quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Enfadonho

Visito-me amiúde. Isso de ser visitado por si mesmo é maravilhoso, embora difícil. Talvez o pior desse tipo de visita esteja nas incontáveis vezes em que se faz mister sair correndo. Não obstante tudo isso, as visitas são agradáveis. Dentro de mim já encontrei Bento Santiago e Brás Cubas; Jesus Cristo e Santo Agostinho; Groucho Marx e Pedro Almodóvar. Todo eles pareciam velhos conhecidos; debatiam ideias e tomavam café. O leitor mais arguto, talvez o portento de sua família, pode estar a se perguntar "Por quê diabos alguém escreveria isso? Por quê estou a lê-lo?" Caro portento, não sei; e se o soubesse, tenho certeza que não escreveria isso. Porque todas essas frases terminadas em ponto final são mais indagativas do que aquelas condecoradas com um ponto de interrogação. É certo que o ponto de interrogação acabou por levar toda a fama de ser o curioso entrevistador; enquanto isso, o ponto final, pobre sinal, sonha em também ser reconhecido pelas indagações, cansou-se de afirmar e de fechar o tempo todo; ele quer, como as interrogações, abrir portões na mente. Mas, só vê essa fadiga do ponto final, aquele que está cansado das respostas, aquele que percebe que, na maioria das vezes, as perguntas escondem profundidades às quais só se pode submergir depois de certas visitas a si mesmo. O enfado do ponto final é também partilhado pelas vírgulas que, maltratadas pelo tempo, cansaram de pausar e separar as coisas; elas querem ser como as aspas que, quando bem utilizadas, aqui talvez o leitor arguto saiba o que quero dizer, podem abrir novos mundos. No entanto, as aspas, portais de frases, estão cheias de abrir e fechar as coisas, elas sonham em ser mais simples, quem sabe pontos finais. Tu que estás a deitar os olhos por essas linhas, talvez te perguntes como sei desses cansaços gramaticais; e eu, com toda a certeza que grassa na atmosfera, te digo que vim a saber de tudo isso somente olhando na almas de tais sinais. "E sinais de pontuação têm alma?" Por me perguntares isso, posso perceber que não és tal portento. Mas, sim, caríssimo, os sinais de pontuação têm alma, quiçá maior que a de muita gente. E a almas deles já vem cansada, invejosa, rota e decrépita há muito. Desde que foram criados ninguém lhes deu descanso, estão sedentos por novos ares. "Então, talvez, a dita nova reforma ortográfica lhes traga novos ares." Voltaste a ser o portento de outrora! orgulho-me disso. Estás certo, leitor; mas, como conheço os travessos sinais, sei que, não demora, já estarão, outra vez, cheios de fadiga. Bom, meu arguto leitor atencioso, vejo que chegaste ao final de um egocêntrico discurso que começou do nada e ao nada fadado está. Saiba que o autor das frases acima, à essa altura, já está com os dedos moídos e tem uma vida a tocar e, assim como os sinais de pontuação, já está começando a se importunar com as coisas e precisa de uma nova reforma.

2 comentários:

Cezar and Léia disse...

Adoravel viagem, ou melhor dizendo "introspectiva visão"meu amigo poeta!
Obrigada por continuar encantando seus amigos com loucas e lindas frases!
Assim a vida faz mais sentido, não acha?
PS: e aí...qdo vem nos visitar?
Abraços de Lux
Léia

PS 2 : tá difícil aprender francês meu caro!

douglas reis disse...

Não sabia deste seu lado, mas causou-me uma impressão muito favorável a sua analogia entre enfados sentidos por sinais gráficos e por seres humanos, talvez tão afeitos a uma rotina mecânica quanto aqueles. Parabens!