quinta-feira, 2 de julho de 2009

O fumo vem, a chama passa

17 de janeiro
Ela é linda. Alta, branca, grande e vistosa. Nunca vi igual. E nem acredito que agora é minha! Nossos olhares se encontraram, e quando entrei nela, senti que ela sempre havia sido minha; foi algo indescritível. Pra ser sincero, agora só tenho olhos para ela. Ela lembra aquele tipo de casa que há nos Hamptons, em Nova York. Dois andares, uma varanda que circunda toda a casa e é de frente para o mar, com uma parte na areia. Há uma semana eu vim pra cá com minha namorada, fomos à praia, e foi aí que me apaixonei pela casa. Juntei algum dinheiro àquele que eu tinha guardado e foi suficiente para poder comprá-la. Há poucos móveis dentro dela, mas pelo pouco ali presente pode-se notar o bom gosto dos antigos donos. Já estou pensando em como decorá-la de modo que combine com a mobília já presente. Sim, eu que vou decorar a casa, minha namorada não é muito dessas coisas. A cozinha tem aqueles azulejos estilo português. O resto da casa é todo com assoalho de madeira. As janelas são grandes e com vistas de madeira pintada de preto. No anda de cima são três suítes e uma sala enorme com uma grande porta de vidro que leva até a varanda e que propicia uma bela vista da praia. Como estou de férias, semana que vem vou chamar um eletricista para fazer alguns reparos na parte elétrica e vou procurar alguns móveis.

26 de janeiro
Parece que a instalação elétrica da casa é um pouco antiga e me foi recomendado trocá-la. Segundo o eletricista, vai levar, mais ou menos, um mês até ficar toda a instalação pronta. E barato não será. Mas, meu pai diz que está disposto a me ajudar em tudo o que precisar. Além dos reparos elétricos, é preciso arrumar algumas madeiras que estão soltas ou rangendo. Já chamei também o marceneiro que dará conta disso. Vou aproveitar o marceneiro e pedirei que ele arrume alguns móveis que estão na casa. No quarto que escolhi, uma das mesas de cabeceira está que é só cupim. Volto aqui na próxima semana quando o serviço do marceneiro estiver pronto.

3 de fevereiro
Achei os sofás para a sala de cima. São dois sofás de quatro lugares, verde-claros, e já vêm com algumas almofadas brancas. Tenho que lembrar de chamar um pintor para pintar a sala. Serão três paredes brancas e a parede da porta de vidro será de um verde próximo ao dos sofás. O marceneiro terminou seu serviço, mas disse que se fosse eu, firmaria as cadeiras da cozinha. É lógico que aproveitei e pedi que ele as firmasse, afinal, não pretendo cair durante a janta. Quando fui à cozinha para ver as cadeiras, resolvi tomar um copo d'água. Peguei um copo, abri a torneira e um jorro de água marrom atravessou a cozinha. Voilà, chamemos algum técnico hidráulico. E lá se vai meu belo dinheiro...

7 de fevereiro
Hoje, comprei a mesa para a sala de jantar. Tem pés de madeira, trabalhados de forma simples, e um tampo de vidro. Comprei também seis cadeiras trabalhadas de um jeito meio art nouveau. O dinheiro está indo tão rápido; é tanto técnico e mão-de-obra, e ainda nem comecei direito a comprar as coisas para a casa. Como não entendo dessas coisas de construção e reparação, acabo acatando quase tudo o que os técnicos nas áreas dizem. Devia ter sido marceneiro, acho que ganharia mais e não seria tão imprestável como homem...

12 de fevereiro
Quanto à torneira da cozinha, já está tudo resolvido. O problema é o pintor... Chamei-o para que pintasse a sala de cima, o meu quarto e algumas coisas no andar de baixo. A sala de cima está pronta e meu quarto também. Mas, hoje, quando apareci para ver como andavam as coisas, vi, em cima da mesa da cozinha, o pintor e o eletricista agarrando-se em um louco jogo de braços e pernas e roupas no chão. Fiz bastante barulho no assoalho, mas a volúpia dos trabalhadores não permitiu que me ouvissem chegando. Assomei à porta e pigarreei como todos fazem quando querem ser notados. Os dois saltaram da mesa, correndo nus pela cozinha à cata de suas roupas. Depois que se vestiram, disseram-me que aquilo não era o que parecia. Eu disse que nunca pensei que o proletariado também tivesse representatividade na população homossexual. Foi nesse exato instante que lembrei que o pintor é também designer de interiores, e isso justificou a cena. Eu não posso arrumar nada elétrico e nem pintar uma parede, então, resolvi mantê-los, mas pedi que eles não deixassem esse fogo todo atrasar o trabalho, caso contrário, eu os demito e conto tudo para a mulher do eletricista.

13 de fevereiro
Minha namorada fez o primeiro e, até agora, único investimento na casa, comprou um jogo de roupas de cama. À tarde, observávamos a praia pela porta de vidro. Ela me olhou enquanto estávamos deitados no chão da sala e me perguntou se o pintor e o eletricista tinham o direito de inaugurar a casa. E, lá em cima, no chão, inauguramos a casa, com a bênção dos cupins do chão rangente.

22 de fevereiro
Pedi ao pintor que pinte a casa por fora; ele começa hoje. Decidi que a casa não terá sala de televisão, já estou farto de televisão na cidade, então por quê razão colocaria uma aqui também? No lugar onde ficaria a televisão ficará uma enorme estante que comprei em um antiquário, na qual vão estar alguns livros meus e da minha namorada. A casa me inspira de tal forma, que estou começando a trabalhar a ideia de pedir minha namorada em casamento.

5 de março
A parte de acessórios, utensílios dispensáveis e decorativos está pronta. Mas o resto... Isso tudo era só pra fazer alguns reparos na casa, mas já virou reforma. O eletricista e o pintor não querem sair da casa. A todo tempo eles arrumam mais coisas para fazer, mas, para mim, já está tudo bom, não precisa de mais nada. Desconfio de que eles querem continuar trabalhando aqui para que se possam ver todo dia sem precisar pagar motel. Já estou farto de sustentar o apetite sexual deles. Hoje volto para a cidade, mas depois de amanhã eu venho para cá e ponho um fim em toda essa palhaçada.

6 de março
Sei que o propósito desse diário é relatar os acontecimentos relacionados à casa, mas o fato a seguir deve ser narrada, afinal, não possuo outro diário e preciso escrever para aliviar a alma, não que o fato a ser relatado seja de extrema importância para a humanidade, até porque não devo ser o único que passou por isso, mas como disse, tenho que lavar a alma. Como já dito no dia 22 de fevereiro, eu decidira pedir minha namorada em casamento. Pois pedi. Acabo de chegar do restaurante onde fiz o pedido. À tarde eu fui ao restaurante e fiz tudo certo: entreguei a aliança para que o cozinheiro a pusesse no bolo; liguei para o quarteto de cordas; pedi que reservassem uma champanhe... No começo da noite busquei minha namorada em sua casa e fomos ao restaurante. Lá chegando, como sempre faço, abri a porta do carro para ela e fomos à mesa reservada. Até aí tudo bem. Começamos a conversar, e com o desenvolvimento da conversa, ela começou a me dizer coisas estranhas. Disse que, embora nossa relação fosse tudo o que ela pedira aos céus, estava faltando alguma coisa; o amor era recíproco mas não suficiente. Então, mesmo antes de começarmos a comer, ela me chutou. Não me queria mais. Levantou-se e saiu, com toda aquela graça que ela deixa por onde passa. Foi-se para nunca mais voltar. Durante uns cinco minutos eu fiquei parado com os olhos fixos na cadeira em que ela estava, até que me ocorreu que eu deveria falar com o maître e abortar a história do bolo e da champanhe, e deveria ligar para o quarteto de cordas a fim de cancelar. No fim das contas, a aliança já estava no bolo e a champanhe aberta, e tive que pagar por eles; pelo menos contei com o consolo da champanhe. Saí desolado do restaurante e resolvi ir à casa da praia para espairecer. Agora, escrevo enquanto vejo o mar à minha frente e ouço seu marulho acolhedor. Aqui de cima, olho para a casa e percebo como tudo (na casa) evoluiu; ela está linda, exatamente como desenhara em minha mente. --------------------. Agora, estou na cozinha e acabei de chegar de um breve passeio pela casa e está tudo pronto. Mantenho a minha posição e amanhã mando embora o eletricista e o pintor. E acabo de decidir que passarei a morar aqui; preciso de um pouco de paz e solidão neste preciso momento de minha vida.

7 de março
Mandei o proletariado embora; eles disseram algumas coisas sem importância e se foram. Parece que esta vem a ser a minha sina: a ida. Todos se foram; uns foram porque quis, outros se foram e eu não queria. Até eu me fui. Fui-me da cidade e vim para cá; fui-me de homem realizado a descontente; fui-me de mim mesmo.

8 de março
Acho que tudo isso que estou passando, a desolação não desejada e a solidão planejada, despertou em mim algo que adormecia: eu.

9 de março
Minha essência sempre morou nessa casa, embora eu não soubesse. Nunca me senti assim... tão cheio de... mim.

12 de março
Eu posso até andar pelado pela casa!

15 de março
Devo ir à cidade para resolver alguns problemas, pegar algumas coisas no meu apartamento e volto em dois ou três dias. Dessa vez eu levo o diário junto.

17 de março
Resolvi o que devia resolver e estou aproveitando o tempo aqui na cidade como nunca o fiz. Sinto-me muito bem. Eu acho que é isso que faz a vida, esse balanço, esse desequilíbrio de situações. Ficarei por mais dois dias aqui; é uma delícia ser um turista em sua própria cidade.

19 de março
Os prédios daqui falam comigo, eu juro! É lindo. Passeio pela cidade, sinto seu gosto, seu cheiro, e parece que faço parte dela. Estou voltando à casa. --------------------. Eu nunca acreditei em milagres. Bom, não sei se posso chamar isso que aconteceu de milagre. Agora com ela aqui, ao meu lado, dormindo, me sinto ainda melhor do que no dia em que me mudei para cá. Explicando: quando cheguei à casa, na pequena escada que leva à porta estava a minha namorada. Ela disse que o que fizera foi um grande erro e que não podia viver sem mim. Na hora eu até me esqueci de fazer um jogo duro e dizer que não dava a mínima pra ela; mas a verdade é que ainda a amo, e muito. Eu disse isso para ela e ela pulou em meus braços. Agora estamos aqui, ela dormindo, e eu escrevendo isso... Finalmente sinto-me pleno, de fato.


Os excertos àcima mostram a ruína e a guinada na vida do antigo dono da casa; guinada essa que durou pouco tempo. Na noite de 19 de março, enquanto Ele e sua namorada dormiam, o eletricista que trabalhara na casa ateou fogo à mesma. Ele e sua namorada se acordaram e tiveram tempo de sair da casa. Na escada que levava à porta estava sentado o eletricista. Este, ao ver Ele, desferiu sete facadas na região abdominal do dono da casa. Enquanto Ele morria, o eletricista disse que Ele não poderia ter feito o que fez a ele e ao pintor; disse que ambos se amavam e precisavam do dinheiro do pagamento de mais um mês para que fugissem para o Chile. O jovem Ele estava morto. A namorada do dono da casa conseguiu fugir envolta em um lençol branco; atualmente está em um casamento aberto com o engolidor de fogo de um circo mambembe.
A casa dEle, tão sonhada e desejada, não mais existe, as chamas lamberam toda sua estrutura.

5 comentários:

Cezar and Léia disse...

What the heck is that????
:)

We read everything, from beginning to end!Saint creativity!
Cezar & Léia

Anônimo disse...

minha mae narrou em voz alta aqui a história, até a luna ficou escutando PAHAHA

wtf, boa boa :D

Anônimo disse...

Que trágico fim de um homem... Os detalhes me fizeram imaginar as cenas. Não sabia se ria ou tinha dó. Gostei e vou pensar duas vezes antes de comprar aquela casa á beira mar.
Martha

Anônimo disse...

No começo parecia tudo tão feliz..! (Nota mental - nunca contratar dois funcionários gays ao mesmo tempo.)

Unknown disse...

trágico como sempre né! HAHAH tem que aprender a fazer finais em que o casal vive feliz para sempre.HAHA mentira, eu sei que não é o teu tipo. agora sério: ADOREI!