitos já disseram que da música não gostam mais
e perguntar-me-ás tu "por que eles não saem?"
porque eles descobriram que a dança lhes apetece mais
e os filhos dos homens de boina e das damas de peignoir
aprendem a viver essa dança sem reclamar
e todos se perguntam
"quando a dança acabará?"
embora as cãs já apareçam
parece que o maestro jamais se cansará
pergunto-me no entanto
"e se um dia a orquestra parar
o que farão o que acontecerá
ao homem de boina e à dama de peignoir?"
mas o maestro não se parece cansar
por isso creio que cá sempre iremos estar
nessa dança sem par
que é mais uma ciranda maldita
cheia de homens de boina e damas de peignoir

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Sobre o traumatismo de Saramago

Sempre achei desnecessário e, talvez, desinteressante demais se pusesse aqui meus sentimentos e emoções e pensamentos de forma direta, crua; por isso, sempre os pus sob a máscara do lirismo. Mas, hoje, sinto que devo expor algo sublime; por favor, suportem este pequeno parágrafo. Acabo de chegar da primeira noite da sétima edição do Joinville Jazz Festival, e é esse o motivo do parágrafo. A noite começou com a banda do sexagésimo segundo batalhão de infantaria que trouxe todo aquele calor das big bands - e mostrou que até a plateia mais "seleta" sabe cantar Roupa Nova -; e a noite terminou com com Toninho Horta e seu quarteto, Toninho foi eleito por uma revista inglesa como o quinto maior guitarrista deste planeta azul. Mas foi o segundo concerto que rasgou minha alma. Foi a pianista Heloisa Fernandes. Ela, como quase todo bom músico brasileiro, é mais conhecida na terra do tio Sam do que aqui. Heloisa entrou no palco descalça e com um vestido branco e preto, e o piano a esperava. Sentou ao piano e abriu com um Pixinguinha e logo puxou um Hermeto Pascoal. Mas foram as suas composições que me tocaram. A terceira canção chama-se "Vou" e foi esta que abriu meus canais lacrimais. Suas mãos bailavam sobre as teclas e seu rosto mostrava toda a dor presente na composição. E em meu rosto caíam as lágrimas. Heloisa continuou com "Candeia", "Criança" e terminou com outra composição sua cujo nome me foge agora. Depois de uma apresentação sóbria e ao mesmo tempo emocionadíssima, a pianista deixou o palco sob aplausos que, se dependessem de mim, durariam toda a noite. Quando as pessoas dizem no palco que estão emocionadas por estar em tal lugar, geralmente mentem; mas os olhos de Heloisa mostraram que não mentia ao dizer que se sentiu honrada de estar no festival. Não me considero a pessoa mais dura do mundo, sempre choro com filmes e livros e canções; mas, Heloisa fez comigo o que só fizera Chopin, ela entrou lá na parte mais escura de mim e a trouxe à luz do piano. José Saramago em uma crônica sobre o livro "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez, disse que se a palavra "traumatismo" tivesse um bom significado, seria isso que o livro causara nele. E, portanto, digo que Heloisa causou em mim um enorme traumatismo.

Eis um trecho de "Candeia", não gravado por minha pessoa. Curto, mas dá para se ter uma ideia do poder da moça. Como não sei fazer direito essas coisas, deixo o link aí, a quem interessar.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

àquela, a (in)devida tradução

"Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?"
(Traduzir-se, de Ferreira Gullar)

meditei sobre como escrevê-la
arranquei do meu eu a vontade de trazê-la
(re)busquei em mim algo para descrevê-la
irritei-me por não haver maneiras de traduzi-la
nas minhas ondas fui pescá-la
a fim de consumi-la

mas nem assim consegui
organizar-me para que pudesse ver
(re)aparecer os versos da tradução
então parei de procurar e buscar
nesse instante é que me apareceu
a tal

a mim ela veio
numas palavras que se revelaram
irritantemente adequadas
(re)fiz o meu eu
através das tais palavras que mágicas não são
mas a descrevem como nenhuma outra: preto e verde

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Enfadonho

Visito-me amiúde. Isso de ser visitado por si mesmo é maravilhoso, embora difícil. Talvez o pior desse tipo de visita esteja nas incontáveis vezes em que se faz mister sair correndo. Não obstante tudo isso, as visitas são agradáveis. Dentro de mim já encontrei Bento Santiago e Brás Cubas; Jesus Cristo e Santo Agostinho; Groucho Marx e Pedro Almodóvar. Todo eles pareciam velhos conhecidos; debatiam ideias e tomavam café. O leitor mais arguto, talvez o portento de sua família, pode estar a se perguntar "Por quê diabos alguém escreveria isso? Por quê estou a lê-lo?" Caro portento, não sei; e se o soubesse, tenho certeza que não escreveria isso. Porque todas essas frases terminadas em ponto final são mais indagativas do que aquelas condecoradas com um ponto de interrogação. É certo que o ponto de interrogação acabou por levar toda a fama de ser o curioso entrevistador; enquanto isso, o ponto final, pobre sinal, sonha em também ser reconhecido pelas indagações, cansou-se de afirmar e de fechar o tempo todo; ele quer, como as interrogações, abrir portões na mente. Mas, só vê essa fadiga do ponto final, aquele que está cansado das respostas, aquele que percebe que, na maioria das vezes, as perguntas escondem profundidades às quais só se pode submergir depois de certas visitas a si mesmo. O enfado do ponto final é também partilhado pelas vírgulas que, maltratadas pelo tempo, cansaram de pausar e separar as coisas; elas querem ser como as aspas que, quando bem utilizadas, aqui talvez o leitor arguto saiba o que quero dizer, podem abrir novos mundos. No entanto, as aspas, portais de frases, estão cheias de abrir e fechar as coisas, elas sonham em ser mais simples, quem sabe pontos finais. Tu que estás a deitar os olhos por essas linhas, talvez te perguntes como sei desses cansaços gramaticais; e eu, com toda a certeza que grassa na atmosfera, te digo que vim a saber de tudo isso somente olhando na almas de tais sinais. "E sinais de pontuação têm alma?" Por me perguntares isso, posso perceber que não és tal portento. Mas, sim, caríssimo, os sinais de pontuação têm alma, quiçá maior que a de muita gente. E a almas deles já vem cansada, invejosa, rota e decrépita há muito. Desde que foram criados ninguém lhes deu descanso, estão sedentos por novos ares. "Então, talvez, a dita nova reforma ortográfica lhes traga novos ares." Voltaste a ser o portento de outrora! orgulho-me disso. Estás certo, leitor; mas, como conheço os travessos sinais, sei que, não demora, já estarão, outra vez, cheios de fadiga. Bom, meu arguto leitor atencioso, vejo que chegaste ao final de um egocêntrico discurso que começou do nada e ao nada fadado está. Saiba que o autor das frases acima, à essa altura, já está com os dedos moídos e tem uma vida a tocar e, assim como os sinais de pontuação, já está começando a se importunar com as coisas e precisa de uma nova reforma.