sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Sobre o traumatismo de Saramago

Sempre achei desnecessário e, talvez, desinteressante demais se pusesse aqui meus sentimentos e emoções e pensamentos de forma direta, crua; por isso, sempre os pus sob a máscara do lirismo. Mas, hoje, sinto que devo expor algo sublime; por favor, suportem este pequeno parágrafo. Acabo de chegar da primeira noite da sétima edição do Joinville Jazz Festival, e é esse o motivo do parágrafo. A noite começou com a banda do sexagésimo segundo batalhão de infantaria que trouxe todo aquele calor das big bands - e mostrou que até a plateia mais "seleta" sabe cantar Roupa Nova -; e a noite terminou com com Toninho Horta e seu quarteto, Toninho foi eleito por uma revista inglesa como o quinto maior guitarrista deste planeta azul. Mas foi o segundo concerto que rasgou minha alma. Foi a pianista Heloisa Fernandes. Ela, como quase todo bom músico brasileiro, é mais conhecida na terra do tio Sam do que aqui. Heloisa entrou no palco descalça e com um vestido branco e preto, e o piano a esperava. Sentou ao piano e abriu com um Pixinguinha e logo puxou um Hermeto Pascoal. Mas foram as suas composições que me tocaram. A terceira canção chama-se "Vou" e foi esta que abriu meus canais lacrimais. Suas mãos bailavam sobre as teclas e seu rosto mostrava toda a dor presente na composição. E em meu rosto caíam as lágrimas. Heloisa continuou com "Candeia", "Criança" e terminou com outra composição sua cujo nome me foge agora. Depois de uma apresentação sóbria e ao mesmo tempo emocionadíssima, a pianista deixou o palco sob aplausos que, se dependessem de mim, durariam toda a noite. Quando as pessoas dizem no palco que estão emocionadas por estar em tal lugar, geralmente mentem; mas os olhos de Heloisa mostraram que não mentia ao dizer que se sentiu honrada de estar no festival. Não me considero a pessoa mais dura do mundo, sempre choro com filmes e livros e canções; mas, Heloisa fez comigo o que só fizera Chopin, ela entrou lá na parte mais escura de mim e a trouxe à luz do piano. José Saramago em uma crônica sobre o livro "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez, disse que se a palavra "traumatismo" tivesse um bom significado, seria isso que o livro causara nele. E, portanto, digo que Heloisa causou em mim um enorme traumatismo.

Eis um trecho de "Candeia", não gravado por minha pessoa. Curto, mas dá para se ter uma ideia do poder da moça. Como não sei fazer direito essas coisas, deixo o link aí, a quem interessar.

2 comentários:

Anônimo disse...

eu ia te perguntar como foi o festival, mas depois dessa acredito que a resposta está bem clara! perdi mesmo...

Cezar and Léia disse...

Overdose cultural!
Bom...eu também perdi!
Ahhh e valeu mesmo pelos parabéns! Obrigada! :)
Léia