A tênue linha que separa a vida, da morte (do sono eterno, do derradeiro descanso, da eterna paz, chame como quiser) sempre me fascinou. Imaginar que agora estou aqui, escrevendo, mas depois, ao colocar o pé na rua eu posso ser atropelado, enfartar ao atravessar a rua; é incrível! Não que ache incrível a idéia de morrer, mas o que me impressiona é a fragilidade da vida: algo tão forte, imponente, e - desculpe-me pelo trocadilho - cheio de vida; pode simplesmente se esvair caso você resolva nadar em um lago cheio de tubarões enquanto sua perna sangra incessantemente.
Há pouco tempo, um conhecido meu me contou a seguinte história: noivo e noiva acabam de se casar no cartório, e vão com toda a família comemorar em um restaurante. Foram com cinco carros. No caminho do restaurante, um caminhão cheio de gasolina vai ultrapassar outro caminhão na estrada, e acaba colidindo com o primeiro dos cinco carros, e assim, os outros quatro acabam colidindo-se sucessivamente. Morreram quinze pessoas, todas da mesma família, o único sobrevivente foi o pai da noiva. Após ouvir essa bela e acalentadora história, eu disse para a pessoa que me contou a história: "Pense positivo: pelo menos foi quase toda a família, assim o velho não precisa gastar muito e ocupar muito espaço mandando fazer tumbas individuais, ele que faça um só mausoléu e lá coloque todo mundo!" Logicamente, meu amigo me olhou com uma cara estranha depois que eu falei isso, e assim o fizeram as outras pessoas presentes. Porém, creio eu, que casos como esse são melhores, afinal, se uma família inteira morre, quem vai se ocupar chorando, certo? Isso não é pessimismo, somente pragmatismo! E olha que o pessimismo é uma de minhas qualidades mais atraentes...
"Viva todo dia como se fosse seu último dia"; "Viva hoje como se fosse morrer amanhã", quantos já não ouviram tais provérbios? Mas, pelo menos para mim, as coisas não funcionam assim. Se eu fosse viver todos os dias pensando que no outro eu morreria, eu certamente ficaria em casa, sentado no sofá da sala, de pijamas, encarando a parede branca, chorando ou tentando ler Ulisses, e isso realmente não seria um bom dia. Creio que ninguém sairia pela rua sorrindo e saltitando enquanto pensa: "La-di-da, amanhã vou morrer! La-di-da, minhas dívidas vou pagar!"
Para suprir a falta de algo (ou para eliminar um certo medo), as religiões criam suas teorias para o após-morte: paraíso, reencarnação, inferno, encontro com alienígenas, entre outras. Acho válido isso, afinal ninguém gosta de encarar o fato de que algum dia irá virar adubo, fará companhia para vermes subterrâneos. Mas a questão é: o que é melhor, adorar o Senhor Todo Poderoso para o resto da eternidade e escrever pra sempre o nome d'Ele com letra maiúscula; reencarnar em algum país sub-subdesenvolvido na África; passar eterno calor no inferno e ter que suportar as péssimas piadas do príncipe das trevas; viver alegre e contente com seres verdes, que possuem antenas e que utilizarão seus órgãos para experiências; ou simplesmente ser enfiado num caixão e lá poder deteriorar livremente sem ninguém perturbando?
Coco Channel e Henry Ford foram dois dos principais entusiastas do preto, até porque eles certamente sabiam da propriedade chic que o preto provoca nas pessoas e objetos. Agora me explique: quem decidiu que a cor do luto, tem que ser o preto? Acho injusto isso, deveriam ter feito uma votação pra saber a opinião das pessoas sobre isso. Eu certamente votaria no fuchsia, visto que essa é uma cor de tonalidade indefinida, com propósito indefinido e é uma cor mui feia; seria bom, afinal não é todo dia que se sai em luto, e quando se saísse de luto (todos trajando fuchsia) haveria a correta representação de algo ruim e desagradável, que é o luto.
No livro As Intermitências da Morte, José Saramago escreve sobre um dia, no qual ninguém morre. Acho que se ninguém morresse por somente um dia, não seria muito preocupante, mas eu fico imaginando como seria se, desde o início de tudo, ninguém tivesse morrido. Certamente, estaríamos todos morando em cubículos e nos apertando para caber em um só planeta. Mas isso não me preocupa, o que me preocupa é: se ninguém tivesse morrido até hoje, haveria lugar pra jogar o lixo?
"No dia seguinte ele acordou morto." Expressão geralmente usada na explicação da morte de uma pessoa que morreu enquanto dormia. Desde que me conheço por gente eu ouço tal expressão, porém - e essa é para mim uma das mais intrigantes questões da humanidade - como pode alguém "acordar morto"? Essa pergunta continua sem explicação até hoje, após anos de uso. Mas quem sabe no dia em que eu acordar morto alguém encontre a explicação.
Na Pré-história, se morria por conta do ataque de um tigre dente-de-sabre. Na Idade Antiga, se morria pelos deuses. Na Idade Média, se morria pela peste negra. Na Idade Moderna, se morria dentro de fábricas na Inglaterra. No início da Idade Contemporânea, se morria em uma explosão atômica. Nos anos noventa, se morria por overdose de heroína. Hoje em dia, se morre por overdose de impostos.
O que poderia levar alguém a, depois de anos cursando medicina, tornar-se um daqueles doutores que fazem autópsias (ou dentista, dá no mesmo)?
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Um comentário:
A teoria da fuchsia eh boa... nunca tinha parado pra pensar nisso, mas ja tinha pensado "Puta que pariu, eu posso morrer a qualquer momento" e sim, se eu soubesse que no outro dia eu iria morrer, eu viveria o hoje da forma mais depressiva possível...!
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