Sentados num café, os dois tentavam negar-se, sabe-se lá o porquê. Mas não era possível. O ruído da xícara batendo na porcelana do pires parecia um convite à pronúncia de qualquer palavra. Mas não era possível. Esforçando-se para ignorar a presença dela, ele olhava para a janela à sua frente e tentava criar histórias para os transeuntes e a chuva. Mas eles passavam tão rápido. A única história que ele conseguia criar era a sua com a moça ao lado, vá lá, não era bem criar, a história já se autocriara em suas vidas, ele só a repassava mentalmente, o que não lhe era nenhum esforço. Ninguém diria que. Como assim ninguém diria que? Era um começo péssimo para a história dos dois, afinal, quem se iria importar com eles? Portanto, o começo deveria ser Ele nunca diria que. Mas ele sentia que ela também não diria que. Isso é facilmente resolvido com a ajuda de uma conjunção aditiva Ele e ela nunca diriam que, pronto. Ele e ela nunca diriam que, algum dia, poderiam estar juntos, até mesmo porque eles nem se conheciam direito quando se passava o tempo verbal de Ele e ela nunca diriam que. Quando se conheceram de fato, o estar ali juntos parecia inevitável. Talvez não fosse aquilo a que os astrólogos dão o nome de almas gêmeas, mas era ele nela e ela nele, como se seus olhos, os quatro olhos que naquela mesa de café se buscavam e se repeliam, de tão iguais, tinham a mesma cor, guardassem atrás de si a mesma pessoa. Aqueles olhos eram a prova de que isso de opostos se atraírem não funciona muito bem. A história dos dois era, no princípio, uma história que uma garçonete filha-da-puta vem interromper trazendo um pedaço de bolo para a moça. Continuando, a história dos dois era, no princípio, uma história de olhares fugidios e mãos também fugidias. Os olhares se encontravam furtivamente nas ruas, nas salas, nas praças, nos filmes e até mesmo nos céus. As mãos também tinham esses encontros fortuitos nas ruas, nas salas, nas praças, nos filmes e até mesmo nos céus. O que realmente faltava era aquele encontro, não tão fortuito assim, do resto dos corpos. E, graças ao deus em que nenhum dos dois punha muita fé, os corpos se encontraram, mas não como o Bandeira quer, aquele encontro sem as almas, o encontro dos dois foi um encontro comme il faut, com a bênção do céu aberto, de um tanto de árvores e de um tanto de água. Chegou a lembrar a Juventude do Bergman. Eles não queriam que sua história fosse aquela historinha convencional de boy meets girl, no entanto, caminhavam nesse sentido. Foi essa vontade de ficar longe do convencional que os uniu e os trouxe, de tão longe, até o café. Poder-se-ia dizer que o café era um dos elementos essenciais nessa junção, o café-bebida, não o café-lugar. Os dois já eram tão íntimos, já conheciam a nudez um do outro, já conheciam a língua um do outro, já conheciam o idioma um do outro. E, mesmo assim, sentados no café, os dois tentavam negar-se, sabe-se lá o porquê. Ele pensou que esse seria um bom final para aquela história que, graças ao deus em que nenhum dos dois punha muita fé, ainda não tinha final. Ele tomou de seu café enquanto ela tentava criar história para aqueles clientes do café que se estapeavam na fila do caixa. Mas eles passavam tão rápido. A única história que ela conseguia criar era a sua com o rapaz ao lado, vá lá, não era bem criar, a história já se autocriara em suas vidas, ela só a repassava mentalmente, o que não lhe era nenhum esforço. Ela achava que. Não era possível que ela começasse sua própria história com Ela achava que, era preciso algo mais forte, mais correspondente à realidade. Ela sabia que, isso mesmo. Ela sabia que o que ele sentia por ela era mais do que essa coisa fast-food do século vinte e um. Ela também sentia esse algo mais substancial, mas não poderia dizê-lo, tinha de manter sua posição forte e intrépida, feminista, que fizeram com que o rapaz ao lado se encantasse por ela. Ela podia se lembrar dos dias que eles passaram antes de, efetivamente, se conhecerem. Ele, compulsivamente, mexia em seus óculos como se eles lhe fugissem e ela em seus cabelos, com aquela tendresse que lhe era própria. Talvez não fosse aquilo a que os astrólogos dão o nome de almas gêmeas, mas era ela nele e ele nela, como se seus olhos, os quatro olhos que naquela mesa de café se buscavam e se repeliam, de tão iguais, tinham a mesma cor, guardassem atrás de si a mesma pessoa. Ela sabia que ele odiava clichês e também sabia que ele não conseguia fugir do clichê de querer vê-la sempre que possível e o ainda maior clichê de elogiar seus olhos. Ela também não conseguia fugir do clichê de, só de vez em quando, não lhe responder algumas coisas e depois cobrir o rapaz com muitos beijos-clichês dos quais nenhum dos dois queria fugir. Era como se ela lhe falasse uns versos do Drexler, que viva la ciencia, que viva la poesia, que viva siento mi lengua cuando tu lengua está sobre la lengua mía! Ela o queria e ela sabia que ele a queria. Os dois já eram tão íntimos, já conheciam a nudez um do outro, já conheciam a língua um do outro, já conheciam o idioma um do outro. E, mesmo assim, sentados no café, os dois tentavam negar-se, sabe-se lá o porquê. Satisfeita por ter encontrado um final para aquela história que não tinha muita vontade de ter logo um final, ela tomou de seu café e se foi chegando perto do rapaz enquanto o rapaz, também com o a xícara na mão, se foi chegando perto dela. As mãos se encontraram fortuitamente embaixo da mesa do café e os olhos se encontraram fortuitamente na janela enquanto pensavam que aquela chuva nunca tinha sido tão molhada.
terça-feira, 20 de julho de 2010
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