aquela moça que diz viver sem amar
e aquele rapaz que dizem que ela buscou
a vizinhança ontem já perguntou
se a saída não foi a fim de fornicar
e a pobre dona flora até corou
só de crer que seu filho não mais haveria de voltar
e bem na hora em que ingrid o bogart iria deixar
e a moça trêmula na trêmula mão do rapaz iria pegar
e dizer que era mentira o seu viver sem amar
e ao rapaz todo o seu afeto confessar
alguém lá de cima grita que o cinema está a queimar
corre-se pra lá corre-se pra cá para ninguém no fogo se acabar
e a moça e o rapaz vão-se a correr e a disparar
na primeira esquina o rapaz parou
e a moça também o fez e logo a batida no peito disparou
o rapaz disse que sempre a amou
que em seus sonhos sempre a beijou
e agora finalmente na esquina a abraçou
a moça um sorriso esboçou
e o rapaz ao seu quarto a levou
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E Ele fechou o livro com aquela expressão de quem sente uma dor aguda começando. De fato, ela estava. No entanto, não era bem uma dor, uma dor no sentido próprio da palavra; eram lembranças que se misturavam ao poema que acabara de ler. Cenas vinham à sua cabeça mas Ele não sabia mais o que acontecera realmente e o que era parte do poema. Não, não. Na verdade, as coisas não aconteceram; eram mais lembranças do futuro. É como se fosse algo que não acontecera ainda, mas que Ele esperava acontecer. E não aconteceram. Aquele vazio lá dentro começou a doer. Rá!, era essa a dor; - não, não era. Para aí. Agora, Ele percebeu que aquelas lembranças do futuro também faziam parte do vazio que doía. Bom, taí, com tudo isso ele percebeu que aquele vazio não era só devido aquilo que ele imaginara - caos do século vinte e um; vida sem sentido; morte iminente; pagode - mas também a outras coisas. Sentou-se na cama e ficou tentando imaginar a que outra coisa se deveria aquela dor do vazio. Amor, anseios errados, saudades do que teve, saudades do que não teve, frio. Ele se sentiu como a Geni sendo atingido por bostas e pedras, só que interiores. Deitou-se. Olhava ao teto e aquilo só fazia aumentar a tal dor. Abriu novamente o livro, releu o poema e viu que isso piorou a situação. A dor agora era imensa. E Ele gritou, berrou, abriu a garganta, vagiu. Como fosse pó, a dor passou. Não preciso mais pensar em ir ao analista, pensou Ele. Porém, num brevíssimo instante a dor voltou. E tudo voltou a girar, as lembranças do futuro agora se misturavam às lembranças reais e às lembranças de sonhos; era uma orgia onírica. Ele, no meio de um êxtase não desejado, voltou a sentar-se na cama e lembrou-se de que Ele vivia com aquela dor, com aquele vazio, e que não era a primeira vez a ter um ataque daqueles. O problema é que toda vez Ele ficava assim desesperado, como se fosse a primeira vez do ataque do vazio. Por fim, acalmou-se. Terei mais um desses mais dia, menos dia, vá lá; fez um acordo consigo mesmo. É, dizem que isso é como pedras nos rins, é só esperar que um dia sai - e dizem também que só sai quando se morre. Morrer? Ai, começou a dor novamente. Morrer não não não não

2 comentários:
Eu conheço esse sentimento quase uma bagunça de ideias, visões que o coração faz trepidar a mente, enfim...
Muitas vezes acontece isso quando estou ouvindo uma musica.
A musica que vai tão profundo na alma, que até doi...Beleza também doi?
Eu tenho notado um amadurecimento na sua criaçao,é quase um auto mergulho introspectivo...Tá muito bom!
Parabéns e obrigada!
Visitar seu blog é certeza de uma boa leitura!
Hugs
Léia
*** eu quero ler em frances, preciso de sua ajuda pra indicar um autor ( não vá dizer Vitor Hugo, que eu acho muito dificil!!!)LOL
Sinceramente esse seu escrito foi bastante...como posso dizer...profundo? Talvez não seja essa a palavra, mas eu digo que ficou muito bom.
Beeijo :*
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