deixou-me atônito
e um tanto ávido
a esperar por notícias
da moça míope,
filha daquela
senhora estrábica.
pela janela
via um jardim babilônico
cuja visão
deixou-me sem fôlego.
vindo da porta
ouvi um baralho lúgubre
que pensei
vir do cão anêmico.
e era o próprio
avisando-me
o que eu esperava.
pela janela
vi que quase a um quilômetro
aproximava-se
a moça míope.
saltei a janela
e corri mui frenético
na direção
da moça míope.
quando nos aproximamos
pulou ela em meus braços
nem um pouco herculâneos.
sem qualquer palavra
despimo-nos do léxico
e das roupas
e sobre a relva
fizemos
um amor rápido.
de volta às roupas
e ao léxico
fomos à casa
contar e ouvir notícias.
disse-me ela o que
lhe dissera o médico;
era um diagnóstico
assaz demoníaco.
disse-me ela
que ora tinha
cistite atávica
cisticercose asiática
indevida insônia
pneumonia etérea
endometriose crônica
rubores pálidos
bronquite asmática
lepra tísica
intestino estúpido
paixão metódica,
e além de tudo
já era míope.
o doutor da clínica
a ela disse
que isso era prenúncio
de morte certa.
choramos bátegas
por sua morte próxima.
dei-lhe um
demorado ósculo
até que
me afastou
com suas mãos trêmulas.
lançou-me um
olhar lânguido.
disse-me ela
que morrer não poderia
guardando tamanho segredo;
tinha ela um outro
amor proparoxítono,
meu irmão,
maldito otávio.
enfurecido,
lancei sobre a míope
quente chaleira
com escaldante água.
e assim termina,
em simples tragédia,
meu amor hiperbólico.
em tremendo festival
de sentimentos antitéticos
deixei à míope
um bilhete póstumo
"tu eras vulgívaga,
mulher, carnívora;
vá ao inferno
ter com o senhor das víboras."
deixei-a lívida
estirada no pátio
de minha casa.
fugi para não
ser pego pela polícia.
escrevo agora de
algum canto da suécia.
ó, mulher míope,
foste a lógica
de minha vida errônea;
que a partir de agora
tu sejas
a lógica
das vidas errôneas
dos vermes de
teu futuro túmulo.
