terça-feira, 10 de junho de 2008

Hoje é o Primeiro Dia do Resto da sua Vida

Meu rosto estampava todos os jornais e revistas, fui até chamado, por um desses jornais, de "a nova Shirley Temple, porém, com um pênis."
A verdade é que o povo adora uma criança que dança, canta, sapateia, atua e limpa a casa como um adulto normal (normal?). E eu fui isso durante alguns anos. Meu nome era sinônimo de lucro, e por conta disso eu era disputado à tapas por empresas que queriam renovar suas campanhas publicitárias, até uma empresa de cigarros me procurou (já imaginou uma criança loura, de cachos balançantes, cantando e dançando, e cantando numa propaganda de cigarros? Pois eu fiz isso!), e reza a lenda, que os lucros dessa empresa aumentaram por minha causa.
Se você ainda não sabe quem eu sou, vou lhe contar um pouco de minha história, para maiores esclarecimentos: Nasci no interior do Espírito Santo, em 1967. Meu pai era pedreiro e minha mãe era parteira (possuía tamanha experiência, que, contam algumas velhinhas da vila, que minha mãe fez o próprio parto e depois ainda fez um chá de camomila), e ao contrário do que dizem muitos artistas, na minha família não havia ninguém que possuísse alguma espécie de ligação com as artes, logo vê-se que minhas incríveis técnicas, foram desenvolvidas por mim mesmo. Saí do meu vilarejo quando tinha treze meses (eu e minha família fomos expulsos de lá, pois meu pai andava alisando as galinhas do vizinho), e fui parar no Rio de Janeiro algum tempo depois (mais precisamente, quando completei dois anos e tanto, afinal fomos de bicicleta. Só uma bicicleta). No Rio, tive a vida que toda criança pobre tem, morei em um barraco numa favela, o qual com cada chuva ou ventania, saía voando e eu tinha que rolar morro abaixo para alcançá-lo e depois reconstruir minha moradia; também cometia alguns pequenos delitos para sobreviver (traficava botes salva-vidas). Vivi "normalmente" até os quatro anos, quando um produtor de filmes norte-americano veio visitar o Rio, e num passeio à favela, me viu sapateando em uma esquina e me puxou para dentro do seu carro. Um dia depois estava em NY com ele. Lá, aprimorei minhas habilidades com aulas de dança, canto e atuação. No meu aniversário de seis anos, um amigo de meu pai seqüestro-adotivo, que produzia musicais, veio me visitar e me convidar para integrar o elenco de "Apalpando o Palco", a história de um menino cego que aprende a sapatear, cantar e aparar gramas, para esquecer os problemas ocasionados pela falta de visão. E acabei sendo o menino, papel principal! O filme foi um sucesso, e eu com seis anos já recebia propostas de casamento. Depois desse filme, fiz outros dois mega-sucessos: "Papai-Polvo", filme que conta a vida de um menino que uma vez naufragou no meio do Pacífico, e acabou no fundo do oceano, na cidade de Polvorosa, onde foi criado por um polvo; e o elogiadíssimo "A Fábrica de Pirulitos do Sr. Stein", que mostra como um homem judeu conseguiu se disfarçar de piruliteiro para escapar dos nazistas. Uma semana depois da estréia de "A Fábrica...", meu pai seqüestro-adotivo morreu por conta de um infarto e um derrame (que aconteceram simultaneamente). Fiquei muito abalado e passei três meses no ostracismo, mas mesmo assim, o povo não me esqueceu, até me ajudaram mandando cartas e bombons. Após essa triste fase em minha vida, voltei com tudo em uma releitura da tragédia de Tróia, intitulada de "O Coelhinho Aquiles e seus Amiguinhos", nesse filme intepretei Aquiles, um inocente coelhinho-soldado que mata todos com sua arma secreta: o maxixe. (Esqueci de mencionar que, após a morte de meu pai seqüestro-adotivo, o seu amigo produtor de musicais, me adotou, a sua nova galhinha dos ovos de ouro). Mas foi com "Os Meninos do Arco-Íris contra o Vilanesco Sr. Stein", a continuação de "A Fábrica...", nesse filme, o Sr. Stein deixa de ser o judeu sofredor e vira o vilanesco diretor da Escola do Arco-Íris. Nesse filme minha carreira foi catapultada e pude ter meu trabalho reconhecido também fora dos EUA. O filme foi aclamado por público e crítica, e foi até exibido no circuito competitivo de Cannes (lá encontrei Gene Kelly, ele disse que finalmente viu alguém recapturar o espírito dos musicais). Depois de "Os Meninos...", fiz várias campanhas publicitárias para empresas, e todas tiveram um lucro maior do que o esperado, graças ao sorridente rosto de um menino loiro e de olhos azuis estampado em seus produtos. Ganhei muito dinheiro, me tornei o mais jovem milionário dos EUA. Fiz filmes como "Confete!"; "Viva La Vida en Las Vegas"; "A Sorveteria do Amor"; "Travessuras na UTI"; "Amigo Amish"; "Maravilhas Modernas de Mademoiselle Marion"; "Um Dia no Sítio da Alegria"; "Cantando com o Proletariado" e uma versão musical de "O Crime do Padre Amaro" - só para citar os maiores sucessos, pois eu fazia, em média, quinze filmes por mês. Porém, a idade foi chegando e as ofertas de trabalho foram desaparecendo. Já com dezesseis anos de idade, os quinze filmes mensais se tornaram somente um por bimestre. Meu rosto e doçura infantis se foram, e assim, ninguém mais me queria, de repente todos me esqueceram. Me vi desempregado, mas ainda bem que havia guardado algumas economias. Com dezenove anos, ingressei no cinema pornô, só o que sobrava. O salário era razoável, mas como dizem por aí, eu unia o útil ao agradável. Consegui certo reconhecimento na indústria pornô, devido ao meu conteúdo, se é que você me entende. Fiz cinqüenta e três filmes num intervalo de quatro anos. No ano passado voltei ao Brasil, e fiquei trabalhando como caixa de um mercado, lá quase ninguém me reconhecia, exceto por alguns que me conheciam pelos musicais ou pelos pornôs, mas nunca me senti envergonhado por causa desse reconhecimento sexual, e já dizia um ex-companheiro meu de profissão: "antes que te conheçam pela maçaneta, do que pelo buraco da fechadura".
E cá estou eu, abaixo do Equador, onde não existe pecado, e nem dinheiro.
Se você conhece alguém que conhece alguém que conhece alguém, conte pra essa pessoa sobre a minha pessoa, mostre essa minha história, quem sabe assim volto para as telas.
Meus filmes são um pouco difíceis de se achar no meio comercial brasileiro, mas para os interessados, eles devem estar a venda em algum desses sites de leilão, onde as pessoas se desfazem do que já não lhes têm mais préstimo.

Nenhum comentário: