Uma hora se passou, e a cadeira começou a ficar desconfortável. Eu já havia decorado todas as expressões faciais da secretária e da distinta senhora ao meu lado. Também já havia decorado tudo sobre a malfadada vida dos famosos, já que a única coisa que eu tinha para ler (além das placas com os nomes dos doutores nas respectivas portas) era uma pilha de revistas de fofoca.
Quando a porta do consultório do doutor Martin se abre, meu coração dispara, e penso "É agora..." Mas o doutor move seus inexistentes lábios para dizer: "Dona Genoveva, pode entrar."
Pela primeira vez em minha vida, quis matar uma velha. Olhei para o teto branco, e lá comecei a projetar o que poderia ser um novo filme do Tarantino; imaginei-me destroçando a inocente senhora, arrancando cada membro seu e depois jogando-os no elevador, e mandando ele para o 17º andar (ala infantil). Mas, a velha não tem culpa, a culpa é do incompetente do doutor Martin.
Ainda na sala de espera (tendo já lido todas as revistas), eu comecei a prestar atenção nos quadros que "enfeitavam" aquela saleta branca e que (não sei porquê) cheirava a formol. Surpreendentemente, todos os quadros (uso "todos os quadros" para não ter que dizer "as três gravuras produzidas por uma criança hidrocefálica") eram quadros que retratavam fruteiras. Fruteiras que abundavam de maçã, bananas, pêras e cebolas (infelizmente isso levou-me a lembrar da casa de minha avó, algo que realmente preferia enterrar. As lembranças, não a minha avó).
[uma hora depois]
A porta do consultório se abre.
"Augusto, pode entrar." Aleluia, minha vez!
Quando trombo com a velha Genoveva no corredor, reimaginei-me matando a pobre, mas tudo bem, isso passou, agora é minha vez.
- Augusto, sente-se, por favor. - murmurou o doutor com uma vontade quase inexistente.
Sentei-me no divã, e começou a verborragia de confissões. Tentativas frustradas de suicídio, traições por parte da minha esposa, sobrinhos chutando minha genitália e uma ervilha engasgada.
E o doutor nada falava, só escutava. Quer dizer, então, que eu esperei por três horas e paguei noventa reais, só por um criado-mudo? Se eu procurasse um criado-mudo, era só ir ao asilo e falar com o meu sogro!
Fechei meus olhos e fantasiei algo que me acalmou: eu descia do divã, agarrava ele com as duas mãos e o lançava sobre o doutor Martin. Mas, foi só pensamento, nem fiz... Quem me dera...
Saí de lá, e voltei à minha vida de miséria em minha casa.
Quando cheguei em casa, vi minha amada e infiel esposa sentada no sofá assistindo a um programa de culinária e anotando freneticamente as receitas.
Fui até a cozinha, peguei uma faca de churrasco, e fui andando calmamente em direção à minha companheira de leito (ou esposa, como preferir chamar). Levanto o meu braço, e num golpe só procuro acertar seu pescoço, para matá-la de uma só vez. Porém, a faca estava sem corte, e fica presa no pescoço da minha querida mulher, e ela vira-se para mim berrando e cuspindo sangue.
-... ois, três. Acorde!
Olho assustado ao redor. Parece que estou em uma tenda... Uma tenda roxa... Em minha frente está um homem que usa um turbante, e uma longa barba anti-higiênica. Na sua mão direita está um pêndulo.
- E como foi? Lembra de algo de sua hipnose?
- Sim... Parecia um filme do Lynch... Nossa, agora realmente entendo o que querem dizer com "kafkiano".
- Bom saber que apreciou essa pequena viagem...
- Obrigado, seu... Seu vidente, ou seja lá como gosta de ser chamado.
- Obrigado? E o meu pagamento..?
- Pagamento? Esse negócio de vidente não é voluntário? Não é algo que você faz por um... chamado?
- Sim. Chamado monetário.
Rola um clima tenso, afinal, não tenho nada de troco na minha carteira, só meu cartão de crédito, mas acho que ele não aceita American Express.
Então, antes que a coisa piore, eu saio correndo.
No lado de fora, a fila era gigantesca.
Ouço um burburinho. O vidente vinha correndo atrás de mim com sua bola de cristal na mão. Ele joga a bola, tentando acertar em mim, só que a bola acerta um homem qualquer na fila.
Com esse homícidio, todos da fila passam a correr atrás do vidente, procurando vingança pela morte do companheiro de espera.
Já eu, saí impune, feliz e contente. Tive uma experiência digna de Kafka, e ainda sem pagar! O que mais eu poderia querer?
sexta-feira, 23 de maio de 2008
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