domingo, 20 de junho de 2010

Sobre uma recém-adquirida orfandade

Sexta-feira, acordei mais tarde que de costume. Acordei tão tarde que logo fui almoçar. Vale lembrar que era tão tarde que não liguei o computador. Em dias normais, acordo e ligo o computador a fim de checar as notícias e coisas que possam me fazer compreender melhor o dia vindouro. Mas sexta-feira, como se pode ver, não era um dia normal porque acordei sem saber o que acontecia no mundo. Almocei e, finalmente, fui à máquina que me liga ao mundo, ávido por ver as coisas das quais me privara por um almoço mais cedo. Logo que liguei o aparelho, vi a notícia que me fez entender o porquê de ter almoçado antes de entrar em contato com as novidades do mundo, a morte de José Saramago. Não poderia receber uma notícia como aquela de estômago vazio. Pensei ser uma dessas piadas de que a internet está tão cheia quanto o inferno está transbordando de pessoas insistentes a dizer que ele está cheio de boas intenções. Procurei mais e percebi que não tinha como ser um engano, todos os sítios falavam disso, da Folha de São Paulo ao Le Monde. Um nó tomou conta de minha garganta, um nó daqueles que só saem com choro, muito choro. Chorei, o que, como se pode ver, não é lá muita novidade. Senti que um buraco negro se apossava de mim, uma sensação de vácuo mental. Não acredito, não acredito, não é possível, não é possível, era só o que conseguia articular em pensamentos. Não, era só o que conseguia vocalizar. Em meus poucos anos de vida, posso dizer, sem medo, que só sou como sou, só penso como penso, só falo como falo, por causa de Saramago. Se hoje defendo minha língua-mãe com unhas e dentes e tudo o mais, é por causa de Saramago. Fui à sua obra, não sei por que razão, mas sei que depois de conhecê-la tudo mudou. A sua prosa é deliciosa, melindrosa e até mesmo erótica. A forma como as palavras fluem, em períodos tão infinitos quanto a verve de José, é quase que saliente. Seus diálogos são tão rápidos quanto lânguidos, a nos revelar uma maneira de unir a linguagem popular com a linguagem mais erudita. Foi essa dança linguística que mostrou como realmente minha língua-mãe poderia ser preciosa e única, a mais bela língua. Saramago, além de me descortinar o português, me ensinou a pensar, se é que isso é possível. Antes dele, via o mundo como fui ensinado, ou melhor, não via o mundo. Foi o olhar ácido de José que me apontou um mundo além da porta logo ali, um mundo de ideias que se derrama, que se estende logo depois que passamos o pé da soleira daquela porta. Ele me ensinou que não posso ver o mundo pelo véu de outrem, mas que tenho, mesmo que não saiba, uma faca à minha disposição para, sempre que preciso, rasgar o pano. E é isso que Saramago fazia, ele rasgava. Rasgava opiniões, rasgava mitos, rasgava cânones, rasgava tudo que se lhe opusesse. Saramargo é a alcunha que lhe foi dada pela imprensa tupiniquim por conta de seus fortes posicionamentos ideológicos. Ateu, comunista e defensor de causas de esquerda, ele nunca se preocupou em agradar quem não lhe agradava. Há os que dizem que os ateus são insensíveis e amorais, e Saramago tratou de mostrar que, apesar da pele dura que ele dizia ter, era de uma sensibilidade única, somente passível de expressão através da escrita direta. Chorou ao ver o filme feito sobre seu livro mais conhecido. Tratava o amor como condição humana. Ele mostrou ao mundo que a língua portuguesa existe e pulsa até mais que outras. Criticava a sociedade e, principalmente, seus instrumentos de poder, governos e religiões. Talvez por conta disso, foi um gênio, como a maioria deles, compreendido por poucos e odiado por muitos. E quanto a esses muitos, pouco lhe importavam. Um gênio, é comum pensar, passou anos trancafiado em escolas e faculdades. Como explicar um gênio que só fez um curso técnico e filho e neto de analfabetos, eis uma boa pergunta. Mas esse era José, um português do interior. Saramago dizia que todos são escritores, embora alguns escrevam, e outros não. O escritor José Saramago não era um mero ficcionista. Toda e qualquer história sua era uma alegoria para a crítica da sociedade atual. Mesmo criticando, ele nunca se pôs acima da sociedade, ele se sabia como parte do todo e se incluía num ciclo de imperfeições. Com a morte de Saramago, disse Fernando Meirelles, o mundo ficou mais burro e mais cego. O único lusófono a conquistar o Nobel não deveria morrer. Aquele que abriu os olhos de tantos não deveria morrer. O maior escritor não deveria morrer. O José não deveria morrer. Ele já disse que mesmo que a rota da vida conduza as pessoas a uma estrela, nem por isso elas foram dispensadas de percorrer os caminhos do mundo. É isso, ele percorreu os caminhos do mundo e, antes mesmo de chegar à sua estrela, brilhou sua luz àqueles que não usavam óculos escuros com suas pungentes e por vezes impagáveis digressões.
O nó ainda não me saiu da garganta porque eu sou filho de José. Saramago é meu pai.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Olympia

Ela estaria em sua varanda cor de laranja-árida, sentada em sua cadeira de náilon e plástico azul trançados. Eu chegaria, esgueirando-me pelas paredes, e ela me receberia com aquele afável sorriso que só os cansados conseguem dar. As mãos postas em seu regaço antes limpavam no avental o resto da sujeira que recobria as tangerinas, mas agora lhe fugiriam e procurariam meu rosto naquele ar cítrico. Chegar-me-ia no meio de suas mãos cheias de carinho rude. Ela me beijaria e me repreenderia por não haver ali aparecido nas últimas semanas. Eu tentaria lhe explicar que a vida moderna exige muito de seus participantes e, nessa hora, ela entraria na casa, já caminhando com certa dificuldade. Ficaria preocupado por achar que a magoara. Entraria também na casa e veria aquele ser, em gestos tão dóceis, arrumando a mesa para nós dois. Ela buscaria o café que estivera preparando e procuraria na geladeira minha geleia preferida. Sentar-nos-íamos à mesa e ela me daria o mesmo sorriso lá de cima a dizer que estava tudo bem, que, mesmo que eu demore, é sempre bom quando venho. Eu elogiaria, verdadeiramente, seu café, sua geleia e seu pão. Ela acariciaria meu rosto ao tomar mais um gole de seu café e perguntar-me-ia a razão de ali estar. Dir-lhe-ia que eram saudades e ela me diria que também sentia saudades mas não me poderia visitar porque, como já saberia, tinha aversão a viagens de longas distâncias, qualquer coisa acima de vinte quilômetros. Depois do café, poderíamos nos sentar no sofá da sala e eu recostaria minha cabeça em seu colo. Em leves movimentos, como se tecesse com meus cabelos as tramas do vestido de uma rainha, ela os afagaria e me indagaria sobre as dores dentro de mim. Eu, tentando não lhas dizer, diria que ela já vinha muito cansada da vida e não mereceria ouvir minhas dores e lamúrias. Ela, no entanto, me diria que essa é a função dos velhos no mundo, aliviar os problemas dos novos a fim de que, algum dia, quando velhos, eles o possam fazer com os novos novos, assim num ciclo que não há-de acabar. Por fim, contar-lhe-ia minhas agruras e choraria copiosamente até o momento em que ela, do alto de sua sapiência, me diria que tudo haveria de ficar bem, mesmo que não parecesse. Eu não iria poder mais chorar, eu não mais iria querer chorar. Abraçá-la-ia até que minhas lágrimas tocassem seus cabelos ora brancos de tanto ter sofrido, de tanto ter vivido. E ela me abraçaria como se estivesse a expirar. Eu olharia o relógio, num súbito achaque de modernidade, e, com pesar, teria de partir. Sem precisar falar, ela entenderia a mensagem e me levaria até a varanda cor de laranja-árida. Dar-lhe-ia um beijo e, antes que qualquer arrependimento pudesse aparecer, ir-me-ia embora. Ela ficaria a me acenar adeus à beirada da varanda cor de laranja-árida. Já perto do portão eu lhe diria, em alto volume, que na próxima semana eu haveria de voltar.

À Olympia que não conheci mas que deveria ser muito parecida com a Olympia a quem recorro amiúde a fim de tentar algo bom na vida encontrar.