sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Autobiográfico

- Não, eu definitivamente não tive culpa. Uma coisa levou à outra. Eu não quis fazer isso. Tudo bem, não sejamos hipócritas: eu quis. Só que no começo eu não queria, só comecei a querer mesmo, depois que tudo foi se agravando. Mas a morte pesa, sabe? Ainda mais quando se quer, aí parece que o peso aumenta. Não matei um cachorro, uma barata ou um simples deputado, eu matei uma mulher! Um ser humano! "Não faça aos outros o que você não quer para si", eu vi que isso é fato. Eu matei a minha empregada! Confesso que estou um pouco feliz, afinal, me livrei dela, porém, estou à beira de um ataque (de nervos ou de loucura). Como aconteceu? Explicar-te-ei, mas, calma, a história é um pouco longa, você precisa saber desde o começo, "os fins justificam os meios", sabe? Bom, tudo começou no dia em que ela foi ao meu apartamento para uma entrevista. Ela estava vestida como uma mulher normal de sua idade, vinte e dois anos. Eu sou solteiro, logo, quando abri a porta e a vi, eu esqueci da entrevista. Sim, eu agi errado na hora, pensando que fosse um encontro, mas era inevitável. A despeito de sua casta inferior, ela sentou-se ao meu lado no sofá como se tivesse freqüentado uma escola de boas maneiras: sentou inclinando-se levemente para o lado, juntou as pernas e cruzou as mãos sobre os joelhos. Ela olhou para mim como um cãozinho abandonado, naquele seu olhar tão polido, que conseguia dissimular a sedução mais evidente, eu encontrei uma criança. E me senti culpado por tentar me aproximar de uma criança, e nessa hora eu ignorei tudo o que havia sentido anteriormente. E ela abriu aqueles pequenos lábios, e disse que estava ali porque sua mãe teve que cuidar da sua tia que havia descoberto um câncer de próstata, descobrindo assim que era hermafrodita, e entrou em crise existencial, ameaçando se jogar da janela de uma casa de bonecas. Meu sangue esfriou e suspirou de alívio: ainda bem que ela não iria ser minha empregada, assim não seria acusado de pedofilia (tenho certeza que ela não tinha mais do que dezesseis anos). Acho, até, que ela ouviu a minha corrente sangüínea voltando a fluir. Novamente, ela me fitou e perguntou se sua mãe poderia vir para a entrevista dentrou de dois dias, devido aos supracitados motivos. Com aqueles dois olhos clamando-me por clemência, fui obrigado a dizer que sim. Ela disse que agora que o recado estava dado, precisava sair. Ajuntou uma mecha de seus cabelos negros atrás da orelha direita, e se levantou com uma leveza própria de um maestro. Foi em direção à porta e esperou-me para abri-la. Abri, ela sorriu, disse-me algo como um "Até mais ver", e se foi. O ar que ela deixou no corredor, inebriou-me. Ela tinha ido e eu sequer sabia seu nome. Mas, tudo bem, devo esquecê-la, isso é coisa de momento, já passa. Durante os dois dias que se passaram, eu me ocupei em esquecê-la, mas só a esqueci, de fato, quando sua mãe veio. Chamava-se Aurélia e tinha quarenta e sete anos. Notei que o jovem esplendor da filha, certamente, vinha do esplendor maduro de Aurélia, na qual todos os adjetivos da filha deveriam estar no aumentativo. Com a mesma educação de sua filha, Aurélia sentou-se no sofá. Ela começou a falar e falar, mas eu não conseguia ouvi-la, sua imagem atingiu meus neurônios como um eletrochoque. Eu acho que ela falava sobre o porquê do seu atraso, mas eu não me importei. De repente, meus neurônios recuperaram-se do eletrochoque. Cortei o monólogo de Aurélia e disse que ela estava contratada. Ela ficou surpresa já que ainda nem tinha tocado no assunto de salário, carga horária e todo o blábláblá burocrático. Eu disse que mesmo assim ela estava contratada. De segunda à sexta, das oito da manhã até às cinco da tarde, começando na próxima segunda. Ela sorriu o mesmo sorriso de sua filha e perguntou se já poderia ir. Disse que sim e a acompanhei até a porta. Fiquei esperando na porta até ela pegar o elevador e descer. Enquanto esperava o elevador, ela arrumou o seu cabelo do mesmo jeito que a filha fizera. Tinha recebido convites para sair no final de semana, mas não saí. A imagem de Aurélia me doía. Passei o final de semana, praticamente, deitado em minha cama, graças ao deletério de Aurélia. Senti que em menos de dois dias, ela se tornara uma obsessão. "Isso vai passar, com ela aqui, todo dia, vai chegar uma hora em que não doerá mais", pensei. Na segunda-feira ela voltou. Cantarolava como uma escrava a lavar roupas no rio. Seu riso era como um mantra, que nas noites eu buscava recapturar na memória. Ela não precisava usar qualquer produto de limpeza, os seus pés lustravam o assoalho como se fossem dotados de uma eterna fonte de uma água virulenta e purificadora. O primeiro mês passou maravilhosamente. Muitas vezes em que ela estava limpando a janela, o banheiro, ou cozinhando, eu simplesmente me sentava no primeiro lugar possível e assistia a cena, imaginando que ela era uma gladiadora lutando contra as bactérias e germes. Um dia, sozinho em casa, me dei conta de que eu havia escondido todos os possíveis vestígios do meu casamento anterior, inconscientemente. Será que eu estava tentando conquistar Aurélia? Não, impossível. Ela só era um objeto para a minha imaginação de roteirista falido. Certo dia, ela precisou levar sua filha para meu apartamento enquanto trabalhava. Eu fui obrigado a abandonar o local por algumas horas, era uma tarefa sobre-humana ter que ficar lá sem poder fazer nada. Como sempre, a rua me ajuda a acalmar os nervos, e também me inspira. Passear pelas ruas, sentar na mesa de um bar, pegar um ônibus qualquer, são coisas que me inspiram. Gosto de ver os transeuntes e imaginar o que eles estariam pensando. Voltei ao apartamento. Já tinha passado do horário de Aurélia, e ela não estava lá. Chegando no quarto, vi sobre a cama um bilhete: "Amanhã preciso falar com você", assinado por Aurélia. Não vi motivo para ela avisar-me de que precisava falar comigo, mas, tudo bem, eu espero. E não dormi nessa noite. Passei a madrugada conjecturando sobre a conversa com Aurélia. Só consegui pegar no sono, eram, mais ou menos, cinco horas.No outro dia, pela manhã, bem cedo, ela fez algo que nunca fez: acordou-me. Ela irrompeu como um animal no meu quarto. Acendeu a luz, descobriu-me habilmente. Ela não sabia que eu costumo dormir nu, e logo atirou a coberta novamente em cima de mim. Aurélia estava com uma carranca de quem passou a noite em vigília forçada. Sentei-me na cama, ela atirou em mim um punhado de folhas encadernadas. Na primeira página estava escrito "O Agonizante Demônio Humano - Uma Peça Autobiográfica", vi que abaixo do título estava meu nome. Mas não era possível, havia mais de dois meses que eu não conseguia escrever sequer uma linha com sentido! Eu ouvia a respiração irritada de Aurélia. Fui folheando aquela peça, e vi que era uma peça, escrita por mim, na qual eu era o personagem principal, e que depois de uma separação inicia um caso tórrido com a filha de uma empregada chamada Aurélia e que trabalhava em minha casa. Eu realmente não sabia que tinha escrito aquilo. Eu perguntei à ela onde ela havia achado aquilo, e ela disse que quando foi guardar minhas meias, ela viu aquilo na gaveta e tirou para abrir espaço, a curiosidade a fez abrir aquilo e se deparou com cenas e situações que, ao ler, estava gostando e achando bom, até lembrar do que estava inscrito na capa, a palavra "autobiográfica". Mesmo com seu pouco grau de estudo, ela pôde entender. Eu é que não entendia nada. Ela disse que agora entendia porque sua filha saía todas as noites, chegava sempre tarde e sorridente. Eu, transtornado, respondi que era impossível, já que havia um certo tempo que eu não saía de casa, e estava meio sem dinheiro, e nem sabia o nome da filha dela. Ela me perguntou o porquê do "autobiográfica" na capa, já que eu não tinha feito nada daquilo. Eu disse que às vezes, nós escritores, usamos termos como "autobiográfica" só para chamar atenção ao material, e complementei dizendo que eu não era o responsável pela criação daquela peça. Ela pediu para eu jurar por minha vida e por Deus que eu não estava com a filha dela, e que nada daquilo na peça era verdade. Eu disse que podia jurar pela minha vida, mas por Deus já ficava um pouco difícil, já que sou ateu. Ela disse que iria embora, e só voltaria no outro dia, e olha lá. Lendo a peça, vi que estava ótima, e reconheci meu estilo de escrever naquela peça. Mas eu simplesmente não me lembro de tê-la escrito! O problema, era que a peça citava muitos nomes, e tinha muitas situações que deveriam permanecer em segredo. No outro dia, Aurélia voltou a me acordar, mas dessa vez não descobriu-me. Ela trazia a sua filha. Disse que o nome dela era Bertoleza. Nesse dia Aurélia estava com uma carranca pior que a do dia anterior. Ela mandou Bertoleza contar tudo o que ela havia contado para Aurélia. Bertoleza disse que desde o dia em que sua mãe começou a trabalhar no meu apartamento, nós estávamos tendo um caso. Ela havia se apaixonado por mim no dia em que veio me comunicar da falta de sua mãe, e logo no primeiro dia de trabalho de sua mãe, ficou esperando ela ir embora para entrar e falar comigo. Bertoleza disse que eu sempre falo "com a língua meio pesada", e que ela estranha que durante o dia eu não falo desse jeito. Eu disse que tomo um remédio para o coração, às cinco horas da tarde. Bertoleza achava que era por causa do remédio, e ficou chateadíssima pelo fato de que eu não me lembrava de "tudo que a gente tinha feito". E Bertoleza continuou confirmando tudo que estava escrito na peça, e contou coisas além do que estava lá. Aurélia estava chorando. Eu não agüentei aquilo, era muita coisa para um dia só. Pedi que elas fossem embora. Bertoleza perguntou se não ia ter nada essa noite, eu fiquei um pouco irritado e bati a porta na cara dela. Achando que tudo isso poderia ser do remédio, não tomei ele naquele dia. Eu geralmente estava indo dormir cedo, esse remédio dá sono, mas hoje, como não tomei, fiquei acordado. No outro dia as duas voltaram. E Bertoleza trazia algumas fotos e alguns vídeos. Em todos eu estava. E eu realmente falava meio estranho, mas o resto eu até que estava fazendo bem certo. Aurélia e Bertoleza sentaram-se em ordem alfabética no sofá, e arrumaram as pernas e o cabelo de formas iguais, e falaram em uníssono que queriam sete mil reais para não mostrarem aquele material para todos que eu conhecia, e minha carreira seria arruinada. Eu respondi que minha carreira já estava arruinada, com isso elas não precisavam se preocupar, e que, obviamente, elas não conheciam todas as pessoas que eu conhecia. Bertoleza disse que nas noites que saía comigo, conheceu bastante gente que parecia ser importante. Como eu não me lembrava de nada, acabei aceitando a proposta. Elas disseram que queriam o dinheiro no dia seguinte, e foram embora. Elas haviam perdido toda a educação e o esplendor. Nesse dia, novamente, eu não tomei o remédio e vi que nada na minha saúde parecia ficar ruim sem o remédio. Eu tenho um punhal no meu apartamento, que comprei em um antiquário. Quando comprei, me disseram que aquele punhal pertencera a um poderoso barão do café da época do Brasil colônia. Tirei ele da gaveta, deitei-o na mesa da sala, e passei a noite sentado olhando para ele. No outro dia, elas chegaram um pouco mais tarde que de costume. Sentaram-se, novamente, no sofá. Eu, sem cerimônia, apunhalei Bertoleza em seu ventre, e cortei para os lados, para fazer bem feito. Aurélia berrava por misericórdia, mas era um sábado de manhã, ninguém iria ouvir. Enquanto Bertoleza agonizava no lamaçal de seu sangue, apunhalei Aurélia com mais força do que fiz na filha. Ao final da carnificina em Aurélia, ela parecia uma esponja que ao ser apertada espalhava o sangue em arcos pela sala. Bertoleza ainda estava se mexendo e vomitando sangue. Eu, dotado de toda a clemência do mundo, apunhalei-a mais três vezes no pescoço e uma nas costas. Não demorou muito, as duas se encontravam mortas no chão da sala, que agora estava vermelho e exalava um leve aroma de ferrugem. Estava tudo bem, eu havia tirado a minha roupa que estava transformada em um pano escarlate, e fui tomar banho. Só que nem tudo foi como eu esperava, e acontece que uma vizinha de baixo ouviu os gritos e chamou a polícia. A polícia chegou e a vizinha disse que os gritos vinham de cima, e a polícia invadiu meu apartamento. Eles viram a cena quase dantesca e ouviram o chuveiro ligado, foram ao banheiro, me derrubaram no piso molhado do banheiro, me vestiram, me trouxeram à delegacia, e... cá estou. Entendeu, doutor Ramos? Você acha que dá para fazer uma boa defesa?
- Olha só: entendi, mas acho que o seu caso vai ser um pouco caro.

3 comentários:

Karina disse...

ahaah, isso lembra um tanto O Cortiço, negonaaa Berolezaa!
Gosto mais dessa parte:
"estava ali porque sua mãe teve que cuidar da sua tia que havia descoberto um câncer de próstata, descobrindo assim que era hermafrodita, e entrou em crise existencial, ameaçando se jogar da janela de uma casa de bonecas."


:PPPP

Buenoo, vc está cada vez mais visceral e um tanto qndo Almodovariado

Anônimo disse...

/nemli

Cezar and Léia disse...

Congratulations!This blog is awsome!You have such a great talent!
Mainly I liked that about *Gossipers family things*! Very funny and it gave me some kind of feeling like * this is the real life for everyone*...
I couldn`t read all at the moment, furthermore I intend to do it and follow your thoughts!
Moreover I would like to invite you to take a glance in our blog “How life is in Luxembourg”(www.luxembourgdaily.blogspot.com).
As you know we are stuck here in Brazil waiting for our documentation ( VISA) to go there.
I do hope to be able to post and write about our life in Lux as soon as possible.
One more time, congratulations!
Léia