- Thermatec, Viviana, boa tarde.
- Oi, Viviana. Meu nome é Diogo, e essa semana comprei um ar-condicionado de sua marca, e hoje fui instalar ele e houve uma pequena explosão que decepou a minha mão esquerda.
- Certo...
- E eu queria saber se a Thermatec cobre as despesas com hospital e psiquiatria...
- Certo... - em um misto de condescendência e interrogação. - vou estar lhe passando para o ramal 7, que cuida desses casos.
Enquanto Diogo aguarda, é tocada como música de espera uma parte de Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky. Na meia hora que se seguiu de espera, a mão de Diogo sangrou o suficiente para besuntar um touro, enquanto ele dançava ao leve som de Lago dos Cisnes. Quando iria começar a cantarolar, alguém atende.
- Oi, bom dia, aqui é Johann do ramal 7 da Thermatec, qual seria o seu problema?
"O chefe deve gostar de música clássica", pensou Diogo.
- É o seguinte, - Diogo pigarreou, e logo continuou. - comprei um ar-condicionado de vocês, hoje fui instalar e ele explodiu e arrancou a minha mão esquerda, e eu gostaria de saber se vocês cobre as despesas hospitalares e psiquiátricas.
- Certo... - Johann falou com aquele tom de quem aguarda pelo fim do expediente. - Preciso de alguns dados a seu respeito...
- Diga.
- A idade em que sua avó perdeu a virgindade...
- 17 anos.
- Seu ano de nascimento...
- 1977.
- Seu RG...
- 892754.697-52
- Seu filme preferido...
- A Malvada.
- A primeira vez que você pegou uma prostituta eslava...
- Nunca.
- Seu feriado preferido...
- O Dia do Gavião Dourado, no Tibet.
- Seria só isso mesmo, senhor Gonçalves.
- Tá, e agora? - Diogo geme, o gato estava lambendo sua ferida aberta.
- Agora o senhor aguarda só um instante enquanto processamos seus dados, sua ligação é muito importante para nós. Na espera, o senhor gostaria de estar ouvindo Chopin, ou uma composição para cordas de Bartók?
- Bartók.
Vinte e três minutos se passaram ao som de Bartok. Diogo sangrou um pouco mais, e estava tentando tirar a sua meia com uma mão só, quando uma mulher atende.
- Aqui é Anna O., do ramal de zoologia da Thermatec. Como poderia estar ajudando o senhor?
- Zoologia? Desculpe querida, mas meu problema não é com animais, e eu estava falando com Johann do ramal 7.
- Ah, sim... O ramal 7... Desculpe-me senhor, estaremos lhe passando de volta ao 7.
Mais cinqüenta e quatro minutos de espera, numa repetição de As Bodas de Fígaro, de Mozart.
- Alô? Senhor Diogo? Aqui é Johann...
- Diga-me o que houve Johann.
- Sim. Houve um pequeno problema... A idade com que sua avó perdeu a virgindade, que o senhor me forneceu, não confere com a que o senhor forneceu a um SAC de balas de goma.
- É que você não me disse se era avó paterna ou materna, eu disse a primeira que lembrei.
- Mas, senhor, nós estamos precisando desses dados!
- Escuta aqui, meu filho: eu gastei mil e quinhentos reais naquela porra, vou instalar, aquilo explode e arranca a minha mão esquerda, e ainda por cima eu sou canhoto! Tô com uma dor do caralho, meu gato tá aqui lmabendo a ferida e tomando o sangue. E você fica aí me perturbando com a idade com que a minha avó rasgou o lacre?
Após terminar de falar, ele ouve a 9ª de Beethoven. Percebe que foi colocado em espera, e aquela torna-se a perfeita trilha sonora para a sua ira. Quando já está bufando, Johann atende, e Diogo, cuspindo marimbondos:
- ME VÊ UM EXAME DE URINAAAAAAA!
- Gostaríamos de estar avisando, que você pode se dirigir ao hospital mais próximo, só por favor anote o número do protocolo.
- COMO QUE EU VOU ME DIRIGIR AO HOSPITAL, COM UMA MÃO SÓ? COMO EU VOU ANOTAR ALGO SE EU SÓ TENHO UMA MÃO?
Novamente, Johann desliga e Diogo ouve ao fundo a 9ª de Beethoven. Tomado por uma ácida e corrosiva raiva, Diogo joga o telefone contra o aquário, e corre para a janela. Com a calça embebida de sangue, senta-se desajeitadamente na beirada da janela, olha para o seu destino, e se joga. A mão (ou o lugar onde deveria haver uma) ainda jorrando sangue, junto com a velocidade da queda e o vento, acaba pintando a fachada branca do prédio, com seu sangue escarlate. Quando cai, acidentalmente cai em cima de uma pobre velha de oitenta e quatro anos, que sofria de osteoporose. Os dois morrem.
Após morrer, Diogo vê que a mão decepada fora a direita, e não a esquerda. Se soubesse disso antes, não teria se matado, mas agora que já fez isso, tudo bem.
Até hoje, Diogo está no Purgatório em uma espera numa ligação para o Céu. Só que dessa vez, as músicas de espera são de uma coleção dos anos 80.
Me parece que o Céu não atende o telefone, pois está em uma reunião com a contabilidade.
P.S.: Diogo acha que, quando Johann perguntou-lhe sobre Chopin ou Bartók, se tivesse respondido Chopin talvez nada disso tivesse ocorrido. Exceto pela mão decepada.
Mão direita.
terça-feira, 20 de maio de 2008
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2 comentários:
mutcho bom!!
eu não tenho, nem uso telefones por essas coisitas.
ahh devo acrescentar que não passei numa entrevista de emprego pra telemarketing, motivos? óbvios(ou seriam óbitos via fibra óptica?), não sei, sei que gostei do seu escrito camarada! ^^
Já disse e direi novamente!
MIsto de Happy Tree Little Friends e Woody Genial Allen.
ObriCado pela atenção!
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