terça-feira, 2 de junho de 2009

Sobre um complicado gesto

“Quando te aproximares da terra, abre os olhos
Américo Vespúcio – 1503

Haverá gesto mais simples que o abrir dos olhos? Na atual configuração da sociedade, a pergunta correta a ser feita é: será alguém capaz de abrir os olhos? Todos nós, Homo sapiens, julgamo-nos esclarecidos e racionais, mas não somos. Há alguns anos, em meu Brasil, grupos de seres esclarecidos e racionais decidiram mudar: puseram o nosso país nas mãos (uma delas incompleta) do salvador que o país tanto esperava, o homem do povo a quem o povo tanto desejava. Semi-iletrado, porém carismático, com a cara do povo, ele foi assunto e aclamado com se faz às divindades. Esse homem, quando era só um pobre homem, liderava turbas e as arrastava pelas ruas, a cantar o poder da união do povo e a protestar pelas "barbáries" que o governo cometia e a buscar seus direitos tão evidentes. Esse homem, liderando um povo enfurecido, destituiu um presidente. Agora, esse homem é presidente. Agora, onde andará aquele povo de outrora? Esse homem, agora frui da cornucópia de seu segundo mandato. O povo que o elegeu nunca teve anos tão felizes como esses do mandato do homem a quem me refiro: esse povo frui de outra cornucópia que consiste em comer, dormir, trepar e receber um mísero dinheiro por cada filho produzido; sua cornucópia não é nada perto daquela do presidente. Já o povo que não elegeu o presidente não se sente nem um pouco alegre. É certo que a história desse Brasil varonil não é um perfeito exemplo de retidão e bom comportamento, mas, como o próprio presidente diz: "nunca, na história desse país", a putaria foi tão grande. Sempre se roubou, mas jamais como hoje. Roubar deixou de ser crime ou pecado, roubar virou modalidade esportiva. O povo paga, à duras penas, impostos que são estupros aos bolsos; impostos esses que destinar-se-iam a melhorias por todo o país. E, de fato, os impostos são usados para melhorias, só que são melhorias nas casas, apartamentos e casas de cães de políticos por todo esse Brasil. Oxalá que esse dinheiro todo fosse roubado como deve-se roubar de acordo com a cartilha desse crime: discretamente. No entanto, como já disse, por ter virado modalidade esportiva, o roubo é realizado mormente em grandes arenas às quais dá-se os nomes de assembleias, congressos, palácios e plenários. O povo assiste, pacientemente, a esses torneios de roubo, porém assiste com os olhos fechados. Castelos são construídos, apartamentos funcionais decorados, e o povo continua de olhos fechados. A arcaica política do pão e circo dos antigos governos romanos, vem sendo utilizada como nunca: até quem não tem dinheiro para alimentar o seu filho possui uma televisão em casa, através da qual entorpecem-se com intermináveis histórias utópicas e jogos intermináveis. Assiste-se a tudo com olhos fechados.
Ó povo, abri os vossos olhos! Não temos todo o tempo do mundo. Só temos o curto tempo de um abrir de olhos.

6 comentários:

Cezar and Léia disse...

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Luna
( www.weloveluna.blogspot.com )

Anônimo disse...

"nas mãos (uma delas incompleta)"
ok, ri demais.

Cezar and Léia disse...

Hello Léo!

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Luna ( and mommy Léia )

Emi disse...

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Li!

Cezar and Léia disse...

Leo

voltei! :-) Não quero fazer spam , mas como sei que teu frances é ótimo, talvez você tenha interesse nesse blog:
http://pont-des-art.blogspot.com
Pont des Art gosta muito de citar Paul Valéry, não sei se vc conhece.
Beijo no coraçao
( ahh eu e o Cezar adoramos o beijo, abraço , queijo e vinhos!)Perfeito!

Anônimo disse...

é, continua valendo o antigo provérbio "o maior cego é aquele que não quer ver" . A maioria não ve por falta de conhecimento "por trás do olhar" que possibilite a interpretação. E a minoria beneficiada, faz de conta que não ve pq lhe convém como também convém à minoria que a maioria permaneça cega, e, portanto, manipulavél.
É isso aí amigo...valeu...
É só relembrar "o mito da caverna" de Platão.