quinta-feira, 12 de junho de 2008

Logo Eu?

Lei de Murphy. Eis uma lei - uma das poucas - que é cumprida, não por seres humanos, e sim por um garoto malcriado chamado Destino. Quando tudo parece estar bom, quando você pensa "Ah!, agora sim vou ficar bem, calmo e tranqüilo.", tenha certeza, meu caro, não vai melhorar, você não vai ficar tranqüilo. E não, não me desculpe pela franqueza, sou realista, e por conseqüência, também sou pessimista.
Já cansei de pessoas que exemplificam a lei de Murphy, como "a fila do lado sempre anda mais rápido, e quando você muda pra ela, a outra que começa a andar mais rápido". Portanto, a partir de agora, quando alguém me questionar sobre a lei de Murphy, usarei o seguinte facto:
Era um dia normal, tudo que podia acontecer de errado para Ele havia acontecido - dia estranho, seria se algo de realmente bom acontecesse.
Ele sentou-se ao computador, mas, logo viu o horário e lembrou-se que tinha que sair. Foi até o armário, onde levou um certo tempo para achar a roupa que vestiria. Trocou de roupa rapidamente (gostei de como soou isso "roupa rapidamente". Experimente falar isso rápida e repetidamente), foi ao banheiro, escovou os dentes, voltou ao quarto e viu que era hora.
Como sempre, estava um tanto quanto atrasado. Foi juntado as coisas e jogando-as desajeitadamente na mala, saiu do quarto, foi à sala, catou a chave em meio a algumas contas a pagar, trancou a porta (também desajeitadamente. Tudo que Ele faz pode vir acompanhado do advérbio supracitado).
Saiu em direção à rua, mais especificamente, ao ponto do ônibus. Por alguns instantes aguardou a condução pública. Ao avistar o grande automóvel de cor chamativa, levantou-se e ficou em pé, a fim de o motorista do bonde, ver e parar para Ele poder entrar.
O grande automóvel parou (não, ele não parou. Ao dizer "parou", eu quis exprimir a seguinte idéia: "o bonde foi freando, de modo que sua velocidade foi diminuindo até chegar a uma velocidade na qual qualquer ser humano seria capaz de alcançá-lo, menos Ele." Vale lembrar, que o automóvel não parou, continuou em movimento enquanto Ele tentava colocar os pés, desajeitadamente, nos degraus.) Ele entrou, desajeitadamente, no ônibus. Ao olhar para o rosto do condutor, Ele notou um certo sadismo presente naqueles olhos proletários.
Ele andou desajeitadamente pelo ônibus, até achar um assento que mais lhe agradasse. Ele escolheu aquele lugar, porquê calculou meticulosamente (ou, se preferir, desajeitadamente) que ninguém se sentaria no assento da frente, ou no de trás. Porém, como tudo na vida de nosso desajeitado-mor, o cálculo deu errado, pois logo depois que entrou, uma mulher (mulher essa que, enquanto eu falava com Ele para poder transcrever-lhes essa magnífica parábola, Ele se referia à ela como "a filha da puta com gripe", e também "a desgraçada") sentou-se no assento que havia atrás d'Ele. Ele sentiu-se um pouco incomodado com isso, tendo em vista o facto de que Ele apresentava algumas neuroses relativas à pessoas, à limpeza, à organização, logo você verá o porquê desse meu comentário a respeito de suas psicopatias em potencial.
A mulher estava com gripe, ou qualquer uma dessas doenças que assolam (ao dizer "doenças que assolam, quis dizer algo como "ao sentir a primeira dor de cabeça e antes mesmo de espirrar ou tossir, a pessoa liga ao seu emprego dizendo que não pode ir devido à uma fortíssima gripe") a população no inverno. E Ele estava com uma blusa que tem a gola um pouco baixa, logo, sua nuca estava um pouco à mostra.
A mulher começa a tossir. Tossir. Tossir. Tossir. Tossir. Só que, a mulher não tossia como qualquer outra mulher normal e decente na face da Terra. A mulher tosse sem tampar a boca com a sua mão.
Ele sente um certo "ventinho" em sua nuca. Ele sente algo "molhadinho" em sua nuca. À essa altura, Ele está de uma cor, com a qual não conseguia-se distinguir entre ele e o assento. Ele pensa em olhar para trás, mas tem medo que ela tussa na exata hora em que Ele olharia para trás. Ele já não consegue mais se mexer, porquê imagina aquelas bactérias oriundas da mucosa bucal da indistinta mulher, entrando em seus poros, e assim, pouco a pouco, infiltrando em seu organismo.
Como se não bastasse, a mulher tosse de novo, e novamente Ele sente o "ventinho" e o "molhadinho". Ele estava nesse momento, impassível, por exemplo, se uma bomba nuclear fosse detonada em sua frente, ele continuaria ali, parado, com aquela expressão perplexa e sentindo aquelas bactérias e vírus caminhando por sua nuca como se fossem tarântulas ansiosas por penetrarem suas perfeitas células.
A mulher tosse novamente, e novamente, e novamente, até que, a raiva d'Ele foi crescendo, num misto de ira e transtorno obssessivo compulsivo. Ele vira-se para a mulher detrás, fulmina-a com olhos cheios de fogo e neurose, olhos que nesse momento seriam capazes de congelar a própria Medusa. Ele diz para a mulher:
- Será que não dá pra tossir com a mão na frente, querida?
E a mulher, não notando, ou fingindo que não notava a fúria nos olhos d'Ele, respondeu:
- Ai, me desculpa, é que eu tô gripada.
"Eu notei que tu tá gripada, sua puta anti-higiênica!" pensou Ele.
- Então, dá próxima vez, coloca a mão na frente, por favor. - por incrível que pareça, Ele ainda tentou disfarçar a cólera com alguma polidez que ainda lhe sobrava.
Ele virou-se, vagarosa e desajeitadamente, no seu assento. Mesmo depois de ter falado para a mulher sobre o facto da mão na boca, Ele esperava que a mulher tossisse de volta, e fazendo assim, que a colônia bacteriana em sua nuca aumentasse.
Porém, a mulher, como que tomada por uma súbita solidariedade ("súbita solidariedade", também é engraçado falar isso), muda-se de lugar, e vai para o fundo da condução pública.
Ele olha para trás, mas não acredita. Olha novamente e nota que é verdade: a vaca gripada foi embora. Ele sorri, desajeitadamente.
O trajeto torna-se tranqüilo de repente, e Ele relaxa (com "Ele relaxa", entenda-se "Ele pega seu lenço e limpa a nuca infectada e depois joga o lenço pela janela").
Estava tudo bem. Estava tudo bem. Estava tudo bem. avatsE tudo bem.
Lógicamente, tudo não continua bem, mas prossegue seu ritmo desajeitado.
Ao sair do ônibus, Ele respira o ar poluído da cidade, ah!, aquelas doces moléculas de carbono entravam suavemente em suas narinas.
Quando vê o bonde deixar o ponto, ele acena para a mulher, dizendo algo do gênero de: "Tomara que você vá hoje ao médico, descubra que tem tuberculose em um nível avançado."
Ele suspira aliviado, olha para os lados, e continua andando pela rua. Depois de andar uns cinco metros, ele pára passa a mão em suas costas, olha para cima, olha para baixo, olha para trás. Passa de novo a mão nas costas. "Cadê a merda da minha mala?" Pensa o desajeitado.

Nenhum comentário: