terça-feira, 8 de junho de 2010

Olympia

Ela estaria em sua varanda cor de laranja-árida, sentada em sua cadeira de náilon e plástico azul trançados. Eu chegaria, esgueirando-me pelas paredes, e ela me receberia com aquele afável sorriso que só os cansados conseguem dar. As mãos postas em seu regaço antes limpavam no avental o resto da sujeira que recobria as tangerinas, mas agora lhe fugiriam e procurariam meu rosto naquele ar cítrico. Chegar-me-ia no meio de suas mãos cheias de carinho rude. Ela me beijaria e me repreenderia por não haver ali aparecido nas últimas semanas. Eu tentaria lhe explicar que a vida moderna exige muito de seus participantes e, nessa hora, ela entraria na casa, já caminhando com certa dificuldade. Ficaria preocupado por achar que a magoara. Entraria também na casa e veria aquele ser, em gestos tão dóceis, arrumando a mesa para nós dois. Ela buscaria o café que estivera preparando e procuraria na geladeira minha geleia preferida. Sentar-nos-íamos à mesa e ela me daria o mesmo sorriso lá de cima a dizer que estava tudo bem, que, mesmo que eu demore, é sempre bom quando venho. Eu elogiaria, verdadeiramente, seu café, sua geleia e seu pão. Ela acariciaria meu rosto ao tomar mais um gole de seu café e perguntar-me-ia a razão de ali estar. Dir-lhe-ia que eram saudades e ela me diria que também sentia saudades mas não me poderia visitar porque, como já saberia, tinha aversão a viagens de longas distâncias, qualquer coisa acima de vinte quilômetros. Depois do café, poderíamos nos sentar no sofá da sala e eu recostaria minha cabeça em seu colo. Em leves movimentos, como se tecesse com meus cabelos as tramas do vestido de uma rainha, ela os afagaria e me indagaria sobre as dores dentro de mim. Eu, tentando não lhas dizer, diria que ela já vinha muito cansada da vida e não mereceria ouvir minhas dores e lamúrias. Ela, no entanto, me diria que essa é a função dos velhos no mundo, aliviar os problemas dos novos a fim de que, algum dia, quando velhos, eles o possam fazer com os novos novos, assim num ciclo que não há-de acabar. Por fim, contar-lhe-ia minhas agruras e choraria copiosamente até o momento em que ela, do alto de sua sapiência, me diria que tudo haveria de ficar bem, mesmo que não parecesse. Eu não iria poder mais chorar, eu não mais iria querer chorar. Abraçá-la-ia até que minhas lágrimas tocassem seus cabelos ora brancos de tanto ter sofrido, de tanto ter vivido. E ela me abraçaria como se estivesse a expirar. Eu olharia o relógio, num súbito achaque de modernidade, e, com pesar, teria de partir. Sem precisar falar, ela entenderia a mensagem e me levaria até a varanda cor de laranja-árida. Dar-lhe-ia um beijo e, antes que qualquer arrependimento pudesse aparecer, ir-me-ia embora. Ela ficaria a me acenar adeus à beirada da varanda cor de laranja-árida. Já perto do portão eu lhe diria, em alto volume, que na próxima semana eu haveria de voltar.

À Olympia que não conheci mas que deveria ser muito parecida com a Olympia a quem recorro amiúde a fim de tentar algo bom na vida encontrar.

2 comentários:

Anônimo disse...

lindo texto. trouxe-me lembranças da infância que há muito estavam esquecidas. lindo mesmo léo...

disse...

Dona Olympia lembra uma velhinha de cabelos brancos simpática e muito pimpona que habita meus álbuns recordações.