terça-feira, 14 de julho de 2009

Je ne crois pas

- Isso não se faz com uma pessoa...
- Isso o quê?
- Tu consegues parar de fingir, pelo menos, por um pouco?
- Quem disse que eu finjo, mulher?
- Eu.
- Tá bom. Digamos que eu finja; mas finjo o quê?
- Tu bem sabes.
- Não...
- Tudo.
- Tudo o quê?
- Ah, tá bom... Agora esqueceu até o que é "tudo"; "tudo" é tudo!
- Depende do que tu queres dizer com "tudo".
- Com "tudo" eu quero dizer "tudo"!
- Então, a senhorita diz que eu finjo tudo. Logo, se finjo tudo, esses quatro anos juntos não existiram, foram somente atuação...
- Exatamente.
- Estou a fingir quando digo que te amo?
- Sim.
- Estou a fingir quando te elogio?
- Sim.
- Estou a fingir quando conversamos?
- Sim.
- Estou a fingir quando tomamos café da manhã?
- Possivelmente...
- Estou a fingir quando na cama estamos?
- Sim... Não... É um pouco real, devo admitir.
- Portanto, eu não finjo todo o tempo...
- Tá bom; não finges o tempo todo, mas grande parte dele.
- Vou tentar reformular meu pensamento... Como é que descobriste que eu finjo?
- Não descobri, eu sempre soube.
- Se sempre soubeste, por quê estamos juntos há quatro anos?
- Porque... Porque eu... É que...
- Aonde queres chegar com essa história de fingimento?
- Ao cerne da coisa.
- Qual coisa?
- A... coisa. A coisa "nós".
- Somos uma coisa?
- Sim.
- Pensei que fôssemos duas coisas distintas.
- Rá! Chegaste aonde eu queria chegar... Tu és egocêntrico, materialista e megalomaníaco. Pensas em nós como duas coisas distintas, mas a partir do ponto em que engatamos um relacionamento, tornamo-nos uma coisa só.
- Posso ser egocêntrico e materialista, mas não megalomaníaco. Algum dia eu saí por aí bradando "Eu sou Napoleão!", "Adorai a Caesar!"? Nunca! E quando descobriste que eu sou egocêntrico e materialista?
- Não descobri, eu sempre soube.
- Se sempre soubeste, por quê estamos juntos há quatro anos?
- Pode parar de repetir o que disseste? A questão é que tu só pensas em ti.
- Só em mim?
- Só em ti.
- Aquela noite em que te levei ao hospital porque tinhas vomitado durante todo o dia, lembra? Por acaso, isso mostrou que sou egocêntrico?
- Bom, não... Mas fora isso, sempre foste egocêntrico.
- Certo. Então, todos os "eu te amo" foram provas de um egocentrismo?
- Sei lá... Talvez não todos... Mas a maioria.
- Todos os presentes que te dei foram provas de que sou um materialista egocêntrico?
- Acho que... não.
- Eu te amo, mulher! Precisas de alguma prova disso? Esse amor não ficou claro em quatro anos? Amar agora é sinônimo de egoísmo?
- Não preciso de mais provas... O amor ficou claríssimo em quatro anos...
- E o que é que eu fiz de errado..?
- Nada...
- Por que começaste toda essa discussão, então?
- É só que eu precisava que tu me dissesses que me amava, e eu não sabia como arrancar isso de ti; às vezes é difícil pra um homem dizer que ama uma mulher, mas pra ti não é difícil, e eu sempre me perguntei se não era difícil pra ti porque talvez fosse mentira, mas agora eu vi que tu me amas de verdade...
- C'est ça? Ah... Va au enfer, chienne! Et va te faire foutre, aussi... Je ne crois pas que tu as commencé tout cela seulement pour écouter "je t'aime"? C'est incroyable! Bon, tu es une chienne mais je t'aime.
- Ah... Que lindo! Adoro quando tu me elogias em francês, é tão lindo...

E Ele pensa: "Depois eu é que sou o egocêntrico e megalomaníaco?"

2 comentários:

Anônimo disse...

Só preciso da tradução da parte em francês agora! Mas coisa boa não deve ser (:
Gostei, gostei...!

Cezar and Léia disse...

Bonjour Léo!
ahhh très chic!
Ainda sem uma internet digna de uma normalzinha velocidade por aqui, mas acho que logo isso será arrumado.Espero!
Gostei muito do seu argumento nesse diálogo.Melhor ainda é aprender uns xingamentos em frances por aqui!
Aiiii como eu queria ter estudado mais no Brasil!
Parabéns pelo seu blog, cada vez melhor!
Abraços
Léia
PS> Eu e Marina lemos juntas o teu post e ela gostou muitoooo! Valeu!