segunda-feira, 29 de junho de 2009

poemeto do lenço




por isso é que sempre quis
escrever um poema em um lenço:
existo, logo penso.
danço aos pés do acaso
até que se possa ver o ocaso.
danço como as vogais e consoantes
dançam em mim, um ser dissonante.
eu sou em película, eu sou em tom.
eu sou em prosa, quase não sou em verso,
e, se pensar bem, sou fora do tom.
por quê escrever algo
tão egocêntrico e misantropo?
porque sou assim ma non troppo.
existo, logo penso,
por isso é que sempre quis
escrever um poema em um lenço.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Sobre um complicado gesto

“Quando te aproximares da terra, abre os olhos
Américo Vespúcio – 1503

Haverá gesto mais simples que o abrir dos olhos? Na atual configuração da sociedade, a pergunta correta a ser feita é: será alguém capaz de abrir os olhos? Todos nós, Homo sapiens, julgamo-nos esclarecidos e racionais, mas não somos. Há alguns anos, em meu Brasil, grupos de seres esclarecidos e racionais decidiram mudar: puseram o nosso país nas mãos (uma delas incompleta) do salvador que o país tanto esperava, o homem do povo a quem o povo tanto desejava. Semi-iletrado, porém carismático, com a cara do povo, ele foi assunto e aclamado com se faz às divindades. Esse homem, quando era só um pobre homem, liderava turbas e as arrastava pelas ruas, a cantar o poder da união do povo e a protestar pelas "barbáries" que o governo cometia e a buscar seus direitos tão evidentes. Esse homem, liderando um povo enfurecido, destituiu um presidente. Agora, esse homem é presidente. Agora, onde andará aquele povo de outrora? Esse homem, agora frui da cornucópia de seu segundo mandato. O povo que o elegeu nunca teve anos tão felizes como esses do mandato do homem a quem me refiro: esse povo frui de outra cornucópia que consiste em comer, dormir, trepar e receber um mísero dinheiro por cada filho produzido; sua cornucópia não é nada perto daquela do presidente. Já o povo que não elegeu o presidente não se sente nem um pouco alegre. É certo que a história desse Brasil varonil não é um perfeito exemplo de retidão e bom comportamento, mas, como o próprio presidente diz: "nunca, na história desse país", a putaria foi tão grande. Sempre se roubou, mas jamais como hoje. Roubar deixou de ser crime ou pecado, roubar virou modalidade esportiva. O povo paga, à duras penas, impostos que são estupros aos bolsos; impostos esses que destinar-se-iam a melhorias por todo o país. E, de fato, os impostos são usados para melhorias, só que são melhorias nas casas, apartamentos e casas de cães de políticos por todo esse Brasil. Oxalá que esse dinheiro todo fosse roubado como deve-se roubar de acordo com a cartilha desse crime: discretamente. No entanto, como já disse, por ter virado modalidade esportiva, o roubo é realizado mormente em grandes arenas às quais dá-se os nomes de assembleias, congressos, palácios e plenários. O povo assiste, pacientemente, a esses torneios de roubo, porém assiste com os olhos fechados. Castelos são construídos, apartamentos funcionais decorados, e o povo continua de olhos fechados. A arcaica política do pão e circo dos antigos governos romanos, vem sendo utilizada como nunca: até quem não tem dinheiro para alimentar o seu filho possui uma televisão em casa, através da qual entorpecem-se com intermináveis histórias utópicas e jogos intermináveis. Assiste-se a tudo com olhos fechados.
Ó povo, abri os vossos olhos! Não temos todo o tempo do mundo. Só temos o curto tempo de um abrir de olhos.

Pequenas mudanças de ordem orçamentária

A partir de hoje, este blógue destinar-se-á não somente a textos fictícios de minha (incrível, magnífica, magistral, estupenda, esfuziante, maravilhosa e egoísta) autoria, mas também a pequenos comentários sobre a vida, o universo e todas as coisas que nos perturbam; ou seja, sintam-se em casa.